Confucionismo. www.rl.art.br. Livro
Confúcio. OS ANALECTOS. INTRODUÇÃO. Parte I. Apesar de sua imensa importância
na tradição chinesa, poucas das informações sobre Confúcio são de fato
comprovadas. O texto canônico sobre sua vida é a biografia que integra a obra
de Ssu-ma Ch’ien Shih chi (Arquivos históricos). Concluída no início do século
1 a.C., mas nessa época tantas lendas já pairavam ao redor da figura do sábio
que pouca certeza se pode ter em relação a qualquer um desses acontecimentos
que não são confirmados por fontes anteriores e independentes. Sendo esse o
caso, podemos considerar confiáveis apenas o que é possível concluir a partir
do próprio Lun yü – conhecido como Os analectos de Confúcio – e do Tso chuan (O
comentário Zuo dos Anais do Período de Primavera e Outono. Os textos de Mêncio
podem ser usados como uma fonte suplementar. Os fatos são escassos. Diz-se que
Confúcio descendia de uma família nobre no reino de Sung. Nos primeiros anos do
século 8 a.C., um dos ancestrais de Confúcio morreu quando o duque de Sung, que
era seu superior, foi assassinado. Seus descendentes fugiram para o reino de Lu
e se estabeleceram na cidade de Tsou. No Tso chuan do décimo ano do duque
Hsiang, está registrado que um tal de Shu He de Tsou teria segurado o portão da
muralha com as próprias mãos enquanto seus amigos fugiam. O Shih chi,
entretanto, dá o seu nome como Shu Liang He e acrescentou ainda a informação de
que ele era o pai de Confúcio. Sobre a mãe de Confúcio, nada de certo se sabe.
K’ung Ch’iu ou K’ung Chung-ni [Kong Fuzi], comumente conhecido no Ocidente como
Confúcio, ou Confucius, nasceu em 552 ou 551 a.C. e ficou órfão muito cedo. Da
sua juventude pouco se sabe, exceto que era pobre e que gostava de estudar. Ele
disse: “Eu era de origem humilde quando jovem. É por isso que tenho várias
habilidades manuais” (Livro IX.6), e “Aos quinze anos, dediquei-me de coração a
aprender” (Livro II.4). No ano 517 a.C., o duque Chao de Lu teve de fugir do
reino depois de uma malfadada tentativa de enfrentar a família Chi na guerra. É
provável que tenha sido por essa época, quando tinha 35 anos, que Confúcio foi
para Ch’i. Se ele o fez, logo voltou a Lu. Foi na época do duque Ting, de Lu
(por volta de 509 AC 494) que ele se tornou o chefe de polícia de Lu. Durante a
sua gestão, aconteceram dois eventos que estão registrados no Tso chuan.
Primeiro, ele acompanhou o duque em uma reunião com o duque Ching de Ch’i e
obteve uma vitória diplomática. Segundo ele foi responsável pela desistência de
se destruir a principal cidade de cada uma das três poderosas famílias nobres.
Foi provavelmente no ano de 497 a.C. que Confúcio deixou o reino, ou o Reino,
de Lu, para só retornar treze anos depois. Um relato é dado em Os analectos
sobre porque ele deixou Lu: “Os homens de Ch’i enviaram de presente moças
cantoras e dançarinas. Chi Huan Tzu aceitou-as e não foi à corte durante três
dias. Confúcio foi embora” (XVIII.4). No Mencius, entretanto, um relato
diferente é feito. “Confúcio era o chefe de polícia de Lu, mas não lhe foi dada
uma parte sequer da carne do animal sacrificado. Ele abandonou o reino sem
sequer tirar o chapéu cerimonial.” O comentário de Mêncio foi: “Aqueles que não
o entenderam pensaram que ele agia de tal forma por causa da carne, mas aqueles
que o entenderam perceberam que ele partiu porque Lu não soube observar os
ritos devidamente”. Como Mêncio provavelmente tinha razão em pensar que
Confúcio partira com algum pretexto claro, não precisamos ficar surpresos se
não há consenso sobre qual era esse pretexto. Confúcio primeiro foi para Wei e,
durante os anos seguintes, visitou vários outros reinos, oferecendo conselhos
aos senhores feudais. Sem lograr êxito, voltou para Wei em 489 a.C. Não é
possível determinar quanto tempo Confúcio ficou em cada reino, já que as poucas
evidências que existem a respeito tendem a ser conflitantes. Confúcio
finalmente retornou para Lu em 484 a.C., quando contava já 68 anos. Dando-se
por fim conta de que não havia esperanças de conseguir colocar suas ideias em
prática, ele devotou o resto de sua vida ao ensino. Seus últimos anos foram
entristecidos primeiro pela morte do seu filho, depois pela morte do seu
discípulo favorito, Yen Hui, ainda muito jovem. Confúcio faleceu em 479 a.C.
