sexta-feira, 28 de junho de 2024

OS ANALECTOS. INTRODUÇÃO. Parte I

 

Confucionismo. www.rl.art.br. Livro Confúcio. OS ANALECTOS. INTRODUÇÃO. Parte I. Apesar de sua imensa importância na tradição chinesa, poucas das informações sobre Confúcio são de fato comprovadas. O texto canônico sobre sua vida é a biografia que integra a obra de Ssu-ma Ch’ien Shih chi (Arquivos históricos). Concluída no início do século 1 a.C., mas nessa época tantas lendas já pairavam ao redor da figura do sábio que pouca certeza se pode ter em relação a qualquer um desses acontecimentos que não são confirmados por fontes anteriores e independentes. Sendo esse o caso, podemos considerar confiáveis apenas o que é possível concluir a partir do próprio Lun yü – conhecido como Os analectos de Confúcio – e do Tso chuan (O comentário Zuo dos Anais do Período de Primavera e Outono. Os textos de Mêncio podem ser usados como uma fonte suplementar. Os fatos são escassos. Diz-se que Confúcio descendia de uma família nobre no reino de Sung. Nos primeiros anos do século 8 a.C., um dos ancestrais de Confúcio morreu quando o duque de Sung, que era seu superior, foi assassinado. Seus descendentes fugiram para o reino de Lu e se estabeleceram na cidade de Tsou. No Tso chuan do décimo ano do duque Hsiang, está registrado que um tal de Shu He de Tsou teria segurado o portão da muralha com as próprias mãos enquanto seus amigos fugiam. O Shih chi, entretanto, dá o seu nome como Shu Liang He e acrescentou ainda a informação de que ele era o pai de Confúcio. Sobre a mãe de Confúcio, nada de certo se sabe. K’ung Ch’iu ou K’ung Chung-ni [Kong Fuzi], comumente conhecido no Ocidente como Confúcio, ou Confucius, nasceu em 552 ou 551 a.C. e ficou órfão muito cedo. Da sua juventude pouco se sabe, exceto que era pobre e que gostava de estudar. Ele disse: “Eu era de origem humilde quando jovem. É por isso que tenho várias habilidades manuais” (Livro IX.6), e “Aos quinze anos, dediquei-me de coração a aprender” (Livro II.4). No ano 517 a.C., o duque Chao de Lu teve de fugir do reino depois de uma malfadada tentativa de enfrentar a família Chi na guerra. É provável que tenha sido por essa época, quando tinha 35 anos, que Confúcio foi para Ch’i. Se ele o fez, logo voltou a Lu. Foi na época do duque Ting, de Lu (por volta de 509 AC 494) que ele se tornou o chefe de polícia de Lu. Durante a sua gestão, aconteceram dois eventos que estão registrados no Tso chuan. Primeiro, ele acompanhou o duque em uma reunião com o duque Ching de Ch’i e obteve uma vitória diplomática. Segundo ele foi responsável pela desistência de se destruir a principal cidade de cada uma das três poderosas famílias nobres. Foi provavelmente no ano de 497 a.C. que Confúcio deixou o reino, ou o Reino, de Lu, para só retornar treze anos depois. Um relato é dado em Os analectos sobre porque ele deixou Lu: “Os homens de Ch’i enviaram de presente moças cantoras e dançarinas. Chi Huan Tzu aceitou-as e não foi à corte durante três dias. Confúcio foi embora” (XVIII.4). No Mencius, entretanto, um relato diferente é feito. “Confúcio era o chefe de polícia de Lu, mas não lhe foi dada uma parte sequer da carne do animal sacrificado. Ele abandonou o reino sem sequer tirar o chapéu cerimonial.” O comentário de Mêncio foi: “Aqueles que não o entenderam pensaram que ele agia de tal forma por causa da carne, mas aqueles que o entenderam perceberam que ele partiu porque Lu não soube observar os ritos devidamente”. Como Mêncio provavelmente tinha razão em pensar que Confúcio partira com algum pretexto claro, não precisamos ficar surpresos se não há consenso sobre qual era esse