quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

O CAMPO ELETROMAGNÉTICO DO MÉDIUM

Religião Afro-brasileira. Livro Código de Umbanda. Por Rubens Saraceni (1951-2015). O CAMPO ELETROMAGNÉTICO DO MÉDIUM. Comentar a respeito do campo mediúnico é necessário porque tudo o que se tem escrito nas literaturas esotérica, iniciática, espírita, umbandista, teosófica, orientalista etc. Não aborda este que é o mais importante dos conhecimentos que um médium deve possuir. Todos sabemos que um ser humano, uma planta, um mineral e muitos animais não racionais possuem uma aura que os envolve, protegendo-os do meio exterior. Assim como sabemos que esta aura também é refletora da energia interior dos corpos inanimados. Nos seres vivos,  é a refletora dos sentimentos e dos padrões energo magnéticos e está intimamente relacionada com o campo emocional. Muitos conhecimentos profundos e elucidativos a respeito dos chacras estão disponíveis aos estudiosos dos mistérios dos “corpos” dos seres. Portanto, não nos tornemos repetitivos e vamos ao conhecimento ainda não comentado por nenhum espiritualista. E se há alguém que possua este conhecimento, então o guardou só para si, demonstrando que não foi digno de possuí-lo pois deveria tê-lo passado adiante. O campo mediúnico inicia-se no corpo elementar básico e expande-se uniformemente ao redor dele por aproximadamente uns trinta centímetros e até uns setenta, no máximo. Este campo mediúnico ou eletromagnético é comum a todos os seres humanos, independentemente de sua formação cultural ou religiosa. Aqui nos limitaremos só aos seres humanos, certo? O fato é que esse campo eletromagnético em sua sede no mental, que é a “coroa” coronário, iniciando-se ao seu redor e derramando-se em torno do corpo elemental básico. “Elemental” porque é elemento puro, é básico porque é o primeiro “corpo” que o ser humano teve formado em um estágio virginal no qual evoluiu. O campo mediúnico abre-se para o plano espiritual e é por seu intermédio que são estabelecidas ligações magnéticas com o mundo espiritual. Esse campo interpenetra outras dimensões, mas não s sente ou é sentido por quem vive nelas. O mesmo acontece com os espíritos em relação ao plano material. Atravessam paredes, corpos etc, sem alterar suas estruturas espirituais ou as estruturas físicas dos objetos tocados por eles. No universo tudo vibra e tudo é vibração. Logo, se tudo que existe no plano material obedece ao padrão vibratório “atômico”, no plano espiritual o padrão vibratório é o “etérico”. Etérico vem de éter ou energia utilizada a níveis suprafísicos. Em cada padrão vibratório específico, tudo se vos mostra regido pelas mesmas leis que sustentam as formas no plano material, agregados energéticos que, por magnetismo específicos, dão formação as massas ou corpos físicos. Na dimensão onde vivem os espíritos, existe um magnetismo semelhante ao do plano material, e sustenta tudo o que nela possa existir. A única diferença esta no relacionamento energético e na mudança ao padrão vibratório, tanto dos seres quanto das formas, plasmadas a partir do éter. Dessa forma, então saibam que todos nós temos um campo mediúnico que se abre para muitas dimensões da vida, que as interpenetra, ainda que disso não nos percebamos. Pois nosso percepcional espiritual está graduado no mínimo para captar as vibrações exclusivas da dimensão humana e no máximo para captar vibrações espirituais. Mas esse campo mediúnico interpenetra as dimensões ígneas, aquáticas, terrosas, eólicas, mistas, cristalinas, minerais, vegetais etc. Se desenvolvermos conscientemente nosso rústico percepcional, então poderemos captar as energias circulantes existentes nelas e que nos chegam de forma muito sutil. Esse campo mediúnico que, a falta de palavras de melhor definição, preferimos chamar de “campo eletromagnético”, é justamente a nossa tela refletora na qual as ligações invisíveis costumam acontecer. ´E nesse campo pessoal dos seres humanos que se alojam focos vibratórios ou acúmulos energéticos que refletem na aura a e a rompem, alcançando o corpo energético ou mesmo o físico, afetando a saúde. Embora em um primeiro momento os padrões vibratórios sejam diferentes, tudo o que nele se alojou vai pouco a pouco sendo induzido pelo nosso magnetismo por magnetismo. Isso é comum nos casos de obsessão espiritual, quando um ser não se afina conosco, aloja-se em nosso campo eletromagnético. O padrão vibratório do intruso é outro. Só passamos a ser incomodados quando ele adequa seu padrão ao nosso. Então, suas vibrações mentais, conscientes ou não, interferem no nosso mental por meio de nosso emocional, conduzindo-nos a desequilíbrios energéticos profundos. Essas interferências, se muito duradouras ou intensas, costumam desequilibrar-nos de tal forma que passamos a ter duas personalidades antagônicas em um mesmo ser e um mesmo espaço mediúnico. Como nosso corpo físico reage a estes estímulos vibrados pelo intruso alojado em nosso campo eletromagnético, então começamos a sentir desequilíbrios, dores, no próprio corpo físico. São as doenças não diagnosticadas pelos médicos. Os “passes” ministrados por médiuns magnetizadores e doadores de energias têm como função descarregar este campo dos acúmulos de energias negativas nele formados no decorrer do tempo. Por esse motivo, os passes magnéticos são fundamentais em um tratamento espiritual, pois os mentores curadores precisam ter em seus pacientes este campo totalmente limpo. Quando então começam a operar no corpo energético, onde realizam cirurgias corretivas ou desobstruí-las, chegando mesmo a retirar “tumores” formados unicamente por energias negativas internalizadas pelo corpo energético. Só depois de equilibrar o campo eletromagnético e o corpo energético dos eres é que os mentores curadores atuam no corpo físico de seus pacientes encarnados, os quais eles recorrem porque realizam curas maravilhosas onde a limitada medicina falha. É fundamental que saibam disso pois só assim entenderão o porquê dos passes realizados em todos os centros espíritas ou de umbanda. É para realizar a limpeza dos campos mediúnicos de seus frequentadores. Porém, enquanto nos centros espíritas usa-se o passe magnético, nos centros de Umbanda também se recorre aos passes energéticos. Quando são usados diversos materiais fumo, água, ervas, pedras ou colares etc., que descarregam os acúmulos negativos alojados nesses campos eletromagnéticos. O uso de guias ou colares pelos médiuns possui esta função durante os trabalhos práticos. As energias captadas vão se condensando, agregando, às guias e não são absorvidas pelos seus corpos energéticos, não os sobrecarregando e não os desarmonizando durante os trabalhos espirituais. Nem sempre o que parece folclore ou exibicionismo realmente o é. Se os mentores dos médiuns de Umbanda exigem determinados colares de pedras, eles sabem para que servem e dominam seu magnetismo, assim como as energias minerais cristalinas irradiadas pelas pedras. Ervas e fumo, quando potencializadas com energias etéricas pelos mentores, também se tornam poderosos limpadores de campos eletromagnéticos. Enfim, existe muita ciência por trás de tais procedimentos dos espíritos que atuam no Ritual de Umbanda Sagrada. Há também um outro aspecto que todos devem conhecer: quando alguém realiza uma magia, procedimento, contra ou em favor de alguém, ela primeiro reflete neste campo eletromagnético, para só depois afixar-se nele e ser internalizada. Se a magia é positiva, ela é imediatamente absolvida alcançando tanto o emocional quanto o corpo físico, melhorando o estado geral do ser. Se a magia é negativa, então surge uma reação física, energética, magnética, emocional e mental por parte do ser alvo, visando repeli-la. Mas nem sempre isso é conseguido. Então as defesas do ser enfraquecem-se e ele começa a internalizar os fluxos negativos direcionados que inundam seu campo eletromagnético com energias que, pouco a pouco ou rapidamente, o atingirão, enfraquecerão, ou desequilibrarão emocionalmente. Abrindo um amplo campo no qual atuações diretas começarão a acontecer. Essa é a mecânica de funcionamento das magias negras. Nas magias positivas, o campo eletromagnético absorve de imediato as energias que lhe chegam por meio de sua tela coletora de vibrações positivas e as internalizam, anulando parcialmente os efeitos de doenças físicas, psíquicas ou espirituais. Enquanto durar a vibração direcionada via orações e irradiações acionadas a partir da ativação de materiais potencializados etc., durará a captação das energias que chegarão. Tudo o que comentamos, até aqui, precisa ser estudado atentamente, pois o campo mediúnico ou eletromagnético não é a aura. Esta é tão somente composta por irradiações do corpo energético, um gerador energético por excelência. A aura é um espelho etérico do estado geral do ser e mostra, por meio de suas cores, os tipos de sentimentos vibrados e o padrão vibratório estabelecido no mental, que é o centro magnético do espírito. Nos processos de desenvolvimento mediúnico, todo esse campo eletromagnético tem seu padrão reajustado para que as incorporações se realizem da forma mais natural possível. No princípio, quando os espíritos adentram nesse campo, por estarem vibrando em um outro padrão, o médium se sente zonzo, dormente, desequilibrado etc. Seu equilíbrio gravitacional mental sofre uma interferência poderosa. Mas a medida que os mentores vão reajustando o padrão vibratório de seus médiuns, os choques vibratórios vão desaparecendo e as incorporações acontecem de modo quase imperceptível a quem está assistindo ao processo. Nesse ponto do desenvolvimento mediúnico, o campo eletromagnético do médium já foi totalmente reajustado e foi ajustado com o padrão vibratório atômico, físico. Na Umbanda, recorre-se às giras de desenvolvimento, quando vários recursos são usados ao mesmo tempo: defumações, palmas, cantos, atabaques e outros instrumentos, danças. Vamos comentar rapidamente estes recursos. Defumações. Descarregam o campo mediúnico e sutilizam suas vibrações, tornando-o receptivo as energias de ordem positiva. Palmas. Se cadenciadas e ritmadas, criam um amplo campo sonoro cujas vibrações agudas alcançam o centro da percepção localizado no mental dos médiuns. Com isso, predispõem-nos a vibrar ordenadamente, facilitando o trabalho de reajustamento de seus padrões magnéticos. Cantos. A Umbanda recorre aos cantos ritmados que atuam sobre alguns plexos, os quais reagem aumentando a velocidade de seus giros. Com isso, captam muito mais energias etéricas, que sutilizam rapidamente todo o campo mediúnico, facilitando a incorporação. Atabaques e outros instrumentos. As vibrações sonoras têm o poder de adormecer o emocional, estimular o percepcional, alterar as irradiações energéticas e atura sobre o padrão vibratório do médium. Ao desestabilizar o padrão vibratório, o mentor aproveita esta facilidade e adentra no campo eletromagnético, adequando-o ao seu próprio padrão e fixando-o no mental de seu médium por meio de vibrações mentais direcionadas. Em pouco tempo, o médium adequa-se e torna-se, magneticamente, tão etérico em seu padrão vibratório que já não precisa do concurso dos instrumentos para incorporar. Basta colocar-se em sintonia mental com quem irá incorporá-lo para que o fenômeno ocorra. Danças. A umbanda e o Candomblé recorrem as “danças rituais” pois, durante seu transcorrer, os médiuns se desligam de tudo e concentram-se intensamente em uma ação em que o movimento cadenciado facilita seu envolvimento mediúnico. Nas “giras” , danças rituais, as vibrações médium mentor se interpenetram de tal forma que o espírito do médium fica adormecido, já que é paralisado momentaneamente. O médium, em princípio, sente tonturas ou enjoos. Mas essas reações cessam se a entrega for total e não houver tentativa de comandar os movimentos, estes serão comandados pelo seu mentor. Um médium plenamente desenvolvido pode "dançar" durante horas seguidas que não se sentirá cansado após a desincorporação. Isso se deve ao fato de não ter gasto suas energias espirituais. Não raro, sente-se leve, enlevado, pois seu corpo energético, influenciado pelo corpo etérico do mentor, sobrecarregou-se de energias sutis e benéficas. Não entendemos algumas críticas infundadas com recursos sonoros com os que acabamos de descrever. Eles são últimos e foram aperfeiçoados por mentores de "elite" que ordenaram todo o Ritual de Umbanda Sagrada a partir do astral. Se tais recursos fossem nocivos ou não proporcionassem facilidades ao ato de incorporação, com certeza já teriam sido banidos das tendas de Umbanda. E todos os médiuns cujo desenvolvimento prescindiu do uso do atabaque e dos cantos fortes. Quando participam de uma engira, sentem uma diferença qualitativa na incorporação, pois se sentem realmente incorporados, quando antes só se sentiam irradiados. Nada é por acaso. Se o Ritual de Umbanda optou pelo uso de atabaques, cantos e danças rituais, não tenham dúvidas. As incorporações acontecem ou não, ninguém fica na dúvida se incorporou ou se o guia só encostou. Na dança ritual, o médium não comanda os movimentos em momento nenhum. E se tentar interferir cairá no solo, pois desligará seu corpo energético do ponto de equilíbrio vibratório localizado justamente no mental superior do guia nele incorporado. Médiuns caem durante as danças rituais porque não se entregam totalmente, ou tentam comandá-las. A simples interferência consciente é suficiente para anular as vibrações, mentais de seu guia, ou enfraquecê-las, desequilibrando toda a dança. Assim assumindo seu padrão vibratório e desarmoniza-se com o de seu guia incorporante. Essa interferência é nociva durante o desenvolvimento mediúnico, porém é nosso recurso para repelirmos incorporações indesejáveis ou negativas, quando quem tenta incorporar é um espírito do baixo astral. É a nossa capacidade de impormos o nosso próprio padrão vibratório, o qual nos resguarda das investidas dos obsessores interessados em nos causar desequilíbrios mentais. Tudo o que acabamos de comentar está relacionado com o campo mediúnico ou campo eletromagnético de um ser. Abraço. Davi