Mas nos concentremos nos ensinamentos de Confúcio. Filósofos interessados no
campo da moral geralmente podem ser divididos em dois tipos: aqueles que se
interessam pela essência moral e aqueles que se interessam pelos atos morais.
Confúcio com certeza tem mais a dizer sobre a essência moral do que sobre atos
morais, mas isso não significa que a correção dos atos seja, em última
instância, desimportante dentro da sua filosofia. Mas significa, sim, que em
qualquer apreciação da filosofia de Confúcio é razoável começar com suas visões
sobre a essência da moralidade. Antes que comecemos a ver o que Confúcio tem a
dizer sobre a essência moral, é conveniente, antes de mais nada, falar sobre
dois conceitos que já eram correntes na época de Confúcio: o Caminho (Tao) e a
virtude (Te). A importância que Confúcio atribuía ao Caminho pode ser percebida
na seguinte observação: “Não viveu em vão aquele que morre no dia em que
descobre o Caminho” (IV.8). Usado nesse sentido, o termo “Caminho” parece
cobrir a soma total de verdades sobre o universo e sobre o homem; e não apenas
do indivíduo, mas também do Estado diz que possui ou não o Caminho. Como se
trata de algo que pode ser transmitido de professor para discípulo, é
necessariamente algo que pode ser colocado em palavras. Entretanto, há um outro
sentido, ligeiramente diferente, no qual o termo é usado. O Caminho é dito,
também, como sendo o caminho de alguém, por exemplo, “os caminhos dos antigos
reis” (I.12), “o caminho do rei Wen e do rei Wu” (XIX.22), ou “o caminho do
Mestre” (IV.15). Quando for esse o caso, “caminho” naturalmente pode apenas ser
tomado como algo que significa o caminho seguido pela pessoa em questão. Já o
“Caminho”, escolas de pensamento rivais declaravam tê-lo descoberto, mesmo que
aquilo que cada escola dizia ter descoberto se mostrasse uma coisa diferente da
outra. O Caminho, então, é um termo altamente subjetivo e se aproxima muito do
termo “verdade”, tal como é encontrado nas escrituras filosóficas e religiosas
do Ocidente. Parece haver poucas dúvidas de que a palavra te, virtude, seja uma
palavra homófona à palavra te, “conseguir” . Virtude é uma bênção que o homem
recebe do Céu [5] . A palavra era usada nesse sentido quando Confúcio, mediante
um atentado à sua vida, disse: “O Céu é o autor da virtude que há em mim”
(VII.23), mas o uso da palavra nesse sentido é raro em Os analectos. Na época
de Confúcio, o termo provavelmente já tinha se tornado uma palavra carregada de
significado moral. Trata-se de algo que alguém cultiva e que permite a tal
pessoa governar bem um reino. Uma das coisas que causava preocupação a Confúcio
era, de acordo com ele próprio, seu fracasso em cultivar a própria virtude
(VII.3). Ele também disse que, se um homem guiasse o povo por meio da virtude,
o povo não apenas reformaria a si próprio como desenvolveria um sentimento de
vergonha (II.3). Tanto o Caminho quanto a virtude eram conceitos correntes
antes de Confúcio e, na época dele, já tinham, provavelmente, uma certa aura.