pretexto. Confúcio primeiro foi para Wei e, durante os anos seguintes, visitou vários outros reinos, oferecendo conselhos aos senhores feudais. Sem lograr êxito, voltou para Wei em 489 a.C. Não é possível determinar quanto tempo Confúcio ficou em cada reino, já que as poucas evidências que existem a respeito tendem a ser conflitantes. Confúcio finalmente retornou para Lu em 484 a.C., quando contava já 68 anos. Dando-se por fim conta de que não havia esperanças de conseguir colocar suas ideias em prática, ele devotou o resto de sua vida ao ensino. Seus últimos anos foram entristecidos primeiro pela morte do seu filho, depois pela morte do seu discípulo favorito, Yen Hui, ainda muito jovem. Confúcio faleceu em 479 a.C. Mas nos concentremos nos ensinamentos de Confúcio. Filósofos interessados no campo da moral geralmente podem ser divididos em dois tipos: aqueles que se interessam pela essência moral e aqueles que se interessam pelos atos morais. Confúcio com certeza tem mais a dizer sobre a essência moral do que sobre atos morais, mas isso não significa que a correção dos atos seja, em última instância, desimportante dentro da sua filosofia. Mas significa, sim, que em qualquer apreciação da filosofia de Confúcio é razoável começar com suas visões sobre a essência da moralidade. Antes que comecemos a ver o que Confúcio tem a dizer sobre a essência moral, é conveniente, antes de mais nada, falar sobre dois conceitos que já eram correntes na época de Confúcio: o Caminho (Tao) e a virtude (Te). A importância que Confúcio atribuía ao Caminho pode ser percebida na seguinte observação: “Não viveu em vão aquele que morre no dia em que descobre o Caminho” (IV.8). Usado nesse sentido, o termo “Caminho” parece cobrir a soma total de verdades sobre o universo e sobre o homem; e não apenas do indivíduo, mas também do Estado diz que possui ou não o Caminho. Como se trata de algo que pode ser transmitido de professor para discípulo, é necessariamente algo que pode ser colocado em palavras. Entretanto, há um outro sentido, ligeiramente diferente, no qual o termo é usado. O Caminho é dito, também, como sendo o caminho de alguém, por exemplo, “os caminhos dos antigos reis” (I.12), “o caminho do rei Wen e do rei Wu” (XIX.22), ou “o caminho do Mestre” (IV.15). Quando for esse o caso, “caminho” naturalmente pode apenas ser tomado como algo que significa o caminho seguido pela pessoa em questão. Já o “Caminho”, escolas de pensamento rivais declaravam tê-lo descoberto, mesmo que aquilo que cada escola dizia ter descoberto se mostrasse uma coisa diferente da outra. O Caminho, então, é um termo altamente subjetivo e se aproxima muito do termo “verdade”, tal como é encontrado nas escrituras filosóficas e religiosas do Ocidente. Parece haver poucas dúvidas de que a palavra te, virtude, seja uma palavra homófona à palavra te, “conseguir” . Virtude é uma bênção que o homem recebe do Céu [5] . A palavra era usada nesse sentido quando Confúcio, mediante um atentado à sua vida, disse: “O Céu é o autor da virtude que há em mim” (VII.23), mas o uso da palavra nesse sentido é raro em Os analectos. Na época de Confúcio, o termo provavelmente já tinha se tornado uma palavra carregada de significado moral. Trata-se de algo que alguém cultiva e que permite a tal pessoa governar bem um reino. Uma das coisas que causava preocupação a Confúcio era, de acordo com ele próprio, seu fracasso em cultivar a própria virtude (VII.3). Ele também disse que, se um homem guiasse o povo por meio da virtude, o povo não apenas reformaria a si próprio como desenvolveria um sentimento de vergonha (II.3). Tanto o Caminho quanto