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

ÁRIES E LIBRA

Astrologia. Texto de Ricardo Lindemann. Capítulo Três. ÁRIES E LIBRA – Nosso interesse é mostrar, como a energia vai se manifestar de maneira oposta por exemplo em Áries (21 de março - 20 de abril) e Libra (24 de setembro - 23 de outubro). Áries, nessa Última Ceia, é representado por Simão, e Libra representado por João, o discípulo amado. Então, nós vamos encontrar que João está com as mãos cruzadas, em contraposição às mãos de Simão que estão em posição de comando, na cabeceira da mesa, e com a cabeça ele se impõe. Ao contrário, veremos João com os olhos fechados e com a cabeça inclinada, numa postura em que ele cede, enquanto Áries se impõe. Áries é a primeira parte do corpo que nasce. No Homem Celeste Áries corresponde à cabeça, enquanto que Libra, exatamente a 180º no zodíaco, corresponde aos rins. Alguém poderia perguntar: Que relação uma coisa tem com a outra? Ora, são os pontos de somatização das doenças, principalmente quanto ao signo Ascendente, que é o signo da hora do nascimento. Então, nós vamos verificar que os rins têm relação direta com a pressão arterial, e por isso, se o funcionamento deles não for adequado, a pressão tende a subir, e a consequência pode ser o derrame cerebral, o AVC. E, reversamente, o cérebro, a cabeça, é quem controla os rins, de modo que há uma correlação interessante entre esses dois pontos do corpo, como um comando e como o outro regula, equilibra. Áries é justamente o impor e Libra representa o ceder. Nós poderíamos dizer também, que o Apóstolo João, que é o discípulo amado e que simboliza Libra, representa uma postura pacificadora, uma postura diplomática, conciliadora, por isso ele cruza as mãos, enquanto que Áries vai representar justamente esse princípio da autoafirmação. Áries é regido por Marte, o deus da guerra, enquanto Libra é regido por Vênus, a deusa do amor. Áries tem o comando, a liderança, aquela cabeça tem que cruzar o canal vaginal, no momento do nascimento, para surgir à luz, para que a mãe dê a luz a criança do outro lado, e é um momento decisivo, a criança não pode, por exemplo, ficar em dúvida. Eu costumo dizer, principalmente aos librianos, que nós podemos ter dúvida para atravessar um rio com crocodilos antes ou depois de atravessá-lo, mas de preferência, não devemos ter essa indecisão nadando durante a travessia, que seria o pior momento para ficarmos indecisos. Assim também, o signo de Áries representa aquela força da Natureza que abre caminho aonde for necessário para o nascimento ocorrer, ele sai rasgando, como se diz na gíria, porque a intenção dele é produzir a vida, se ele morrer dentro da mãe morrem os dois, pelo menos em condições de um parto natural, e se ele nascer há uma chance da mãe também sobreviver. Então, há o momento decisivo de Áries, da cabeça, que corresponde também ao brotamento da vida na primavera, corresponde, por analogia, ao dia 21 de março, no hemisfério Norte, justamente o ponto de origem, o ponto vernal do Zodíaco, o início do ano astrológico. Está caracterizando assim, o ponto da verdade, o ponto de expressão máxima dessa visão direta. Enquanto Libra é representado por uma balança, buscando o equilíbrio, a beleza, a harmonia, ele evita o conflito ou a confrontação. Áries entende que é melhor um pequeno conflito agora do que um grande conflito depois, então quer resolver logo. Libra, ao postergar certos problemas às vezes gera outros ainda maiores, porque a bola de neve vai rolando e aumentando de tamanho. Então, é interessante questionar qual dos dois é o melhor. Áries ou Libra, ou como eu costumo perguntar: Quando se anda de bicicleta o que é melhor, cair à esquerda ou à direta? Ora, nenhum dos extremos nos interessa, o que nos interessa é justamente a virtude que se encontra no meio, como dizia Aristóteles: “In médio stat virtus”. Se nós formos assim observando esse jogo de equilíbrio dos opostos, entenderemos que Áries é a verdade e que Libra é a justiça, que Áries é a energia e Libra é a harmonia do fluxo dessa energia, que Áries representa todo esse elemento da iniciativa, enquanto que Libra já tem esse elemento da harmonia, do equilíbrio entre as partes. Então, Áries representa o impor a personalidade, e Libra representa o ceder, representa a relação com a coletividade. Áries é o “eu”, Libra é o “tu”. Nestas condições nós vamos encontrar um grande ensinamento da Natureza, que nenhum signo tem propriamente defeitos, mas pode carecer das virtudes equilibrantes do signo oposto. Então, o signo oposto de Áries é Libra, e é lá que Áries terá que encontrar as virtudes que o equilibrarão, por outro lado, o signo oposto de Libra, evidentemente, é portanto Áries, a 180º no Zodíaco e, por conseguinte, é em Áries que Libra precisa encontrar as suas virtudes faltantes ou equilibrantes, de modo a encontrar por sua vez o seu equilíbrio. O que é melhor, cair para a esquerda ou para a direita? O que é melhor, ceder ou se impor? Há momentos em que temos que aprender a ceder, mas há também outros momentos em que nós temos que aprender a nos impor, até para não nos tornarmos coniventes com um crime. Os pecados de Libra são geralmente de conivência, são crimes de cumplicidade, às vezes ele não sabe nem explicar como ele se envolveu em determinada confusão, porque o grande problema de Libra é não saber dizer não. Ele vai se enredando aos poucos nas confusões do destino, porque ele geralmente não sabe se impor no momento oportuno. Mas Áries que se impõe frequentemente demais, cria outro tipo de problema, cria conflitos onde não haveria necessidade, tornando mais áspera a passagem pela vida do que seria preciso. Áries representa a luta, e Libra representa a paz. Este é o símbolo magnificamente disposto por Simão e por João, Simão que em certos momentos até vem em defesa do Senhor, e se mostra apresentando a própria espada, enquanto que Libra, o discípulo amado João, tenta sempre ceder e conciliar, representando a expressão do amor e da beleza. Por isso que Libra é representado no Zodíaco por uma regência de Vênus, que é a deusa do amor das antigas mitologias, enquanto que Áries é regido por Marte, o deus da guerra. Aos poucos, vamos assim correlacionando também os planetas com os signos, segundo a correspondência clássica. Áries representa esse espírito urgente, empreendedor, pioneiro, o abre caminho, o aventureiro, o corajoso. Frequentemente possui um excesso de energia, odeia a restrição e ama a liberdade. Essa característica ariana, por excelência, está a indicar aquilo que eu correspondia a primeira parte do corpo que nasce, a cabeça, ele quer abrir caminhos, essa é a sua virtude. Se nós tivermos algo que precisa ser iniciado, se precisamos de alguém que abra caminho, Áries é a pessoa que devemos chamar para cumprir essa missão. Por outro lado, verificaremos que com Áries facilmente se criam atritos, e por que se criam atritos? Pela falta eventual das virtudes de Libra. Então, o que se chamam de defeitos de Áries são na verdade a falta das virtudes complementares de Libra. Muitas vezes Áries pode se apresentar algo egoísta, ou sem tato, sem diplomacia, colocando-se sempre em primeiro lugar. Sua natureza pode ser impulsiva ou belicosa, satírica, impaciente, querendo tudo para agora, negligenciando, às vezes, os detalhes, não dando atenção, de certa forma, às questões menores e eventualmente entrando em conflito com os sentimentos de outras pessoas, justamente porque ele não percebe, parece que não tem tempo de fazer esse planejamento dos detalhes. Eu lembro de um senhor que tinha Sol e Lua em Áries e Ascendente em Libra, e eu lhe perguntei como que ele fazia para tomar a direção numa viagem, se ele planejava antes de sair de casa, que itinerário ele faria. Não, ele respondeu. Disse que costumava descobrir tudo ao longo do caminho, que o importante era começar a caminhar. Então, Áries quer logo iniciar as coisas, não é de planejar muito, ele age de forma às vezes temerária, age sem pensar. Enquanto que Libra fica ponderando, medindo, pesando, e pensa tanto que acaba às vezes não agindo, posterga a ação, entra na filosofia do “deixa como está para ver como é que fica”. Nós vamos verificar que as qualidades atribuídas ao signo de Libra são seu lado encantador, harmoniosos, que preza a harmonia e as condições de vida agradável, a diplomacia nas relações, que evita o conflito, de um temperamento idealista, romântico, refinado, com uma certa natureza despreocupada. Essas virtudes de Libra são, exatamente, as que vão neutralizar os exageros eventuais do signo de Áries. Por outro lado, às vezes verificaremos que a falta daquela capacidade de decisão do signo de Libra se apresentará justamente porque lhe falta a qualidade