Ambos, de alguma forma, originam-se do Céu. É talvez por essa razão que, embora
ele tenha dito poucas coisas concretas e específicas sobre qualquer um desses
conceitos, Confúcio, ainda assim, atribuiu a eles grande importância no seu
modo de ver o mundo. Ele disse: “Aplico meu coração no caminho, baseio-me na
virtude, confio na benevolência para apoio e encontro entretenimento nas artes”
(VII.6). Benevolência é algo cujo alcance depende totalmente de nossos próprios
esforços, mas virtude é, em parte, um presente do Céu. Por trás da busca de
Confúcio da essência ideal da moral, subjaz o não falado e, portanto,
inquestionável pressuposto de que o único objetivo que um homem pode ter e
também a única coisa válida que pode fazer é tornar-se um homem tão bom quanto
possível. Isso é algo que tem de ser perseguido somente pelo próprio valor
intrínseco e com completa indiferença quanto ao sucesso ou fracasso.
Diferentemente de mestres religiosos, Confúcio não podia pregar nenhuma
esperança de recompensa, neste mundo ou no outro. No que tange à vida após a
morte, a atitude de Confúcio pode, na melhor das hipóteses, ser descrita como
agnóstica. Quando Tzu-lu perguntou como os deuses e os espíritos deveriam ser
servidos, o Mestre respondeu que, como ele não era apto a servir os homens,
como poderia ele servir os espíritos? E quando então Tzu-lu perguntou sobre a
morte, o Mestre respondeu que, como não compreendia a vida, como poderia
entender a morte? (XI.12). Isso mostra, no mínimo, uma relutância da parte de
Confúcio em se comprometer com o assunto da existência após a morte. Embora sem
dar aos homens qualquer segurança de uma vida após a morte, Confúcio, entretanto,
fez deles grandes exigências morais. Ele disse do cavalheiro de valor e do
homem benevolente que “ao mesmo tempo em que é inconcebível que eles busquem
permanecer vivos graças à benevolência, pode acontecer que tenham de aceitar a
morte para conseguirem realizar a benevolência” (XV.9). Quando tais exigências
são feitas a homens, pouco surpreende que um dos discípulos de Confúcio tenha
considerado que o fardo de um Cavalheiro “é pesado, e sua estrada, longa”, pois
o fardo dele é a benevolência, e a estrada só chegava ao fim com a morte
(VIII.7). Se um homem não pode ter certeza sobre uma recompensa após a morte,
tampouco pode ter certeza sobre o sucesso das ações morais da sua vida. O
porteiro do Portão de Pedra perguntou a Tzu-lu, “o K’ung que continua
perseguindo um objetivo que ele sabe ser impossível?” (XIV.38). Em outra
ocasião, depois de um encontro com um preso, Tzu-lu foi levado a apontar: “O
cavalheiro aceita um cargo oficial para cumprir seu dever. Quanto a colocar o
Caminho em prática, ele sabe o tempo todo que é uma causa perdida” (XVIII.7).
Já que, ao ser um ente moral, um homem não pode estar seguro de uma recompensa
nem pode ter garantia de sucesso, a moralidade é algo a ser perseguido por ela
mesma. Essa é, talvez, a mensagem mais fundamental dos ensinamentos de
Confúcio, uma mensagem que diferenciou os seus ensinamentos daqueles de outras
escolas de pensamento da China antiga. Para Confúcio, não há apenas um tipo de
caráter ideal, mas uma variedade deles. O mais alto é o sábio (sheng jeng).
Esse ideal é tão alto que quase nunca se realiza. Confúcio alegava que ele
próprio não era um sábio e dizia que nunca havia visto tal homem. Ele disse:
“Como posso me considerar um sábio ou um homem benevolente?” (VII.26). A única
vez que ele indicou o tipo de homem que mereceria o adjetivo foi quando
Tzu-kung lhe perguntou: “Se houvesse um homem que desse generosamente ao povo e
trouxesse auxílio às multidões, o que você pensaria dele? Ele poderia ser
considerado benevolente?” A resposta de Confúcio foi: “Nesse caso não se trata
mais de benevolência. Se precisa descrever tal homem, sábio é, talvez, a
palavra adequada” (VI.30). Mais abaixo na escala estão o homem bom (shan jen) e
o homem completo (ch’eng jen). Mesmo o homem bom Confúcio alegava não ter visto,
mas o termo “homem bom” parece se aplicar essencialmente a homens responsáveis
pelo governo, como quando ele disse, por exemplo: “Como é verdadeiro o ditado
que diz que depois que um reino foi governado durante cem anos por bons homens
é possível vencer a crueldade e acabar com a matança!” (XIII.11) e “Depois que
um homem bom educou o povo por sete anos, aí então eles estarão prontos para
pegar em armas” (XIII.29). Na única ocasião em que lhe perguntaram sobre o
caminho do homem bom, a resposta de Confúcio foi um tanto obscura (XI.20).