a virtude eram conceitos correntes antes de Confúcio e, na época dele, já tinham, provavelmente, uma certa aura. Ambos, de alguma forma, originam-se do Céu. É talvez por essa razão que, embora ele tenha dito poucas coisas concretas e específicas sobre qualquer um desses conceitos, Confúcio, ainda assim, atribuiu a eles grande importância no seu modo de ver o mundo. Ele disse: “Aplico meu coração no caminho, baseio-me na virtude, confio na benevolência para apoio e encontro entretenimento nas artes” (VII.6). Benevolência é algo cujo alcance depende totalmente de nossos próprios esforços, mas virtude é, em parte, um presente do Céu. Por trás da busca de Confúcio da essência ideal da moral, subjaz o não falado e, portanto, inquestionável pressuposto de que o único objetivo que um homem pode ter e também a única coisa válida que pode fazer é tornar-se um homem tão bom quanto possível. Isso é algo que tem de ser perseguido somente pelo próprio valor intrínseco e com completa indiferença quanto ao sucesso ou fracasso. Diferentemente de mestres religiosos, Confúcio não podia pregar nenhuma esperança de recompensa, neste mundo ou no outro. No que tange à vida após a morte, a atitude de Confúcio pode, na melhor das hipóteses, ser descrita como agnóstica. Quando Tzu-lu perguntou como os deuses e os espíritos deveriam ser servidos, o Mestre respondeu que, como ele não era apto a servir os homens, como poderia ele servir os espíritos? E quando então Tzu-lu perguntou sobre a morte, o Mestre respondeu que, como não compreendia a vida, como poderia entender a morte? (XI.12). Isso mostra, no mínimo, uma relutância da parte de Confúcio em se comprometer com o assunto da existência após a morte. Embora sem dar aos homens qualquer segurança de uma vida após a morte, Confúcio, entretanto, fez deles grandes exigências morais. Ele disse do cavalheiro de valor e do homem benevolente que “ao mesmo tempo em que é inconcebível que eles busquem permanecer vivos graças à benevolência, pode acontecer que tenham de aceitar a morte para conseguirem realizar a benevolência” (XV.9). Quando tais exigências são feitas a homens, pouco surpreende que um dos discípulos de Confúcio tenha considerado que o fardo de um Cavalheiro “é pesado, e sua estrada, longa”, pois o fardo dele é a benevolência, e a estrada só chegava ao fim com a morte (VIII.7). Se um homem não pode ter certeza sobre uma recompensa após a morte, tampouco pode ter certeza sobre o sucesso das ações morais da sua vida. O porteiro do Portão de Pedra perguntou a Tzu-lu, “o K’ung que continua perseguindo um objetivo que ele sabe ser impossível?” (XIV.38). Em outra ocasião, depois de um encontro com um preso, Tzu-lu foi levado a apontar: “O cavalheiro aceita um cargo oficial para cumprir seu dever. Quanto a colocar o Caminho em prática, ele sabe o tempo todo que é uma causa perdida” (XVIII.7). Já que, ao ser um ente moral, um homem não pode estar seguro de uma recompensa nem pode ter garantia de sucesso, a moralidade é algo a ser perseguido por ela mesma. Essa é, talvez, a mensagem mais fundamental dos ensinamentos de Confúcio, uma mensagem que diferenciou os seus ensinamentos daqueles de outras escolas de pensamento da China antiga. Para Confúcio, não há apenas um tipo de caráter ideal, mas uma variedade deles. O mais alto é o sábio (sheng jeng). Esse ideal é tão alto que quase nunca se realiza. Confúcio alegava que ele próprio não era um sábio e dizia que nunca havia visto tal homem. Ele disse: “Como posso me considerar um sábio ou um homem benevolente?” (VII.26). A única vez que ele indicou o tipo de homem que mereceria o adjetivo foi quando