de decisão que Áries possui. Por isso, é preciso que Libra aprenda a vencer essa indecisão. Libra precisa aprender com Áries a vencer a tendência mutável, para deixar de ser chamado, às vezes, de Maria vai com as outras, ora dado ao flerte, ora com uma certa frivolidade, porque oscila como a balança entre os opostos, e fica assim muito influenciável à opinião dos outros, e pode envolver-se em uma série de conflitos sem nem saber como neles entrou. Para que nós possamos sair de qualquer conflito, um ponto importante é perceber como nós entramos nessa zona de conflito. Este mural da Última Ceia está a nos sugerir exatamente isto, que o meio de todos os signos. Poderia talvez, numa imagem linearizada, não ficar tão claro, mas no Zodíaco, como nós podemos verificar no Homem Celeste, Libra para chegar a Áries, como é o diâmetro, terá que cruzar por cima do centro, assim como também, de Áries para se chegar à Libra terá que se cruzar por cima do centro. Aliás, o Cristo representa esse centro e como a imagem é linearizada, nessa composição astronômica, o círculo é projetado numa linha em que o meio é exatamente o ponto equinocial onde o Cristo está representado, “Cristo em vós a esperança de glória”, dizia o apóstolo Paulo em Colossenses 1,27. Vemos que Áries crescerá na medida em que conseguir tomar a direção de Libra, porque mesmo que ele não se torne um libriano, ele encontrará no meio do caminho o Cristo morando no seu coração. Reversamente, Libra ao tomar a direção de Áries, está tomando a direção que cruzará o centro do círculo, que é o Cristo no seu coração. De modo que este é um simbolismo de que a sabedoria mora dentro de nós, como também é dito na tradição budista, em A Voz do Silêncio: “Olha para dentro: tu és Budha”. Então, esse simbolismo que a sabedoria mora em nós, e que nós podemos encontrar esse ponto de equilíbrio, se encontra também nos Yoga-Sutras de Patanjali, o grande codificador do Yoga que há 2.600 anos atrás caracterizou a essência do processo básico da meditação no Oriente: “Quando a mente é perturbada por pensamentos impróprios, a constante ponderação sobre os opostos é o remédio”. Isso quer dizer que, ao invés de o ariano lutar contra os defeitos, lutar contra a sua impulsividade, a sua impaciência, ele deveria antes focar as virtudes do signo de Libra e assim complementaria a sua natureza de forma mais eficaz. Outra expressão muito interessante de Annie Besant (1847-1933) é o seu magnífico livro, Os Ideais da Teosofia – que nós podemos também recomendar, editado pela Editora Teosófica, no qual ela afirma que os ideais inspiram mais do que os Mandamentos, e realmente ao invés de dizer não através de um Mandamento, melhor é voltar a mente para o sim, para o afirmativo, para aquela direção que ela deve desenvolver. Portanto, se um ariano conseguir por um instante vibrar na frequência de um libriano, se o planeta Marte, que é regente de Áries, conseguir temporariamente entrar em sintonia com Vênus, a deusa do amor, que é regente de Libra, será como a relação da bela com a fera, o amor de Libra acalma a impulsividade de Áries. Entretanto, aquela energia feroz e vibrante, aquela energia bruta da vida que está a brotar na primavera, em Áries, e que alguns até podem comparar quase com um trator que abre caminhos, com o limpa-trilhos de uma locomotiva, com um jogo de boliche que derruba as coisas e abre caminho também tem a sua importância. Sem essa iniciativa porém,  toda aquela beleza pacífica de Libra pode ficar às vezes impotente, pode ser enganada, pode ser ludibriada, às vezes não consegue nem dizer não e aí ela se torna cúmplice, conivente com os problemas que o grupo criou. Então, ao ficar demasiado dependente do que os outros vão dizer, eventualmente o libriano não consegue tomar uma decisão. O caso clássico do problema libriano que eu costumo caracterizar num hipotético conflito entre os gregos e os troianos. Primeiros os gregos chegam para o libriano e dizem: “Nós precisamos do teu apoio”, ai ele diz: “Bem, eu vou pensar, quem sabe, talvez, há, então nós já te agradecemos de antemão o teu apoio, etc”, ele não chegou a dizer sim, mas também não conseguiu dizer não. Já os gregos entenderam que o libriano os estava apoiando. Passa um tempo e vêm os troianos com a mesma história, “olha, nós precisamos do teu apoio, etc”, e o libriano novamente não conseguiu dizer não, ele disse: “Bem, eu vou pensar, talvez, quem sabe”, acaba envolvido, e então os troianos dizem: “E nós te agradecemos pelo apoio”. E quando estoura a guerra entre os gregos e os troianos, e seja quem for que vier a ganhar a guerra, o libriano sempre vai ser considerado como um tipo de traidor, porque alguém vai dizer que ele também apoiou o outro lado. É interessante notar, que ao querer conciliar os dois lados, frequentemente o libriano ganha a fama de traidor, ou de frívolo, ou de não saber decidir e dizer não, e nem sempre é muito respeitado, enquanto ele não desenvolve em si a força de Áries e a capacidade de realmente escolher o que acha correto. Por outro lado, se nós precisarmos que venha o pacificador e delimite o território, para solucionar um conflito já existente entre gregos e troianos e porque normalmente esse conflito é por território, então nesse momento é o ariano que tem que chegar com a espada, estabelecer a divisão, marcar o chão, e dizer daqui ninguém passará, vocês ficam do lado de cá e vocês outros do lado de lá, e assim se restabelece a paz, porque alguém teve a coragem de estabelecer um limite, isso é que o Áries sabe fazer. Porém, uma vez demarcado o território, temos que chamar imediatamente ao libriano para assinar um tratado de paz e estabelecer a ordem novamente, pois se deixarem o ariano lá legislando, daqui a pouco ele criará uma nova guerra proque ele gosta de usar a força. Assim, a Natureza tem o momento da primavera e o do outono, tem o momento de iniciar a atividade e tem o momento do descanso. Áries representa essa atividade primaveril, e Libra  representa o início do recolhimento da vida no outono, quando as folhas caem, comparado também ao nascer do Sol em Áries, o início do dia, e o fim do dia, o pôr do Sol em Libra. Se pensarmos nessa natureza dos opostos, veremos que não adianta mandar soldar o guidão da bicicleta, precisamos às vezes dobrar para a esquerda, às vezes para a direita para manter o equilíbrio. Existe a hora de saber se impor como Áries, a hora de saber ceder como Libra, a hora de se impor e a hora de pacificar. E esta sensibilidade, esta habilidade, que é o que os antigos chamavam de sabedoria, não pode ser simplesmente ensinada por meio de uma palestra, por um vídeo, ou por um livro, no entanto, a reflexão, a constante ponderação sobre os opostos, dizia Patanjali, que é o remédio, essa meditação que busca, nem que seja por um instante alcançar um insight, uma visão do ponto de vista do outro lado. Desta forma, veremos que aqueles problemas que existem para o signo de Áries, por às vezes ter destruído relacionamentos, rompido com algumas pessoas, são desconhecidos para Libra, porque o libriano nunca rompe, por causa da dificuldade de dizer não, se envolve às vezes em confusões, mas sempre procura harmonizar-se com todos. Reversamente, os problemas de Libra, por não conseguir se impor e tomar decisões, estabelecer limites, são problemas que para Áries não existem, ou nunca existiram, porque ele já abriu caminho, ele resolve aquilo num instante, põe cada um no seu lugar. É, portanto, o equilíbrio entre Áries e Libra que vai simbolizar a estabilidade do Cristo, sendo que se supõe que o homem sábio saiba contornar um obstáculo, ora indo para a esquerda, ora indo para a direita. Eu gostaria, assim, de enfaticamente recomendar que nós refletíssemos sobre esses opostos da Natureza e sobre a sabedoria. A palavra sabedoria é originada do verbo latino sapere, que tanto tem a conotação de saber quanto de sabor, e portanto sabedoria é um tipo de saber que vem do sabor da própria experiência, é um tipo de saber que é sentido pela experiência direta, este é o verdadeiro significado etimológico da palavra sabedoria. Sabedoria não se pode encontrar nos livros, sabedoria é como andar de bicicleta, ninguém pode ensinar a ninguém, nós temos que aprender andando, mas se nós tivermos os referenciais das polaridades extremas e refletirmos sobre a utilidade de Áries e de Libra na Natureza, percebendo que um é bom numa circunstância, e outro é bom na outra, sendo o equilíbrio entre eles o nosso objetivo, quem sabe a sabedoria chegará mais perto de nós e a nossa vida poderá ser mais feliz, quer seja diretamente para nós como também para todos os outros ao nosso redor. Livro A Ciência da Astrologia e as Escolas de Mistérios. Abraço. Davi.