Quanto ao homem completo, ele é descrito em termos que não lhe são exclusivos.
Ele, “à vista de uma vantagem a ser obtida, lembra-se do que é certo” e “em
face do perigo, está pronto para dar a própria vida” (XIV.12). Termos similares
são utilizados para descrever o Cavalheiro (XIX.1). Não há dúvida, entretanto,
que o tipo de caráter moralmente ideal para Confúcio é o chün tzu (cavalheiro),
conforme é discutido em mais de oitenta capítulos em Os analectos. Chün tzu e
hsio jen (pequeno homem) são termos correlativos e contrastantes. O primeiro é
usado para homens de autoridade, enquanto o último aplica-se aos homens que são
governados. Em Os analectos, entretanto, chün tzu e hsiao jen são termos
essencialmente morais. O chün tzu é o homem com uma moral cultivada, enquanto
hsiao jen é o oposto. Vale a pena acrescentar que os dois usos, indicando o
status social e moral, não são exclusivos e, em casos específicos, é difícil
ter certeza se, além das conotações morais, esses termos também não podem
carregar sua conotação social comum. Como o cavalheiro é o caráter moral ideal,
não se deve esperar que um homem possa se tornar um cavalheiro sem muito
trabalho ou cultivo, como os chineses dizem. Há um considerável número de
virtudes que um cavalheiro deve ter, e a essência dessas virtudes é
frequentemente resumida em um preceito. Para ter uma total compreensão do
caráter moral de um cavalheiro, precisamos olhar detalhadamente para as
variadas virtudes que ele precisa possuir. Benevolência (jen) é a qualidade
moral mais importante que um homem pode ter. Embora o uso desse termo não tenha
sido uma inovação de Confúcio, é quase certo que a complexidade de seu conteúdo
e a preeminência que atingia entre outras qualidades morais sejam devidas a
Confúcio. A ideia de que é a qualidade moral que um cavalheiro precisa possuir
fica claro no seguinte provérbio: Se o cavalheiro abandona a benevolência, de
que modo pode ele construir um nome para si? Um cavalheiro nunca abandona a
benevolência, nem mesmo pelo pouco tempo que demora para se comer uma refeição.
Se ele se apressa e tropeça, pode-se ter certeza de que é na benevolência que
ele o faz (IV.5). Em alguns contextos “o cavalheiro” e “o homem benevolente”
são termos quase intercambiáveis. Por exemplo, é dito que “o cavalheiro é livre
de preocupações e medos” (XII.4), enquanto em outra passagem é do homem
benevolente que se diz que não tem preocupações (IX.29, XIV.28). Como a
benevolência é um conceito tão central, naturalmente espera-se que Confúcio
tenha muito a dizer a respeito. Quanto a isso, as expectativas são cumpridas.
Em nada menos do que seis ocasiões Confúcio respondeu perguntas diretas sobre
benevolência, e, como Confúcio tinha o hábito de formular suas respostas
levando em consideração as necessidades específicas da pessoa que fazia a
pergunta, essas respostas, tomadas em conjunto, nos fornecem um quadro
razoavelmente completo. O ponto essencial sobre a benevolência é encontrado na
resposta de Confúcio para Chung-kung: Não imponha aos outros aquilo que você
não deseja para si próprio. (XII.2) Essas palavras foram repetidas em outra
ocasião. Tzu-kung perguntou: “Existe uma palavra que possa ser um guia de
conduta durante toda a vida de alguém?”. O Mestre disse: “Talvez, a palavra
shu. Não imponha aos outros aquilo que você não deseja para si próprio”.