Tzu-kung lhe perguntou: “Se houvesse um homem que desse generosamente ao povo e trouxesse auxílio às multidões, o que você pensaria dele? Ele poderia ser considerado benevolente?” A resposta de Confúcio foi: “Nesse caso não se trata mais de benevolência. Se precisa descrever tal homem, sábio é, talvez, a palavra adequada” (VI.30). Mais abaixo na escala estão o homem bom (shan jen) e o homem completo (ch’eng jen). Mesmo o homem bom Confúcio alegava não ter visto, mas o termo “homem bom” parece se aplicar essencialmente a homens responsáveis pelo governo, como quando ele disse, por exemplo: “Como é verdadeiro o ditado que diz que depois que um reino foi governado durante cem anos por bons homens é possível vencer a crueldade e acabar com a matança!” (XIII.11) e “Depois que um homem bom educou o povo por sete anos, aí então eles estarão prontos para pegar em armas” (XIII.29). Na única ocasião em que lhe perguntaram sobre o caminho do homem bom, a resposta de Confúcio foi um tanto obscura (XI.20). Quanto ao homem completo, ele é descrito em termos que não lhe são exclusivos. Ele, “à vista de uma vantagem a ser obtida, lembra-se do que é certo” e “em face do perigo, está pronto para dar a própria vida” (XIV.12). Termos similares são utilizados para descrever o Cavalheiro (XIX.1). Não há dúvida, entretanto, que o tipo de caráter moralmente ideal para Confúcio é o chün tzu (cavalheiro), conforme é discutido em mais de oitenta capítulos em Os analectos. Chün tzu e hsio jen (pequeno homem) são termos correlativos e contrastantes. O primeiro é usado para homens de autoridade, enquanto o último aplica-se aos homens que são governados. Em Os analectos, entretanto, chün tzu e hsiao jen são termos essencialmente morais. O chün tzu é o homem com uma moral cultivada, enquanto hsiao jen é o oposto. Vale a pena acrescentar que os dois usos, indicando o status social e moral, não são exclusivos e, em casos específicos, é difícil ter certeza se, além das conotações morais, esses termos também não podem carregar sua conotação social comum. Como o cavalheiro é o caráter moral ideal, não se deve esperar que um homem possa se tornar um cavalheiro sem muito trabalho ou cultivo, como os chineses dizem. Há um considerável número de virtudes que um cavalheiro deve ter, e a essência dessas virtudes é frequentemente resumida em um preceito. Para ter uma total compreensão do caráter moral de um cavalheiro, precisamos olhar detalhadamente para as variadas virtudes que ele precisa possuir. Benevolência (jen) é a qualidade moral mais importante que um homem pode ter. Embora o uso desse termo não tenha sido uma inovação de Confúcio, é quase certo que a complexidade de seu conteúdo e a preeminência que atingia entre outras qualidades morais sejam devidas a Confúcio. A ideia de que é a qualidade moral que um cavalheiro precisa possuir fica claro no seguinte provérbio: Se o cavalheiro abandona a benevolência, de que modo pode ele construir um nome para si? Um cavalheiro nunca abandona a benevolência, nem mesmo pelo pouco tempo que demora para se comer uma refeição. Se ele se apressa e tropeça, pode-se ter certeza de que é na benevolência que ele o faz (IV.5). Em alguns contextos “o cavalheiro” e “o homem benevolente” são termos quase intercambiáveis. Por exemplo, é dito que “o cavalheiro é livre de preocupações e medos” (XII.4), enquanto em outra passagem é do homem benevolente que se diz que não tem preocupações (IX.29, XIV.28). Como a benevolência é um conceito tão central, naturalmente espera-se que Confúcio tenha muito a dizer a respeito. Quanto a isso, as expectativas são cumpridas. Em nada menos