domingo, 23 de fevereiro de 2025

IV. RAJA YOGA

IV. RAJA YOGA. Texto de I. K. Taimni (1898-1978). SAMADHI PADA. Toda drastuh svraupe “vasthanam”. I-3. Então, o vidente está estabelecido e sua própria natureza essencial e fundamental. Este sutra assinala, de maneira geral, o que acontece quando todas as modificações da mente, em todos os níveis, foram completamente inibidas. O vidente é estabelecido em seu próprio svariipa ou, em outras palavras, atinge a autorrealização. Não podemos saber o que é este estado de autorrealização enquanto estivermos envolvidos no movimento das citta vrttis. Só pode ser percebido de dentro para fora, não pode ser compreendido de fora para dentro. Mesmo a compreensão parcial e superficial que podemos obter sob nossas limitações atuais, por meio do estudo e da reflexão, somente é possível alcançar após dominarmos por completo a teoria e a técnica do Yoga, apresentadas neste tratado. Os estágios mais elevados de consciência que se revelam no estado do samadhi, mencionados em I-44 e 45, são chamados de rtambhara ou geradores de verdade e retidão. À sua luz, o yogi pode conhecer a verdade subjacente em todas as coisas em manifestação. Mas ele pode conhecer a verdade dessa maneira, somente nas coisas que fazem parte de drsyam, o visto, e não de drasta, o vidente. Para isso ele tem que praticar nirbija samadhi (I-51). Vrtti sarupyam itaratra. I-4. Nos outros existe a assimilação do vidente com as modificações da mente. Quando as citta vrttis não estão no estado de nirodha, e drasta não está estabelecido em seu svarupa, ele está assimilado com aquele vrtti particular que ocorre ocupar, no momento, o campo de sua consciência. Uma comparação talvez ajude o estudante a compreender essa assimilação da consciência com a transformação da mente. Que ele imagine uma lâmpada elétrica acesa suspensa em um recipiente, cheio de água límpida. Se a água for violentamente agitada por um dispositivo mecânico, ele apresentará toda espécie de formas, em três dimensões, em torno da lâmpada, sendo essas formas iluminadas pela luz da lâmpada e mudando a cada momento. Mas, e a lâmpada? Ela se perderá de vista, e toda a luz dela emanada será assimilada, ou perdida, na água que a cerca. Que ele imagine, agora, que a agitação da água vá, aos poucos, diminuindo até que a água fique completamente parada. A medida que as formas tridimensionais começarem a desaparecer, a lâmpada elétrica irá aparecendo gradualmente e, quando a água estiver completamente tranquila, somente a lâmpada será visível. Esta comparação ilustra, de modo um tanto precário, tanto a assimilação da consciência do purusha, com a modificação da mente, quanto sua reversão a seu próprio estado não modificado quando a mente entra em repouso. A mente entra em repouso, ou através de para vairagya, desenvolvido por Isvara pranidhana, ou através da prática do samadhi, o resultado em ambos os casos é o mesmo, ou seja, Iluminação e Liberação. Este sutra, a exemplo do anterior, tem o propósito de responder, de uma forma geral, apenas a pergunta “que acontece a purusha quando não está estabelecido em seu svarupa? Seu completo significado somente pode ser compreendido quando todo o livro tiver sido estudado, e os vários aspectos do assunto adequadamente entendidos. Vrttayah pancatayyah klistaklistah. I-5. As modificações da mente são dolorosas e não dolorosas. Após indicar a natureza essencial da técnica do Yoga, o autor classifica os vrttis. Ele os agrupa de duas maneiras. Primeiro, em relação aos nossos sentimentos, se eles são dolorosos, prazerosos ou de caráter neutro. Em segundo lugar, de acordo com a natureza do pratyaya produzido em nossa consciência. Consideremos, primeiramente, a reação desses vrttis sobre nossos sentimentos. Essa reação, de acordo com Patanjali, é dolorosa ou não dolorosa, o que parecerá ao estudante superficial, um modo um tanto estranho de classificar as modificações mentais. É claro que há certas modificações que têm um caráter neutro, isto é, não produzem em nossa mente qualquer reação prazerosa ou dolorosa. Quando, por exemplo, ao caminhar, notamos uma árvore, trata-se de mera percepção sensorial que não desperta em nós qualquer sentimento de prazer ou de dor. A grande maioria de nossas percepções sensoriais, que resultam nas modificações da mente, têm este caráter neutro e forma classificadas como “não dolorosas”. Mas há outras modificações da mente que despertam em nós prazer ou dor. Por exemplo, quando provamos um alimento saboroso, ou vemos um belo pôr do Sol, ou cheiramos uma rosa, temos um sentimento nítido de prazer. Por outro lado, quando vemos uma cena horrível, ou ouvimos um grito de angústia, a transformação resultante da mente é definitivamente dolorosa. Por que, então, Patanjali classificou todas essas modificações da mente, que despertam em nós algum sentimento, como dolorosas? A razão é dada em II-15, juntamente com a filosofia dos Klesas. Basta, de momento, mencionar que, de acordo com a teoria dos klesas, na qual se baseia a filosofia do Yoga, todas as experiências de prazer ou dor são realmente penosas para as pessoas que desenvolveram a faculdade de discernimento e não estão cegas pelas ilusões da vida inferior. É a nossa ignorância, causada por essas ilusões, que nos faz ver prazer em experiências que são fonte potencial de dor e, portanto, nos faz correr atrás desses prazeres. Se nossos olhos interiores estivessem abertos, veríamos a dor “potencial” oculta em tais prazeres, e não apenas quando a dor está presente de modo “ativo”. Veríamos, então, a justificativa para a classificação de todas as experiências que envolvem nossos sentimentos e, assim, dão origem a raga e dvesa como dolorosas. Isto pode parecer ao estudante. Isto pode parecer ao estudante um ponto de vista um tanto pessimista sobre a vida, mas que ele suspenda seu julgamento, até que tenha estudado a filosofia dos klesas, na seção II. Se todas as experiências envolvendo os nossos sentimentos são dolorosas, então, é lógico que se classifique as demais, que são de caráter neutro e não afetam nossos sentimentos, como não dolorosas. Ver-se-á, então, que a classificação primária de citta vrttis como dolorosas e não dolorosas não e desarrazoada, mas do ponto de vista do Yoga, perfeitamente lógica e razoável. O outro ponto de vista com base no qual as citta vrttis foram classificadas é a natureza do pratyaya produzido em citta. O objetivo de classificá-los dessa maneira é mostrar que todas as nossas experiências, ao domínio da mente, consistem em modificações mentais e nada mais. O controle e a total supressão dessas modificações, portanto, extinguem por completo nossa vida inferior e levam-nos, inevitavelmente, à aurora da consciência superior. Classificados dessa maneira, os vrttis ou modificações são de cinco tipos, como se mostra no próximo sutra. Pramana viparyaya vikalpa nidra smrtayah. I-6. Elas são conhecimento correto, conhecimento errôneo, fantasia, sono e memória. Mais uma vez, num exame superficial, a classificação quíntupla pode parecer um tanto estranha, porém, um estudo mais profundo comprovará ser ela perfeitamente científica. Se analisarmos nossa vida mental, no que concerne ao seu conteúdo verificaremos que ela consiste em um grande número de imagens variadas. Um estudo mais acurado dessas imagens mostrará, todavia, que todas elas podem ser classificadas em cinco amplos subtítulos, enumerados neste sutra. Antes de examinarmos cada um desses subtítulos separadamente, nos cinco sutras subsequentes, tentemos entender, de maneira geral, o sistema fundamental de classificação. Pramana e viparyaya abrangem todas as imagens que são formadas por algum tipo de contato direto, através dos órgãos dos sentidos, com o mundo exterior dos objetos. Vikalpa e smrti abrangem todas as imagens ou modificações da mente que são produzidas sem qualquer contato direto com o mundo exterior. Elas são o resultado da atividade independente da mente inferior, usando as percepções sensoriais reunidas antes na mente e ai armazenadas. No caso de smrti ou memória, essas percepções sensoriais são reproduzidas na mente com fidelidade, isto é, na forma e na ordem em que foram obtidas previamente, através dos órgãos dos sentidos. No caso de vikalpa ou imaginação, elas são reproduzidas de qualquer forma e em qualquer ordem, a partir do material sensorial presente na mente. A imaginação pode combinar essas percepções sensoriais em qualquer forma ou ordem, coerente ou incoerente, mas o poder de combinar as percepções sensoriais está sob o controle da vontade. No estado de sonho, a vontade não tem controle sobre estas combinações, e elas aparecem ante a consciência, ao acaso, fantásticas e, frequentemente, absurdas, influenciadas até certo ponto pelos desejos presentes na mente subconsciente. O Eu Superior, com sua vontade e razão, retira-se, por assim dizer, para além do limiar da consciência, deixando a mente inferior parcialmente enredada, com o cérebro privado da influência racionalizante da razão e da influência controladora da vontade. Quando até mesmo os resquícios da mente inferior também se retiram para além do limiar da consciência cerebral, temos um sono sem sonhos ou nidra. Neste estado, não há imagens mentais no cérebro. A mente continua ativa em seu próprio plano, mas suas imagens não são refletidas na tela do cérebro físico. Que o estudante examine agora sua atividade mental, à luz do que se disse acima. Que ele adote qualquer modificação da mente concreta inferior, que opera com nomes e formas, e veja se não consegue inseri-la em um dos cinco grupos. Ele verificará, para sua surpresa, que todas as modificações da mente inferior podem ser classificadas sob um ou outro dos subtítulos e, portanto, o sistema de classificação é perfeitamente racional. É verdade que muitas das modificações, sob análise, apresentar-se-ão complexas e inseridas em dois ou mais grupos, mas logo se verificará que os vários ingredientes se adaptam a um ou outro dos cinco grupos. Eis por que os vrttis são chamados pancatayyah – quíntuplos. Pode-se perguntar por que somente as modificações da mente concreta inferior podem ser levadas em consideração na classificação das citta vrttis. Citta inclui todos os níveis da mente, o mais baixo dos quais é chamado manas inferiores, o qual funciona através de manomaya kosa e trata das imagens mentais concretas, com nomes e formas. A resposta a esta pergunta é óbvia. O homem comum, cuja consciência está confinada à mente inferior, pode conceber apenas as imagens concretas derivadas de percepções obtidas através dos órgãos sensoriais físicos. As citta vrttis correspondentes aos níveis mais elevados da mente, embora definidos, vividos e capazes de serem expressos indiretamente, através da mente inferior, estão além de sua compreensão e podem ser percebidas em seus próprios planos no estado do samadhi (liberação ou iluminação), quando a consciência transcende a mente inferior. O Yoga começa o controle e a supressão do tipo inferior das citta vrttis, com que o sadhaka está familiarizado e a qual ele pode compreender. Não haveria por que tratar das citta vrttis correspondentes aos níveis superiores da mente, mesmo que estas citta vrttis fossem suscetíveis de classificação comum. O sadhaka tem de esperar até que ele aprenda a técnica do samadhi. Consideremos agora os cinco tipos de modificações, individualmente, um a um. Livro A Ciência do Yoga. Abraço. Davi.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