(XV.24) Considerando as duas frases conjuntamente, podemos ver que shu é parte
da benevolência e, como tal, é de grande importância nos ensinamentos de
Confúcio. Isso é confirmado por uma frase de Tseng Tzu. À observação do Mestre
de que apenas um fio amarrava o seu caminho, Tseng Tzu acrescentou a
explicação: “O caminho do Mestre consiste em chung e shu. Isso é tudo” (IV.
15). Há outra frase que é, na verdade, também sobre shu. Em resposta a uma
pergunta de Tzu-kung, Confúcio disse: Mas, por outro lado, um homem benevolente
ajuda os outros a firmarem sua atitude do mesmo modo que ele próprio deseja
firmar a sua e conduz os outros a isso do mesmo modo que ele próprio deseja
chegar lá. A capacidade de tomar o que está ao alcance da mão como parâmetro
pode ser considerado o método da benevolência. (VI.30) Daí podemos ver que shu
é o método de descobrir aquilo que os outros desejam ou não desejam que seja
feito para eles. O método consiste em tomar a si mesmo – “aquilo que está ao
alcance da mão” – como uma analogia e se perguntar sobre o que gostaríamos ou
não, caso estivéssemos no lugar do outro. Shu, entretanto, não pode ser toda a
benevolência, já que se trata apenas do método de aplicação. Tendo descoberto o
que a outra pessoa desejaria ou não, fazer aquilo que pensamos que a pessoa
desejaria ou evitar fazer à pessoa aquilo que acreditamos que ela não desejaria
depende de algo mais do que o shu. Como o caminho do Mestre consiste de chung e
shu, em chung temos o outro componente da benevolência. Chung é fazer o melhor
de que alguém é capaz, é dar o melhor de si, e é por meio do chung que uma
pessoa põe em prática aquilo que descobriu pelo método de shu. Tseng Tzu disse
em outra ocasião, “Todos os dias, examino a mim mesmo sob três aspectos” e,
desses, o primeiro é: “Naquilo que fiz pelo bem-estar do outro, falhei em ser
chung?” (I.4). Outra vez, quando questionado sobre como um ministro deveria
servir seu governante, a resposta de Confúcio foi a de que ele “deveria servir
seu governante com chung” (III.19). Finalmente, também é dito que ao tratar com
os outros uma pessoa deveria ser chung (XIII.19). Em todos esses casos, não
resta absolutamente nenhuma dúvida de que chung significa “dar o melhor de si”.
Outra resposta que Confúcio deu a uma pergunta sobre a benevolência foi “Ame
seus semelhantes” (XII.22). Como ele não elaborou o pensamento, o significado
não é muito claro. Mas felizmente ele usou essa frase novamente em duas outras
ocasiões. Em I.5 ele disse: “Ao governar um reino com mil carruagens (...)
evite gastos excessivos e ame os seus semelhantes; empregue o trabalho do povo
apenas nas épocas certas”. Outra vez, o Mestre, segundo Tzuy u, disse: “o
cavalheiro instruído no Caminho ama seus semelhantes e que os homens vulgares
instruídos no Caminho são fáceis de serem comandados” (XVII.4). No primeiro
caso, o amor pelo semelhante (jen) é contrastado com o emprego das pessoas
comuns (min) nas estações corretas, enquanto no segundo caso o cavalheiro que
ama seus semelhantes é contrastado com o homem vulgar que é fácil de ser
comandado. Se lembrarmos que “homem vulgar” provavelmente não era a mesma coisa
que “pessoa comum” ou “povo”, não podemos eliminar a possibilidade de que,
quando Confúcio definiu benevolência em termos de amar o seu semelhante, ele
não tinha em mente as pessoas comuns. Mesmo se for esse o caso, não é tão
estranho quanto parece à primeira vista, e, para ver a questão em perspectiva,
devemos primeiramente dar uma olhada nas bases do sistema moral de Confúcio.
Confúcio tinha uma profunda admiração pelo duque de Chou, que, como regente dos
primeiros anos do reino de seu jovem sobrinho, rei Ch’eng, foi o arquiteto do
sistema feudal Chou, uns quinhentos anos antes da época de Confúcio. Abraço.
Davi