do que seis ocasiões Confúcio respondeu perguntas diretas sobre benevolência, e, como Confúcio tinha o hábito de formular suas respostas levando em consideração as necessidades específicas da pessoa que fazia a pergunta, essas respostas, tomadas em conjunto, nos fornecem um quadro razoavelmente completo. O ponto essencial sobre a benevolência é encontrado na resposta de Confúcio para Chung-kung: Não imponha aos outros aquilo que você não deseja para si próprio. (XII.2) Essas palavras foram repetidas em outra ocasião. Tzu-kung perguntou: “Existe uma palavra que possa ser um guia de conduta durante toda a vida de alguém?”. O Mestre disse: “Talvez, a palavra shu. Não imponha aos outros aquilo que você não deseja para si próprio”. (XV.24) Considerando as duas frases conjuntamente, podemos ver que shu é parte da benevolência e, como tal, é de grande importância nos ensinamentos de Confúcio. Isso é confirmado por uma frase de Tseng Tzu. À observação do Mestre de que apenas um fio amarrava o seu caminho, Tseng Tzu acrescentou a explicação: “O caminho do Mestre consiste em chung e shu. Isso é tudo” (IV. 15). Há outra frase que é, na verdade, também sobre shu. Em resposta a uma pergunta de Tzu-kung, Confúcio disse: Mas, por outro lado, um homem benevolente ajuda os outros a firmarem sua atitude do mesmo modo que ele próprio deseja firmar a sua e conduz os outros a isso do mesmo modo que ele próprio deseja chegar lá. A capacidade de tomar o que está ao alcance da mão como parâmetro pode ser considerado o método da benevolência. (VI.30) Daí podemos ver que shu é o método de descobrir aquilo que os outros desejam ou não desejam que seja feito para eles. O método consiste em tomar a si mesmo – “aquilo que está ao alcance da mão” – como uma analogia e se perguntar sobre o que gostaríamos ou não, caso estivéssemos no lugar do outro. Shu, entretanto, não pode ser toda a benevolência, já que se trata apenas do método de aplicação. Tendo descoberto o que a outra pessoa desejaria ou não, fazer aquilo que pensamos que a pessoa desejaria ou evitar fazer à pessoa aquilo que acreditamos que ela não desejaria depende de algo mais do que o shu. Como o caminho do Mestre consiste de chung e shu, em chung temos o outro componente da benevolência. Chung é fazer o melhor de que alguém é capaz, é dar o melhor de si, e é por meio do chung que uma pessoa põe em prática aquilo que descobriu pelo método de shu. Tseng Tzu disse em outra ocasião, “Todos os dias, examino a mim mesmo sob três aspectos” e, desses, o primeiro é: “Naquilo que fiz pelo bem-estar do outro, falhei em ser chung?” (I.4). Outra vez, quando questionado sobre como um ministro deveria servir seu governante, a resposta de Confúcio foi a de que ele “deveria servir seu governante com chung” (III.19). Finalmente, também é dito que ao tratar com os outros uma pessoa deveria ser chung (XIII.19). Em todos esses casos, não resta absolutamente nenhuma dúvida de que chung significa “dar o melhor de si”. Outra resposta que Confúcio deu a uma pergunta sobre a benevolência foi “Ame seus semelhantes” (XII.22). Como ele não elaborou o pensamento, o significado não é muito claro. Mas felizmente ele usou essa frase novamente em duas outras ocasiões. Em I.5 ele disse: “Ao governar um reino com mil carruagens (...) evite gastos excessivos e ame os seus semelhantes; empregue o trabalho do povo apenas nas épocas certas”. Outra vez, o Mestre, segundo Tzuy u, disse: “o cavalheiro instruído no Caminho ama seus semelhantes e que os homens vulgares instruídos no Caminho são fáceis de serem comandados” (XVII.4). No primeiro caso, o amor pelo semelhante (jen) é