II. A MISSÃO DOS PAIS

Cristianismo. Texto de Watchman Nee (1903-1972). Capítulo Quatro. II. A MISSÃO DOS PAIS. Respeitar o direito dos filhos. Um princípio básico na Bíblia com relação aos filhos é que eles são dados pelo Senhor. Desta forma, eles são propriedades do Senhor. Um dia você terá de dar contas desta responsabilidade. Você não pode dizer, “este filho é meu”, como se o filho fosse exclusivamente seu, como se tivesse poder ilimitado sobre ele até que se torne um homem. Tal conceito é pagão e não cristão. O cristianismo nunca reconhece os filhos como propriedade particular de alguém. Ele não autoriza o governo paternal despótico sobre os filhos até que alcancem a idade adulta. 1 – A autoridade paterna não é ilimitada. Algumas pessoas, depois de se tornarem cristãs, ainda retêm o conceito de que os pais não podem errar. Mas é triste dizer, o mundo tem visto muitos pais errados. Os pais com frequência estão em falta. Não tenhamos uma ideia errada sobre isso e imaginemos que nossa autoridade sobre os filhos é ilimitadas. Lembre-se, você não possui autoridade ilimitada. Seu filho tem uma alma sobre a qual você não tem o controle absoluto. A alma dele está sujeita ao seu próprio controle. Ele pode ir para o céu ou para o inferno. Esta responsabilidade é dele diante de Deus. Você não pode trata-lo como um objeto ou como propriedade sua. Deus não deu a você poder ilimitado sobre seu filho. Ele dá a você poder ilimitado sobre as coisas inanimadas, mas não sobre almas. Ninguém tem autoridade absoluta sobre outra alma. 2 - Não descarregue sobre seus filhos as suas frustrações. Você se comunica bem com todo tipo de pessoas. Você é razoável com seus amigos, parentes e colegas. Você é especialmente educado e respeitoso com seu chefe. Mas você trata seus filhos como se eles fossem suas possessões particulares. Você se esquece que eles têm almas dadas por Deus. Você descarrega seu mau gênio sobre eles. Você os trata como bem lhe agrada. Parece que você é cortês com todos, menos com seus filhos. Eles são aqueles sobre quem vocês descarregam sua ira. Conheço alguns pais assim. Eles pensam que não serão totalmente humanos se forem sempre corteses e gentis e nunca perderem o controle. Mas, como esgotar então o seu mau gênio? Se eles o derramarem sobre seus colegas, serão postos de lado; se for sobre o chefe, serão demitidos; se for sobre os amigos, serão condenados. O único lugar onde podem perder o controle sem temor de reprimenda é em casa, com os filhos. Assim muitos pais têm um temperamento horrível com os filhos. Perdoe-me por falar tão fortemente. Tenho visto muitos pais que de um lado ralharam (repreenderam) com os filhos e de outro se voltaram para mim e disseram: Senhor Nee, este é um prato delicioso. Por favor, coma um pouco. Como poderia eu engolir a comida? Estes pais consideravam os filhos como aqueles sobre quem podia legitimamente descarregar a sua ira! Que Deus tenha misericórdia de nós! Deus jamais anula todos os privilégios de um filho. Ele não anula o espeito próprio do filho ou toda a sua liberdade. Ele não erradicou a personalidade independente do filho quando excessivamente bondoso; eles prometem tudo o que os filhos pedem, mas só cumprem algumas das promessas. Tais palavras vazias só causam decepção aos filhos. Você deve dizer “sim” aquilo que pode fazer, e “não” quanto ao que não pode fazer. Diga “talvez” quando não tiver certeza. Suas palavras devem ser precisas. 3 – Façam com que suas ordens sejam cumpridas. Algumas vezes não são as promessas que são vazias,  mas as ordens. Sempre que você pedir a seus filhos para fazerem algo, você deve providenciar para que tal coisa seja realizada, caso contrário, é melhor não abrir a boca. Você deve fazê-los crer que suas palavras representam a sua vontade. Se você lhes deu uma ordem, não a esqueça nem a comprometa relegando-a para a próxima vez. Mostre a seus filhos que suas palavras são sagradas, quer seja uma promessa ou uma ordem. Por exemplo, tão logo você disser a seu filho para limpar seu quarto cada manhã, sua autoridade foi colocada à prova. Se ele falhar em fazer isto, deve mandar que faça na manhã seguinte. Se não fizer neste ano, você ainda deve pedir que ele o faça no ano seguinte. Ele deve ficar convencido de que seu pai não fala ao acaso, que qualquer coisa que o pai diz deve ser feita. Se descobrir que não há seriedade nas suas palavras, elas perderão imediatamente seu valor. Desta forma, tudo o que você diz deve ser confirmado, deve ser cumprido. 4 – Corrija suas imprecisões. Sempre que você falar com exagero, procure encontrar uma oportunidade para corrigir sua imprecisão diante de seus filhos. Suas palavras precisam ser acuradas. Talvez você tenha exagerado dizendo ter visto três vacas em lugar de duas, ou oito pássaros em vez de cinco. Aprenda a corrigir estes números diante de seus filhos, mostrando a eles a santidade das palavras. Tudo na vida da família deve estabelecer um bom caráter cristão. Portanto, você precisa confirmar a santidade das palavras, levando seus filhos a entenderem a mesma. Se disser algo impreciso, confesse francamente. Estabeleça um bom exemplo na família para que seus filhos fiquem conhecendo o valor das palavras. As dificuldades na precisão das palavras provêm da falta de admoestação do Senhor. Os pais não devem apenas transmitir aos filhos a admoestação do Senhor, mas devem também exemplificar tal ensino. Eles devem mostrar aos filhos quão sagradas são as palavras. As promessas devem ser mantidas, as ordens devem ser reais, e as palavras devem ser precisas. Assim os filhos receberão alguma educação espiritual. Crie seus filhos a disciplina é admoestação do Senhor. O que significa a admoestação do Senhor? É a instrução sobre como alguém deve se comportar. Ao instruir seus filhos, você deve trata-los como cristãos e não como incrédulos. O Senhor quer que você espere que seus filhos se tornem cristãos, devendo então trata-los dessa forma, ensinando-os conforme as normas de conduta de um bom cristão. 1 – Canalize as ambições de seus filhos. Um grande problema com os filhos é a ambição. Cada filho tem a sua própria ambição. Se pudessem imprimir seus cartões de apresentação, muitos incluiriam títulos como: “O Futuro Presidente” ou “O Futuro Diretor”, ou ainda “A Futura Rainha”. Se você for mundano, seus filhos pensarão naturalmente em ser um presidente, um milionário, ou um grande educador. Seja qual for o seu mundo, esta será a ambição de seus filhos. Por causa disto, os pais devem tentar corrigir e encaminhar as ambições dos filhos. Você mesmo deve amar ao Senhor, e não ao mundo. Incuta em seus jovens corações a ideia de que sofrer pelo Senhor é nobre e ser mártir é glorioso. Você mesmo precisa estabelecer um padrão para eles, contando-lhes com frequência qual a sua ambição. Diga-lhes que espécie de cristão você deseja ser. Desta forma pode dirigir a ambição deles para aquilo que é nobre e gloriosos. 2 – Não estimule o orgulho dos seus filhos. Além da ambição exterior, os filhos também têm problemas com o orgulho interior. Eles gostam de se gabar de sua inteligência, talento ou eloquência. Geralmente um filho pode descobrir muitas coisas de que se gabar, imaginando-se alguém muito especial. Os pais não devem sufocar seus filhos, nem tampouco fomentar se orgulho. Muitos pais educam seus filhos de forma errada, estimulando a sua vaidade. Quando outras pessoas louvarem seu filho diante dele, você dizer-lhe que existem muitas outras crianças como ele no mundo. Não estimule o seu orgulho, mas ensine-o segundo a disciplina e admoestação do Senhor. Não deixe que ele perca o respeito próprio, mas também não permita que seja orgulhoso. Não é preciso destruir sua autoestima, mas você deve mostrar-lhe onde tem se superestimado. Os jovens às vezes precisam de dez a vinte anos de aprendizado social antes de começarem a agir bem. Este é um desperdício de tempo precioso, tudo porque foram tão orgulhosos e complacentes em casa que não podem se humilhar o bastante para realmente realizar bem qualquer trabalho. 3 – Ensine seus filhos a aceitarem a derrota e a aprenderem a humildade. O cristão deve aprender a admirar os outros mesmo quando derrotado por eles. É mais fácil se comportar bem na vitória, mas é mais difícil se comportar bem na derrota. Pode haver pessoas que ainda se mostrem humildes na vitória, mas são poucos os que não falam com aspereza aos outros na derrota. A atitude cristã é ser humilde na força e aceitar a derrota de boa vontade. Os filhos gostam de vencer. Tal desejo é bom; isto os ajuda a levar vantagem nos esportes ou no estudo. Seu filho deve estudar bem na escola, mas você deve também ensiná-lo e encorajá-lo a ser humilde. Diga-lhe que pode haver muitos outros alunos melhores do que ele. Ensine-o também a aceitar a derrota de boa vontade. Esta é uma dificuldade para os filhos. Por exemplo: quando dois jogam bola, o vencedor pode ficar cheio de si, enquanto perdedor ou acusa o juiz de não ter sido justo ou netão põe a culpa no Sol que ofuscou seus olhos. Lembre-se, portanto, de estimular uma atitude humilde em seus filhos. treine-os no desenvolvimento de seu caráter. Eles devem aprender a ganhar e a aceitar que os outros os vençam. Eduquemo-los na disciplina e ensino do Senhor. É muito natural para os filho dizerem injustamente que o aluno que sai bem nos exames é o favorito do professor enquanto suas próprias falhas têm como causa o fato do professor não gostar deles. Vemos aqui a falta de humildade. Os cristãos devem aprender a virtude de aceitar a derrota. Se outras pessoas se sobressaem, reconheça isso abertamente. Aceitemos a derrota dizendo que o vencedor é mais hábil, mais diligente, melhor do que nós. É anticristão ficar inchado com a vitória. É uma atitude cristã reconhecer a derrota com espírito positivo. Na família, os filhos devem aprender a reconhecer aqueles que são mais fortes do que eles. Isto os ajudará a se conhecerem melhor depois de se tornarem cristãos. Um cristão deve ser capaz de louvar aqueles que são melhores do que ele como também saber aquilo que ele mesmo é. Os filhos criados desta forma são abertos para as coisas espirituais. 4 – Ensine seus filhos a escolher. Dê oportunidade a seus filhos para fazerem escolhas quando ainda forem novos. Não decida sempre por eles em tudo até que cheguem  aos dezoito anos ou vinte anos, e então os empurre de repente para o mundo. Se você fizer isto, eles não saberão escolher por si mesmos. Portanto, ao criar seus filhos, dê-lhes a oportunidade de escolher. Permita que eles indiquem aquilo de que gostam ou não gostam. Mostre-lhes se a sua escolha foi certa ou errada. Ajude-os a escolher corretamente. Alguns filhos gostam de uma cor enquanto outros preferem outra. Deixe que escolham. Se não for dada aos filhos a oportunidade de escolha, eles não estarão aptos, quando chegarem a idade de casar-se, para dirigir suas famílias. Dê aos seus filhos tantas oportunidades de escolha quantas for possível, mas você deve também instruí-los com relação à escolha deles. 5 – Ensine seus filhos a cuidarem das coisas. Você deve ensinar seus filhos a cuidarem das coisas. Dê-lhes oportunidade de cuidar de seus próprios sapatos, meias, tênis, quartos e assim por diante. Dê-lhes alguma instrução e depois lhes peça para fazerem sozinhos. Eles aprenderão assim a cuidar das coisas desde cedo. Alguns filhos nunca tiveram oportunidade de começar certos suas vidas, porque seus pais os amavam tão cegamente a ponto de estraga-los por completo. Mas um cristão deve ajudar seus filhos a cuidarem de seus próprios negócios. Eu creio que se o Senhor for gracioso com a igreja, metade das pessoas acrescentadas a ela serão filhos de pais cristãos, a outra metade será salva do mundo. Uma igreja não pode ser forte se o aumento vier somente do mundo e não dos filhos de pais crentes. Na geração do apóstolo Paulo, quando a igreja estava apenas começando, as pessoas eram salvas diretamente do mundo. Mas a geração seguinte, com Timóteo, vinha mais frequentemente da família. Não podemos esperar sempre que as pessoas acrescentadas à igreja venham do mundo. Devemos esperar ver pessoas vindo das famílias cristãs. O evangelho de Deus realmente salva pessoas do mundo. Além disso, entretanto, pessoas como Timóteo ainda devem ser criadas na disciplina e admoestação do Senhor administrada pela avó Loide e a mãe Eunice. Somente assim a igreja será enriquecida. Você deve providenciar para que seus filhos cuidem de suas próprias coisas. Reúna a família e ensine-os a fazer isso. Os meninos e meninas precisam aprender para que mais tarde possam ser bons maridos e esposas. Livro Família Cristã Normal. Abraço. Davi.


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

I. A MISSÃO DOS PAIS

Cristianismo. Texto de Watchmann Nee (1903-1972). Capítulo Quatro. I. A MISSÃO DOS PAIS. Efésios 6,1-4 “Vós, filhos, sede obedientes a vossos país no Senhor, porque isto é justo. Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa; para que te vá bem e vivas muito tempo sobre a Terra. E vós, país, não provoqueis a ira a vossos filhos, mas criai-os na doutrina e admoestação do Senhor”. Colossenses 20,21 “Vós, filhos, obedecei em tudo a vossos país, porque isto é agradável ao Senhor. Vós, país, não irriteis a vossos filhos, para que não percam o ânimo”. Ao que parece, o Velho Testamento não contém muito ensino sobre a missão dos pais, exceto no livro de Provérbios, mas no Novo Testamento o apóstolo Paulo dá instruções definidas sobre o assunto. A missão dos pais é enfatizada no Novo Testamento. Embora este contenha algumas instruções para os filhos, parece que o ensino não é tão forte como aquele dirigido aos país. As palavras para os pais em Efésios 6 e Colossenses 3 são mais acentuadas do que aquelas para os filhos. Deus presta mais atenção aos país do que aos filhos. O homem precisa aprender a ser pai. Um resumo de todas as instruções bíblicas a respeito da grande responsabilidade dos pais seria este: criem seus filhos na disciplina e admoestação do Senhor e não os provoquem à ira, para que não fiquem desanimados. A fim de fazer isto, os pais precisam aprender a se controlar: eles mesmos precisam conhecer a disciplina e ensino do Senhor. É isto que Paulo nos mostra. Os novos crentes, principalmente os que já são pais ou futuros pais, devem saber que não é fácil ser marido ou esposa, e ser pai ou mãe é ainda mais difícil. Tornar-se marido ou esposa diz respeito à própria pessoa; ser pai afeta outros. O marido ou a esposa toca apenas nas felicidade pessoal do seu companheiro, mas os pais influenciam a felicidade da geração seguinte. O futuro dos filhos depende dos pais. Em consequência disso, a responsabilidade dos pais é enorme. Deus entregou o corpo, alma, pensamento, vida e futuro dos filhos em nossas mãos.  Pessoa  alguma pode influenciar o destino de outro ser humano mais do que os pais influem no destino dos filhos. Eles praticamente podem encaminhar os filhos para o céu ou para o inferno. Quão tremendamente importante então é a sua responsabilidade! É preciso que aprendam a ser bons pais como também bons maridos e esposas. Sua responsabilidade como pais é provavelmente mais séria do que aquela de marido e esposa. Santifique-se a si mesmo. Todos aqueles que são pais devem santificar-se perante Deus no amor a seus filhos. 1 – O Senhor santificou-se si mesmo. O que significa ser santificado diante de Deus? O Senhor Jesus santificou-se por amor a nós. Isto não se refere à santidade por si mesma, mas à separação. O Senhor Jesus era santo e a sua natureza era santa. Mas por amor à igreja ele se santificou ainda mais. Isto quer dizer que embora ele pudesse ter feito muitas coisas sem comprometer sua própria natureza santa, mesmo assim recusou-se a fazê-las por causa da fraqueza dos discípulos. A fraqueza dos discípulos controlava o Senhor e restringia sua liberdade de muitas maneiras. Ele estava livre para fazer muitas coisas, mas temendo que os discípulos não compreendessem e se escandalizassem, absteve-se de fazê-las. No tocante a sua natureza tinha liberdade para tanto, mas por causa dos discípulos limitou-se. 2 – Você deve santificar-se. Da mesma forma, todos os pais devem santificar-se por amor a seus filhos. Isto quer dizer que embora tenham liberdade para fazer muitas coisas, por causa dos filhos não os farão. Existem muitas palavras que eles não tem mais liberdade para pronunciar por causa dos filhos. A partir do dia em que um filho passa a fazer parte da família, os pais precisam santificar-se. Se você não consegue controlar-se, como poderá controlar seus filhos? Se você não consegue se governar, como governará seus filhos? A pessoa que não tem filhos se machuca a si mesma pela sua falta de controle, mas a que tem filhos destrói tanto a eles como a si mesma. Portanto, no momento em que filhos são confiados a um cristão, ele deve santificar-se. Durante o resto de sua vida existem dois, quatro ou mais pares de olhos vigiando e vigiando. Mesmo depois de deixar este mundo, aqueles olhos continuarão a lembrar-se do que viram. 3 – Viva de acordo com um padrão elevado. No dia em que seu filho nascer, você deve se consagrar ao Senhor. Você deve estabelecer um padrão moral para você mesmo – padrões para governar sua conduta no lar – suas maneiras, seu julgamento, seu ideal, e sua vida espiritual. Você deve seguir estes padrões estritamente, caso contrário pode arruinar a seu filho e a si mesmo. Muitos filhos estão estragados pelos próprios pais, pais que não possuem um padrão moral, não tendo nem ideais nem critério espiritual. Espero que compreenda que a maneira como a criança avalia e julga as coisas no futuro é aprendida no joelho dos pais. Ela pode ou não ouvir o que você lhe diz, mas nunca esquecerá o que viu. Ela aprendeu de você. Uma vez que tenham filhos, os pais devem lembrar-se que todos os seus modos dali por diante terão continuidade em seus filhos. Antes de ter um filho você pode trabalhar ou brincar conforme o seu gosto, mas depois que os filhos chegam você fica limitado. Quer se sinta alegre ou deprimido ainda deve seguir o padrão mais elevado, pois o futuro de seus filhos depende muito de você, pai cristão. Lembro que um irmão disse certa vez em que seu filho começou a ter problemas: Ele é seu, e eu sou ele. Tal afirmação é absolutamente correta. Muitas vezes os pais podem ver-se em seus filhos quando estes estão com problemas. Os filhos são apenas um reflexo dos pais. Desejo recomendar a todos os novos crentes que ao terem filhos devem dedicar-se de novo ao Senhor. Devem entregar a alma, a vida e o futuro de seus filhos a ele, e daí por diante se conservarem fiéis em sua mordomia. Muitos outros tipos de trabalho podem ser realizados em um período de dois ou mais anos, mas a tarefa dos pais é para a vida inteira. Não existe limite de tempo. 4 – Desenvolva sentimento de mordomia com relação a seus filhos. O fracasso no  trabalho ou no casamento não pode ser comparado ao fracasso em ser pai. Por que? Porque quando a pessoa é adulta ela pode defender-se, mas a criança que foi confiada não sabe se proteger. Você poderia ir ao Senhor e dizer: Tu me confiaste cinco filhos e eu perdi três deles ou Tu me confiaste dez e perdi oito deles? A igreja não pode ser forte se este sentimento de mordomia faltar. Como pode o evangelho espalhar-se por toda a Terra se você perde aqueles que são seus e depois tem de tentar recuperá-los do mundo? Você deve pelo menos levar seus próprios filhos ao Senhor. Não cria-los na disciplina e admoestação do Senhor está errado. Lembre-se, faz parte da responsabilidade dos pais criar seus filhos no Senhor. Perdoe-me por dizer isto porque é a minha própria palavra, mas o maior fracasso na igreja são os pais. Ninguém está em posição de controlar os pais. Os filhos não podem. Se você é indulgente (generoso) consigo mesmo, também tratará seus filhos frouxamente. Quão importante é que os pais tenham domínio próprio; quão necessário que desistam de sua própria liberdade. De outra forma, como podem estar de pé diante do Senhor e dar conta das almas a eles confiadas? Ande com Deus. Os pais não devem apenas reconhecer sua responsabilidade e santificar-se a si mesmos por amor aos filhos, mas também aprender a andar com Deus. 1 – Ter uma visão santa. É verdade que a pessoa deve santificar-se por amor dos filhos, mas isto não sugere que faça isto apenas por causa deles. O Senhor Jesus era santo, e Ele se santificou por amor aos discípulos. Mesmo antes de se santificar por amor aos discípulos, ele já era santo. Da mesma forma, os pais que se santificam por amor aos filhos devem andar com Deus todo o tempo. Não importa quão zeloso você possa parecer, seu filho rapidamente descobrirá se não for realmente zeloso. Você pode enganar a si mesmo, mas não a ele. Quão facilmente ele percebe seu fingimento se só for cuidadoso diante dele e não quando está sozinho. Por esta razão, você não só deve santificar-se diante de seus filhos e por amor deles, como também deve ser realmente santo e separado do mundo. Você deve andar com Deus como Enoque andou em tempos idos. Gênesis 5,21-22 “E Enoque viveu sessenta e cinco anos e gerou Matusalém; e Enoque andou com Deus depois que gerou Matusalém trezentos anos, e gerou filhos e filhas”. Não sabemos nada sobre Enoque antes dele completar sessenta e cinco anos, mas depois que gerou a Matusalém sabemos que andou com Deus trezentos anos antes de ser tomado. Este registro do Velho Testamento é muito especial. Quando ao encargo de ter uma família caiu sobe Enoque, ele tomou consciência de sua incapacidade. Sentiu que a responsabilidade era pesada demais para ele, e assim começou a andar  com Deus. O registro não diz que ele andou com Deus. Ele estava convencido de que a menos que andasse com Deus, não poderia conduzir seu filho. Enoque gerou muitos filhos e filhas durante esses trezentos anos, mas mesmo assim continuou a andar com Deus. A paternidade em si mesma não impede a pessoa de andar com Deus; pelo contrário, ela a constrange a andar com ele e assim ser arrebatada. Lembre-se que o primeiro que foi arrebatado foi um pai. O homem arrebatado tinha muitos filhos, todavia andava com Deus. A condição espiritual de um a pessoa é revelada pela maneira como ela se desempenha de suas responsabilidades familiares. 2 – Não estabeleça dois padrões diferentes. Para conduzir seus filhos a Deus, você mesmo deve andar com Deus. Não pense que por apontar o dedo para o céu você pode conduzi-los ao céu. Você deve andar na frente e deixar que o sigam. A razão do fracasso de muitas famílias cristãs é que os pais esperam que os filhos não amem o mundo e prossigam com o Senhor enquanto eles mesmos ficam para trás. Tal esperança é vã. É importante que os pais tenham o mesmo padrão dos filhos. Você não pode estabelecer um padrão para eles se você mesmo não viver por ele. O padrão que você segue nas coisas espirituais eventualmente será o padrão de seus filhos. Certa vez em que visitei uma família, testemunhei a sova (surra) que um menino recebeu da mãe por haver mentido. Todavia, na verdade tanto o pai como a mãe mentia naquela família. Pude verificar muitas vezes que eles eram mentirosos. Mas a criança apanhou justamente por isso. O ponto então não foi o menino. Ter dito uma inverdade, mas sim ser apanhado nela. Sua técnica em mentir mostrou-se defeituosa. O problema real naquela casa era o fato da mentira ser ou não descoberta. Se fosse descoberto o menino seria punido. Como você pode ajudar seu filho se adotar duas medidas? É possível pedir a seus filhos para não mentirem se você mesmo mente? Qual a utilidade de pedir isso a eles? Você não conseguirá nada se viver por um padrão e exigir outro de seus filhos. O que os filhos vêm em você é o que eles aceitarão. Se virem mentira e não honestidade, então quando mais bater neles pior ficarão. É como os pais que dizem aos filhos que depois dos dezoito anos poderão fumar. As crianças que vivem numa família onde são contadas mentiras, pensarão que quando tiverem dezoito anos poderão mentir. Podem não falar mentiras agora, mas espere até que tenham dezoito anos! Então estarão livres para mentir. Agir desta forma é empurrar seus filhos para o mundo. Você só pode conduzir seus filhos como Enoque conduziu o dele, se andar com Deus como Enoque andou. Você não pode conduzi-los se você mesmo não andar naquele caminho. Lembre-se, seus filhos aprenderão naturalmente a amar o que você ama e a odiar o que odeia. Eles vão estimar o que você estima e condenar o que você condena. Portanto, deve estabelecer um só padrão moral para ambos: você e seus filhos. Seja qual for o seu padrão moral, este será o deles. O padrão do que significa amar o Senhor naturalmente se tornará o padrão do amor a Ele. Só pode haver uma medida e não duas na família. Conheci uma família onde o pai era um cristão nominal. Ele nunca ia à igreja, mas queria que seus filhos fossem todo Domingo. Assim, cada Domingo de manhã ele dava aos filhos algum dinheiro para a oferta. Depois começava a jogar baralho com seus três amigos. O resultado é que os filhos gastavam o dinheiro que o pai lhes dava com guloseimas, entravam na igreja no momento em que o pastor dava o texto bíblico para poderem informar o pai e imediatamente saiam para brincar. Eles podiam então, comer, brincar e informar o pai. Espero que vocês vejam, portanto, que quando Deus nos confia filhos, é preciso que a família tenha um bom padrão. E uma vez estabelecido o padrão, você deve sempre mantê-lo. Lembre-se de que seus filhos estão vigiando. Eles não estão ouvindo o que você diz, mas estão observando o que você faz. Eles sabem qual é a sua atitude e qual é o fato real. Quão lindo é o quadro de Enoque andando com Deus durante trezentos anos depois que gerou Matusalém. Ele gerou muitos filhos e filhas e ainda andou com Deus. Ali estava um verdadeiro pai, um homem sem fingimento e perfeito aos olhos de Deus. Os pais devem pensar do mesmo modo. Para que a família seja sólida, o pai e a mãe cristãos devem pensar do mesmo modo. Por amor a Deus, eles devem concordar em sacrificar sua própria liberdade e estabelecer um estrito padrão moral. Nem o pai nem a mãe podem ter uma opinião especial. Os pais fornecem com frequência uma abertura para os filhos pecarem porque eles mesmos não concordam entre si. É difícil para os filhos seguirem um padrão definido se os pais não concordam. Se o pai diz sim e a mãe não, ou vice-versa, os filhos podem resolver pedir ao mais clemente dos dois. Isto vai aumentar ainda mais a distância entre o pai e a mãe. Conheci um casal idoso em que ambos eram cristãos. Cada um tinha suas próprias ideias. O resultado é que não eram bons nem como marido e esposa nem como pais. Os filhos procuravam a mãe ou o pai segundo sabiam quem aprovaria um dado pedido. Se a mãe chegasse em casa e perguntasse porque haviam feito uma certa coisa, eles podiam que já tinham pedido ao pai. Às vezes acontecia o contrário. Assim, os filhos faziam seu jogo no campo de batalha entre o pai e a mãe e, agindo dessa forma, desfrutavam tremenda liberdade. Há vinte anos atrás eu disse a esses pais que seus filhos não iriam crer no Senhor se tal situação continuasse. Eles discordavam de mim na ocasião. Agora seus filhos são adultos; alguns estão na faculdade e outros estudando fora do país, mas nenhum seguiu o Senhor. É importante que os pais estejam de acordo quando surge um problema com os filhos. Não importa qual a circunstância, você deve primeiro perguntar ao seu filho se ele já pediu à mãe e, se pediu, o que ela disse: Se você for a esposa, então sua primeira reação deve ser se ele pediu ao pai; se pediu, seja o que for que este tenha dito será essa também a sua resposta. Não importa o que está certo ou errado, seja da parte do pai ou da mãe;  simplesmente mantenha a unidade. Se houver necessidade de negociação, faça isso em particular entre vocês dois. Não permita saída alguma para os filhos, para que não acabem fazendo aquilo que lhes agrada. Os filhos estão sempre procurando escapatórias. Vocês podem e devem resolver suas dificuldades em particular, mas não deixem que seus filhos descubram qualquer escapatória entre vocês. Só assim poderão mais facilmente levar seus filhos ao Senhor. Livro Família Cristã Normal. Abraço. Davi.


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

X. O EVANGELHO DO BUDA

Budismo. Texto do Yogi Kharishnanda Sarawasti (1922-2001). X. O EVANGELHO DO BUDA. Pregação do Buda. Capítulo três. Identidade e  Separatividade. Kutadanta, o prior dos brâmanes de Danamati, aproximou-se respeitosamente do Bem-aventurado, saudou-o e disse-lhe: Asceta, fui informado de que o senhor é o Budha, o Santo, o Onipotente, o Senhor do Mundo. Porém, se isso fosse verdade, o senhor não teria vindo como um rei com toda a glória e onipotência? O Bem-aventurado respondeu-lhe: Os seus olhos estão cegos. Se não estivesse turva a sua visão, veria a glória e a onipotência da Verdade. Kutadanta replicou-lhe: Mostre-me a Verdade e a verei. Mas a sua doutrina não tem consistência. Se tivesse, perduraria, porém, como não tem, desaparecerá. O Bem-aventurado respondeu-lhe: A verdade é eterna. Não desaparecerá nunca. Kutadanta objetou dizendo: Dizem que o senhor ensina a Boa Lei: no entanto, desdenha a religião. Os seus discípulos menosprezam os ritos e as cerimônias, e negam-se a sacrificar no altar dos deuses, dizendo que não é pleo sacrifício que se mostra a verdadeira devoção aos deuses. Mas eu entendo que no culto e no sacrifício está a essência da religião. O Senhor Budha lhe replicou: O sacrifício da personalidade vale muitíssimo mais do que a imolação das reses. Quem sacrifica aos deuses seus maus desejos e vis paixões, compreende a inutilidade de banhar em sangue de animais inocentes a ara dos altares. Em troca, libertar-se da luxúria purifica o coração. Mais vale obedecer às leis da justiça do que adorar os deuses. Qualquer pessoa pode tirar a vida, mas é incapaz de dá-la. Todas as criaturas amam a vida e lutam por ela. A vida é uma dádiva maravilhosa, querida e grata para todos, mesmo para os mais humildes; por isso deve ser respeitada por todo homem piedoso, porque a piedade torna o homem terno para com os fracos e nobre para com os fortes. O homem implora a misericórdia dos deuses e não tem misericórdia pelos animais, para os quais ele é como um deus. Tudo quanto vive está unido por laços de parentesco, e os animais que vocês matam já lhes deram o doce tributo do seu leite, o macio de sua lã e depositam sua confiança nas mãos dos que os degolam. Ninguém pode purificar o seu espírito com sangue, pois se os deuses são bons, não lhes pode ser agradável o sangue, e se são maus, este não basta para suborná-los. Sobre a inocente cabeça de um animal não é possível colocar nem o peso de um fio de cabelo das maldades e erros pelos quais cada um deve responder pessoalmente, porque cada qual deve prestar contas de si mesmo segundo a imutável aritmética do Universo. Esta distribui o bem para o bem e o mal para o mal, dando a cada um à sua medida de acordo com suas ações, palavras e pensamentos, e vigilante, exata, imutável e implacável, faz que o futuro seja o fruto do passado. Feliz seria a Terra, se todos os seres estivessem unidos pelos laços da benevolência e só se alimentassem de alimentos puros, sem derramamento de sangue. Os grãos dourados, os frutos reluzentes e as ervas saborosas que nascem para todos bastariam para alimentar e dar fartura ao mundo. Kutadanta era muito piedoso, e como havia sacrificado muitas vítimas, inquietou-se e sua consciência encheu-se de remorsos, pois compreendeu o quanto era insensato crer que a efusão de sangue bastaria para apagar os pecados. Então perguntou ao Bem-aventurado. O senhor acredita, Mestre, que a alma renasce e evolui no transcurso das vidas e que, sujeita à lei do karma, deve colher o que semeia? Pergunto-lhe por que me disseram que o senhor ensina a inexistência do eu, como a suprema felicidade do nirvana. Se eu sou apenas uma combinação de elementos, devo desintegrar-me e desaparecer ao morrer. Se sou uma mera combinação de ideias, pensamentos, sensações e desejos, o que será de mim quando o meu corpo se desintegrar? Onde está essa infinita felicidade de que falam os seus discípulos? É uma palavra vã, sem sentido, uma ilusão. Quando medito nos seus ensinamentos, só vejo o nada, a aniquilação, o não ser, como destino final do homem. Ó brâmanes, você é religioso e tem zelo. Inquieta-se pelo futuro, mas em vão se atormenta, porque lhe falta o mais necessário. Por erro ou por ignorância, os homens gozam na ilusão de que suas almas são entidades distintas e existentes por si mesmas. Seu coração, ó brâmane, ainda está apegado à personalidade. Você aspira ao céu, porém busca e espera no céu os prazeres da personalidade, e assim não poderá encontrar a felicidade na Verdade imortal. Certamente eu lhe digo: o Bem-aventurado não veio ensinar a morte, e sim pregar a vida, e você não discerne entre o morrer e o viver. O seu corpo morrerá, pois os sacrifícios não o salvarão. Busque então a vida do espírito. Onde está a personalidade não pode estar a Verdade, e quando se prática e conhece a Verdade, a personalidade desaparece. Faça com que o seu espírito repouse na Verdade, difunda a Verdade e ponha a Verdade na sua alma. E na Verdade você viverá eternamente. O eu é a morte; a Verdade é a vida. O apego ao eu e à personalidade é morte contínua, ao passo que quem vive e se move na Verdade alcança o nirvana. Kutadanta tornou: Venerável Mestre, onde está o nirvana? O Bem-aventurado disse: Onde quer que se obedeça a Lei. Kutadanta replicou: Então o nirvana não está em parte alguma e, portanto, não tem realidade. O Bem-aventurado: Você não me entendeu. Escute e responda. Qual é a morada do vento? Onde ele habita? Kutadanta: Em parte alguma. O Bem-aventurado: Então o vento não existe? É uma ilusão? Kutadanta não soube responder, e o Senhor Budha tornou a perguntar-lhe: Diga-me, ó brâmane: Onde reside a sabedoria? Está em algum lugar? Kutadanta: A sabedoria não tem lugar determinado. E o Bhagavad disse: Você dirá que não há sabedoria, nem justiça, nem salvação porque, como o nirvana, elas não têm lugar determinado? Assim como a brisa veloz atravessa o mundo durante o calor do dia, também o Tathágaa vem refrigerar o espírito humano como o delicado e suave sopro que que alivia o calor de todo sofrimento. Kutadanta replicou: Parece-me que o senhor prega uma excelsa doutrina, porém não posso entendê-la. Permite-me outra pergunta? Se a alma não existe, como pode existir imortalidade? Se a atividade da alma cessa, os nossos pensamentos também cessarão. O Senhor Budha respondeu: A nossa felicidade de pensar desaparece, porém os nossos pensamentos continuam existindo. Cessa o raciocínio, porém continua o conhecimento. É como se durante a noite um homem tivesse necessidade de escrever uma carta. Ele acende a luz, escreve a carta e uma vez escrita a carta, apaga a luz. Embora a luz esteja apagada, a carta continua escrita. De modo semelhante, o raciocínio cessa, mas o conhecimento persiste. A atividade mental cessa, porém a experiência, o conhecimento e o fruto de nossas boas ações não são perdidos. Kutadanta: Diga-me, senhor, que será da minha personalidade quando seus componentes se dissociarem? Se minhas ideias desaparecem, e meus pensamentos deixam de ser meus, e minha alma já não é minha alma, que é feito da personalidade? Dê-me um exemplo, senhor meu. O Bem-aventurado: Suponha que um homem acenda uma lamparina. Ela arderá a noite inteira? Kutadanta: Pode ser que sim. O Bem-aventurado: Bem, mas a chama que arde na primeira metade da noite, arde na segunda? Kutadanta pensou que era a mesma, porém, receoso de um sentido oculto, respondeu: Não, não é a mesma. O Bem-aventurado: Então haverá duas chamas: uma durante a primeira metade da noite e outra durante a segunda? Kutadanta: Num certo sentido não é a mesma chama, porém em outro sim, porque se constitui da mesma matéria e da mesma luz, e serve para o mesmo fim. O Bem-aventurado: Você dirá que a chama que ardeu ontem é a mesma que arde hoje na mesma lamparina alimentada pelo mesmo e iluminando o mesmo lugar? Kutadanta: Pode ter se apagado durante o dia. O Bem-aventurado: Suponha que a lamparina tenha estado acesa durante a primeira metade da noite e apagada durante a segunda. Se alguém tornar a acendê-la, dirá que a chama dela é a mesma? Kutadanta: Num sentido é diferente, e em outro é a mesma. O Bem-aventurado: O tempo durante o qual a lamparina esteve apagada tem algo a ver com a chama ser ou não a mesma? Kutadanta: Não, senhor. O tempo não interfere em nada, quer seja a mesma ou não. O Bem-aventurado: Bem, então admitimos que em certo sentido a chama de hoje é a mesma de ontem, e que em outro sentido ela muda a cada instante. Então, as chamas da mesma natureza e da mesma intensidade que iluminam lugares idênticos, são de certo modo as mesmas. Kutadanta: Sim, senhor. O Bem-aventurado: Suponhamos agora um homem que pensa como você, que sente como você, que age como você. Não será o mesmo que você? Kutanda: Não, senhor. O Bem-aventurado: Você nega que a lógica que lhe parece boa para uma coisa também o seja para as coisas do mundo? Kutadanta refletiu um instante e respondeu pausadamente. Não nego. A mesma lógica impera em todo o universo; porém, na minha personalidade há algo que a distingue completamente das demais personalidades. Pode haver outro indivíduo que sinta, pense e proceda como eu, porém não será eu. O Bem-aventurado: Verdadeiramente, Kutadanta, esse outro homem não será você. Porém, diga-me: o estudante que vai à escola é o mesmo depois de terminados os estudos? O que cometeu um crime é a mesma pessoa quando, ao ser castigado, lhe cortam as mãos e os pés? Kutadanta: São as mesmas pessoas. O Bem-aventurado: Estará então a identidade constituída pela continuidade? Kutadanta: Não apenas pela continuidade, mas também pela identidade da natureza. O Bem-aventurado: Pois, se você admite que duas pessoas podem ser idênticas no mesmo sentido em que temos dito que as chamas são as mesmas, deve reconhecer que, nesse sentido, outro homem da mesma natureza, resultante do mesmo karma, é o mesmo que você. Kutadanta: Reconheço. O Bem-aventurado: Pois nesse sentido você é o mesmo hoje que ontem. A sua natureza pessoal não consiste na matéria de que está formado o seu corpo, porém da forma ou configuração do seu corpo, de suas sensações e pensamentos. A sua personalidade é uma combinação de elementos. Onde quer que eles estejam, ali você está. Assim, pois em certo sentido, reconhece a sua personalidade, com ela se identifica e dá-lhe continuidade segundo o seu karma. Você a chamaria de morte e aniquilação, ou vida e continuação da vida? Kutadanta: Eu a chamaria de vida e continuação de vida, porque é a continuação da minha existência. Mas o que me preocupa é a continuação de minha personalidade, de modo que todo homem, seja ou não idêntico a mim, é uma personalidade absolutamente distinta. O Bem-aventurado: Muito bem, essa é a continuação que você deseja, e esse é o apego à personalidade. Esse é o erro que lhe acarreta inquietudes inúteis. Aquele que se apega à personalidade tem que passar por inúmeros nascimentos e mortes. Morrerá continuamente, porque a natureza da personalidade é morte incessante. Kutadanta: Como é isso? O Bem-aventurado: Onde está a sua personalidade? Kutadanta não soube responder. O Bem-aventurado: Essa personalidade, que você tanta estima, muda incessantemente. Anos atrás, você foi menino, depois jovem e agora é um homem. Que identidade pessoal há entre o menino e o homem? Não há, como também não havia, conforme vimos, na chama da lamparina que ardeu durante a primeira metade da noite e a que ardeu ao reacender-se depois de apagada. Qual é a sua verdadeira personalidade: a de ontem, a de hoje ou a de amanhã? Kutadanta, perplexo, respondeu: Senhor do Mundo, vejo meu erro, porém ainda estou confuso. O Senhor Budha prosseguiu dizendo: Os princípios constituintes da sua personalidade são o resultado das suas ações em vidas passadas, e em futuras existências você colherá o que com suas ações está semeando no presente. Kutadanta: Certamente, senhor, não me parece justo que outros colham o que eu semeei agora. O Tathágat ficou um momento silencioso e deposi disse: Será inútil todo ensinamento? Não compreende que essas outras personalidades são você mesmo? Você, e não outros, colherá o que semeou. Suponha um homem mal-educado, que sofre as consequências de sua infeliz condição. Em menino foi preguiçoso e, quando se fez homem, não tinha ofício nem profissão para ganhar o seu sustento. Você dirá que a miséria dele não é o resultado de sua conduta, porque a personalidade do menino não é a mesma do adulto? Em verdade lhe digo que nem nas alturas do céu nem nas entranhas da Terra encontrará um lugar onde possa fugir ao resultado das suas más ações. E da mesma maneira irá receber a recompensa de Suas boas obras. Quem volta são e salvo de uma longa viagem, recebe em sua casa as boas-vindas de seus parentes, amigos e conhecidos. Também o resultado de suas boas ações beneficia o homem que passa desta vida para a outra, se ele seguiu o caminho da justiça. Kutadanta: Creio na glória e excelência das suas doutrinas. Minha vista não pode suportar o fulgor da luz; porém, agora compreendo que a personalidade é ilusória, que as orações são palavras ociosas e que os sacrifícios não servem para a salvação. Como encontrar o caminho da Verdade eterna? Aprendi de memória todos os Vedas e não encontrei a Verdade. O Bem-aventurado: A erudição não é uma coisa má, porém a verdadeira ciência, o conhecimento útil, só pode ser obtido pela prática. Reconheça a verdade de que o seu próximo é seu semelhante. Compreenda que a personalidade é morte e a verdade é imortal. E Kutadanta exclamou: Oxalá (queira Deus) eu pudesse refugiar-me no Budha, no Dharma e na Ordem. Aceite-me por discípulo e faça-me compartilhar da felicidade da imortalidade. PREGAÇÃO DO BUDHA. Capítulo quatro. UMA ESSÊNCIA, UMA LEI E UM FIM. Um dia o Tathágata, conversando com o venerável Kasyapa com o propósito de libertar sua mente da incerteza e da dúvida, disse-lhe: Todos os seres e todas as coisas são constituídas de uma mesma essência, embora pareçam diferentes segundo as formas que tomam em consequência das influências que recebem. Como se formam, agem, e como agem, são. Suponha, Kasyapa, que um oleiro fabrique vasilhas diferentes com o mesmo barro. Cada uma dessas vasilhas terá o seu destino, pois uma servirá para arroz, outra para manteiga, outra para leite e algumas serão usadas para depósitos de impurezas. Não há diferença no barro empregado. A diferença está no modelo dado pelo oleiro, segundo os diversos usos requeridos pelas circunstâncias. Do mesmo modo, todos os seres evolucionam de acordo com uma só Lei e se destinam ao mesmo fim, que é o nirvana. Se você compreende, ó Kasyapa, que todos os seres são da mesma essência e que não há mais que uma única Verdade, e vive de acordo com essa compreensão, alcançará o nirvana. O Tathágata é o mesmo para todos os seres e da mesma essência que todos eles, pois difere apenas em seu aspecto como os demais seres diferem entre si. O Tathágata dá alegria ao mundo inteiro, do mesmo modo que a nuvem derrama a chuva sobre justos e pecadores. Tem a mesma compaixão pelos grandes e pelos pequenos, pelo sábio e pelo ignorante, pelos virtuosos e pelo pecador. A vasta nuvem carregada de água derrama a chuva sobre prados, várzeas, montanhas e vales, hortas e campos. E todos recebem a água da chuva, que é da mesma essência, e árvores, plantas e ervas nascem, florescem e frutificam, cada uma segundo a sua espécie e natureza. Arraigadas no mesmo solo, todas as plantas de um campo ou de uma horta recebem a mesma água que a todas vivifica. O Tathágata conhece, ó Kasyapa. A lei cuja virtude é o conhecimento e cujo fim é a paz do nirvana. Ele é o mesmo para todos, porém não se manifesta do mesmo modo a todos, mas a cada um segundo suas necessidades. Logo no começo não dá para todos a plenitude do conhecimento, porém observa a predisposição de cada um. Livro O Evangelho do Budha. Vida e Doutrina de Sidharta Gautama – o Inspirador do Budismo. Abraço. Davi.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

O QUE É O ZOHAR

Judaísmo. www.morasha.com.br. O QUE É O ZOHAR. O Sefer ha-Zohar - o Livro do Esplendor - É, sem sombra de dúvida, a obra principal e mais sagrada da Cabalá, a dimensão mística do judaísmo. De autoria do grande Rabi Shimon bar Yochai, permanece inacessível até os dias de hoje para a grande maioria dos que tentam transpor o mistério que encerra. Quem sabe se por esta razão, ou apesar desta, nenhuma outra obra mística jamais despertou tanta curiosidade e exerceu tão grande influência? O Zohar é a coluna vertebral da Cabalá, também chamada de Chochmat ha-Emet - a Sabedoria da Verdade. Na língua hebraica, Cabalá significa "recebimento" ou "o que foi recebido". Por ser parte integral da Torá, tem origem e natureza Divina. Apesar de seus ensinamentos terem sido transmitidos a Adão e aos patriarcas do povo judeu, foi Moisés quem os recebeu diretamente de D'us durante a Revelação no Monte Sinai e os instituiu formalmente como parte da história do povo de Israel. Desde então, está sabedoria mística vem sendo repassada de geração em geração para uns poucos escolhidos entre os líderes espirituais do povo judeu. Chamados de nistarim (literalmente "os ocultos"), os primeiros cabalistas preservaram zelosamente esses ensinamentos, transmitindo-os oralmente às gerações seguintes. Somente no século II da era comum, surgiria no seio de Israel um homem que possuía os dons espirituais e intelectuais que lhe permitiram dar forma a essa sabedoria milenar. Seu nome era Rabi Shimon bar Yochai, uma das personalidades mais reverenciadas na história judaica. A ele coube o zechut, o honroso mérito de revelar a Luz Divina em todo a sua majestade e esplendor. Grande líder e um dos maiores sábios talmúdicos, Rabi Shimon viveu em uma época muito conturbada. Durante sua geração, Israel penava sob o jugo romano, tendo que se sujeitar à proibição do estudo da Torá, esta apenas uma entre as inúmeras imposições de Roma. A gravidade da situação levou os mestres da Lei a adotarem medidas excepcionais. Preocupados que a perseguição e a dispersão dos judeus pudessem resultar na perda parcial dos ensinamentos da Torá Oral, os sábios deram seu consentimento para que os fundamentos de seu conteúdo fossem transcritos. Portanto, o Talmud, seus comentários, o Midrash e os ensinamentos cabalísticos começaram a ser compilados e escritos. E foi Rabi Shimon bar Yochai quem estruturou a tradição mística através do Zohar. No entanto, havia um grande problema na transcrição dos segredos da Cabalá. Os sábios temiam que pessoas sem preparo espiritual tivessem acesso aos segredos da Criação e do Universo. Para evitar que isso acontecesse, O Livro do Esplendor foi escrito de forma praticamente indecifrável para os não iniciados. E a primeira condição para se fazer parte desse grupo pequeno e seleto era possuir um vasto e profundo conhecimento sobre a Torá e sobre a tradição cabalística. Livro fechado. O Sefer ha'Zohar é um livro fechado e as chaves para sua compreensão permanecem em mãos de um número reduzido de sábios. Esta obra pode ser comparada a um sistema codificado, de extrema complexidade, que esconde tesouros inestimáveis. Rabi Shimon era um daqueles seres pertencentes a um plano espiritual tão elevado que, entre os que estudam a sua obra, são poucos os que conseguem assimilar parte de seus ensinamentos. Não obstante, mesmo com apenas um pouco desse conhecimento, constroem-se montanhas de sabedoria. Como vimos, para os não iniciados, o Zohar é misterioso e praticamente impenetrável. As dificuldades de compreensão estão presentes em quase todos os níveis da obra. Além da insondável profundidade de seus preceitos, seu estilo literário peculiar e sua dialética dificultam a compreensão. Seus textos, escritos em hebraico ou em aramaico antigo, estão "codificados", impossibilitando, assim, que pessoas leigas entendam seu significado. Imagens simbólicas são usadas no lugar de uma terminologia racional e tópicos independentes são tratados em conjunto, colocando lado a lado assuntos aparentemente sem relação entre si. Muitas das passagens do Zohar são compostas por combinações de alusões fragmentadas, que somente podem ser conectadas por associações secretas. Mas, na realidade, as conexões existem e são bastante claras para aqueles que entendem seu simbolismo e significado. Um sábio familiarizado com os segredos místicos da Torá entende perfeitamente seu conteúdo, seu estilo e sua estrutura aparentemente ilógica. Se para os não iniciados muitos de seus ensinamentos carecem de significado, estes mesmos preceitos são, para os que podem decifrá-los, a chave para desvendar os maiores e mais profundos segredos da existência e do universo. Apesar de terem sido traduzidos para o hebraico moderno e para outros idiomas, os verdadeiros ensinamentos do Sefer ha-Zohar continuam sendo praticamente incompreensíveis. Mesmo para a maioria dos eruditos na Torá, o Livro do Esplendor continua sendo um enigma. O Talmud e outras obras da lei judaica são acessíveis e compreensíveis; não apenas é permitido o seu estudo, como também é incentivado e é uma obrigação colocar-se em prática os seus ensinamentos. Já o Zohar continua além do alcance intelectual e espiritual da maioria dos judeus - pelo menos por enquanto. Grandes cabalistas sempre alertaram que o privilégio de estudar e entender esta obra era reservado para muito poucos. O cuidado e o resguardo em relação ao Zohar sempre foram impostos com o propósito de preservar não só a obra, mas também a alma daqueles que se aventurassem a estudá-la. Temia-se que seus ensinamentos e revelações pudessem ser mal interpretados ou usados de forma inadequada. Infelizmente, esses temores se confirmaram no decorrer da história. Houve vários casos de indivíduos e até mesmo de grupos que, após mergulharem nas águas do misticismo judaico sem o preparo adequado, acabaram por se perder. Ainda mais grave: seus ensinamentos místicos foram utilizados por falsos messias e distorcidos por místicos não-judeus e por adeptos da ciência do ocultismo. Os resultados foram catastróficos. Por isso, cabe alertar o leitor que o estudo do Zohar e da Cabalá somente deve ser conduzido na companhia de um professor que, além de instruído, tenha atingido um equilíbrio espiritual e mental; que entenda e siga a Lei Judaica em todos os seus minuciosos pormenores. Seu conteúdo. O Zohar é fonte de inspiração e sabedoria para os iniciados que ousam adentrar seus segredos. Seus principais focos são a teosofia - a interação das sefirot e seus mistérios, a conduta humana e o destino dos judeus neste mundo bem como no mundo das almas. São raras as ocasiões em que discute de forma explícita a meditação ou a experiência mística. Ao penetrar na superfície literal da Torá, O Livro do Esplendor revela as profundezas místicas de suas histórias, leis e segredos. Transforma a narrativa bíblica em uma "biografia de D'us". Toda a Torá é lida como permutações de Nomes Divinos. Cada uma de suas palavras ou de suas mitzvot simbolizam algum aspecto das sefirot - que representam as maneiras pelas quais D'us interage com Sua Criação. O Zohar revela que o real significado da Torá reside em sua parte oculta - chamada de nistar - e em seus segredos místicos. Mas esta obra grandiosa não trata apenas de assuntos esotéricos e místicos. Não há uma única preocupação sobre a existência humana que permaneça intocada em suas páginas. Apesar da aura de mistério que a cerca, muitos de seus ensinamentos têm servido de guia para várias gerações de judeus. De um lado, o Zohar se aprofunda nos maravilhosos mistérios da alma e do Criador; do outro, aborda assuntos como o poder do mal e a necromancia, proibida pelo judaísmo. Nele encontram-se visões da Redenção Messiânica, assim como soluções para as complexas relações entre seres humanos e os problemas de seu cotidiano. Alicerçado principalmente na Torá, o Zohar é uma obra imensa, dividida em três trabalhos principais que são, por sua vez, subdivididos em outros segmentos. Trata-se principalmente de uma exegese - uma dissertação de homilias - e suas idéias emergem através de comentários e discursos. Nele estão as interpretações místicas e os comentários das sidrot - as leituras semanais da Torá. A obra não se restringe aos Cinco Livros de Moisés; também aborda outros livros da Torá, inclusive o Cântico dos Cânticos, o Livro de Ruth e as Lamentações. Não cabe enfatizar em demasia que a Cabalá é a parte secreta da Torá e, portanto, não poderia ser estudada ou seguida à parte da Torá revelada. Acreditar ou estudar a Cabalá sem o respaldo da Torá Escrita e Oral é, no mínimo, incongruente, pois não há um único trabalho cabalístico que não contenha citações dos 24 livros da Torá Escrita, do Talmud e do Midrash. Assim como o Talmud, o Zohar cobre todas as manifestações do espírito judaico. Porém, enquanto o primeiro é essencialmente uma obra sobre a Lei Judaica, com pitadas de misticismo, o segundo é principalmente um trabalho místico que aborda e elabora sobre algumas leis do Torá. O Zohar descreve a realidade esotérica subjacente à experiência cotidiana. Nele, temas e histórias, tópicos legais e assuntos litúrgicos são vistos e expostos através de uma interpretação mística. Um breve histórico. Como vimos acima, os ensinamentos da Cabalá começaram a assumir uma forma estruturada através do Livro do Esplendor, de Rabi Shimon bar Yochai. Segundo o Talmud, após ter fugido das autoridades romanas que queriam matá-lo, Rabi Shimon e seu filho, Rabi Eleazar ben Azariah, esconderam-se em uma caverna nas montanhas da Galileia. Pai e filho lá permaneceram durante treze anos, dedicando-se completamente ao estudo da Torá. Certamente Rabi Shimon já havia sido exposto aos ensinamentos místicos judaicos. Mas, enquanto estavam na caverna, ele e seu filho foram visitados pelas almas de Moisés e do profeta Eliahu, que lhes revelaram muitos outros preceitos cabalísticos. É possível que outros sábios, antes e depois dele, também tenham tido os dons intelectuais e espirituais para transmitir os ensinamentos da Cabalá. Mas foi Rabi Shimon, devido à sua luz, à pureza de sua alma e aos seus méritos, o escolhido por D'us para fazê-lo. Como atesta a própria obra, coube a Rabi Abba, um dos alunos de Rabi Shimon, a tarefa de registrar por escrito os ensinamentos de seu mestre. Parte do Zohar não foi transcrita na época; foi preservada e transmitida de forma oral pelos discípulos de Rabi Shimon, conhecidos como "a Chevraiá". Mas apesar de transcrito, ainda não havia chegado a hora de ser divulgado o seu conteúdo. Segundo a tradição, seus manuscritos originais ficaram escondidos durante mil anos e foram descobertos apenas no século XIII. Durante as décadas de 1270 e 1280, estes manuscritos ficaram restritos a círculos cabalistas. Finalmente, chegaram às mãos de um místico judeu espanhol, Rabi Moshe de Leon (1238-1305), que os editou e publicou na década de 1290. Por que teria essa obra magna permanecido escondida por tanto tempo? O próprio Livro do Esplendor revela a razão ao afirmar que sua sabedoria e luz seriam reveladas como preparação para a Redenção Final, que deveria ocorrer 1.200 anos após a destruição do Templo Sagrado. E é exatamente o que aconteceu ! O Grande Templo de Jerusalém foi destruído no ano 70 da nossa era, o que significa que, segundo as previsões do Zohar, seu conteúdo deveria ser revelado no ano de 1270. O estudo da Cabalá floresceu na Espanha e na Provença, mas até a expulsão dos judeus da Península Ibérica, o Zohar só era conhecido no meio de restritos círculos de sábios e cabalistas. Após a expulsão, ele emerge desses círculos e passa a exercer uma grande influência sobre os judeus sefaraditas. Perseguidos e expulsos, os judeus da Espanha encontraram em seus ensinamentos sobre a Redenção Messiânica uma grande fonte de conforto e esperança e tanto a obra como seu autor passaram a ser reverenciados por eles. Até hoje, o Zohar está presente no dia-a-dia dos judeus dessa origem, pois seus ensinamentos moldaram grande parte de suas tradições e seus costumes religiosos. Muitos dos cabalistas forçados a sair da Península Ibérica se estabeleceram na cidade sagrada de Safed, em Israel, que se tornou um centro de estudos místicos. Em Safed, o Sefer ha'Zohar serviu de base para os ensinamentos de dois dos maiores cabalistas - ambos sefaraditas - da era moderna: Rabi Moshe Cordovero (falecido em 1570), conhecido como o Ramak; e o grande Rabi Yitzhak Luria (1534-1572), o Arizal. Foi em Safed – Israel, que o Arizal transmitiu seus conhecimentos sobre o Livro do Esplendor e a Cabalá. Desenvolveu um novo sistema para a compreensão de seus mistérios, chamado de Método Luriânico. Seus ensinamentos são reconhecidos como a autoridade máxima da Cabalá, tendo sido estudados pelas gerações de cabalistas que o seguiram. A partir de seus ensinamentos, a Cabalá se tornou mais acessível e passou a ser disseminada por sábios e místicos judeus. O próprio Arizal afirmara que havia chegado a era na qual não só seria permitido revelar a sabedoria da Cabalá, mas tornar-se-ia uma obrigação fazê-lo. Mas, foi na primeira metade do século XVIII, com o surgimento do chassidismo - como passou a ser chamado o movimento iniciado no leste da Europa pelo Rabi Baal Shem Tov - que a Cabalá que fora ensinada pelo Arizal passou a atingir um número ainda maior de judeus. A principal contribuição do chassidismo foi sua adaptação da doutrina da Cabalá a uma linguagem cotidiana e de fácil compreensão. Desta maneira, a profunda sabedoria de Rabi Shimon bar Yochai passou a influenciar as massas de judeus asquenazitas do leste Europeu. Com a expansão do chassidismo os ensinamentos do Zohar passaram a influenciar um número cada vez maior de judeus. A santidade da obra. Chamada também de Ha'Zohar ha-Kadosh - O Sagrado Zohar - esta obra é envolta por uma aura de suprema santidade. Sua natureza misteriosa e seu conteúdo inacessível só acrescentaram reverência ao respeito que provoca entre judeus e não-judeus. Como vimos anteriormente, o Zohar é a suprema autoridade no campo do misticismo judaico, é a face mística da Revelação Divina manifestada por meio da Torá. Em termos de santidade, o Zohar foi posto em um nível ainda maior do que o Talmud, pois enquanto as leis deste último representam o corpo da Torá, os mistérios do Zohar representam sua alma. Mas, o Livro do Esplendor nunca se opõe à autoridade do Talmud nem às suas leis. Assim como alma e corpo são interdependentes; apenas quando unidos e em harmonia podem proporcionar ao homem uma vida significativa. Da mesma forma, o Zohar e o Talmud não podem cumprir sua missão, nem sobreviver de forma separada e sem uma mútua interligação. O Zohar tem sido aceito por todo o povo judeu, independentemente de seu passado e tradições. Embora apenas um número limitado de judeus o tenha estudado de fato, continua a influenciar de maneiras que sequer podem ser imaginadas. Uma história do Baal Shem Tov revela o amor dos chassidim pelo Zohar e é também um exemplo de sua santidade e poder. Sabe-se que o Baal Shem Tov (1698-1760) sempre levava uma cópia desta obra com ele, sendo capaz de realizar milagres e prever o futuro através da força espiritual do livro. Um dia lhe perguntaram como tinha sido capaz de, simplesmente olhando para o Zohar, descrever os passos de um homem que havia desaparecido. E ele respondeu com uma citação do Talmud: "A luz que D'us fez em seis dias de Criação permitiria ao homem enxergar de um lado do mundo para o outro, mas esta luz tem sido guardada para os justos no Mundo Vindouro". E onde está esta luz guardada", perguntou o Baal Shem Tov, respondendo ele próprio: "Na Torá. Então, quando eu abro o Zohar, eu posso ver o mundo todo". www.morasha.com.br. Abraço. Davi