contrastado com o emprego das pessoas comuns (min) nas estações corretas, enquanto no segundo caso o cavalheiro que ama seus semelhantes é contrastado com o homem vulgar que é fácil de ser comandado. Se lembrarmos que “homem vulgar” provavelmente não era a mesma coisa que “pessoa comum” ou “povo”, não podemos eliminar a possibilidade de que, quando Confúcio definiu benevolência em termos de amar o seu semelhante, ele não tinha em mente as pessoas comuns. Mesmo se for esse o caso, não é tão estranho quanto parece à primeira vista, e, para ver a questão em perspectiva, devemos primeiramente dar uma olhada nas bases do sistema moral de Confúcio. Confúcio tinha uma profunda admiração pelo duque de Chou, que, como regente dos primeiros anos do reino de seu jovem sobrinho, rei Ch’eng, foi o arquiteto do sistema feudal Chou, uns quinhentos anos antes da época de Confúcio. Abraço. Davi

quarta-feira, 26 de junho de 2024

AVISOS ÚTEIS PARA A VIDA ESPIRITUAL. Parte II

 

Cristianismo. Livro Imitação de Cristo. Por Tomás de Kempis (1380-1471). AVISOS ÚTEIS PARA A VIDA ESPIRITUAL. Parte II. 3. Os ensinamentos da Verdade. Feliz aquele a quem a própria Verdade ensina, não por meio de figuras e palavras, que passam, mas tal qual é. Nossa razão e nossos sentidos veem pouco e muitas vezes nos enganam. De que serve a sutil especulação sobre questões misteriosas e obscuras, de cuja importância não seremos arguidos no juízo de Deus? Grande loucura é descurarmos as coisas úteis e necessárias, entregando-nos, com avidez, às curiosas e nocivas. E verdade, temos olhos e não vemos. Que se nos dá dos gêneros e das espécies dos filósofos? Aquele a quem fala o Verbo Eterno se desembaraça de muitas questões. Desse único Verbo procedem todas as coisas, e todas o proclamam, e Ele é o “princípio que também nos fala” João 8,25. Sem ele, ninguém entende ou julga retamente. Aquele que tudo encontra na unidade, que tudo refere a esta unidade, e nela tudo vê, pode ter o coração firme e permanecer em paz no seio de Deus. Oh! Verdade que sois o mesmo Deus! Fazei-me uma coisa só convosco em caridade perpétua! Enfada-me, muitas vezes, ler e ouvir tantas coisas. Em vós se encontra tudo quanto quero e desejo! Calem-se todos os doutores, emudeçam as criaturas todas em vossa presença, falai-me Vós só. Quanto mais alguém se recolhe em si mesmo e se tornar simples de coração, tanto mais e maiores coisas entenderá sem esforço, porque do alto recebe a luz da inteligência. O espírito puro, singelo e constante não se distrai no meio de múltiplas ocupações porque faz tudo para honra de Deus, sem buscar em coisa alguma o seu próprio interesse. Que mais te embaraça e perturba, do que os teus imortificados afetos do coração? O homem bom e piedoso dispõe primeiro no seu interior as obras que há de fazer externamente. Assim elas não o arrastam aos desejos de uma inclinação viciosa, mas ele as submete ao arbítrio da reta razão. Que mais rude combate haverá do que procurar vencer-se a si mesmo? Este deverá ser o nosso maior empenho: vencermo-nos a nós mesmos, tornarmo-nos a cada dia mais fortes e fazer algum progresso no bem. Toda perfeição, nesta vida, traz consigo alguma imperfeição. Qualquer concepção de nossa mente anda mesclada de alguma sombra. O humilde conhecimento de você mesmo é caminho mais certo para Deus que as profundas pesquisas da ciência. Não é reprovável a ciência ou qualquer outro conhecimento das coisas, pois é boa em si ordenada por Deus. Sempre, porém, devemos preferir a boa consciência e a vida virtuosa. Muitos, porém, estudam mais para saber, que para bem viver, por isso, erram amiúde e pouco ou nenhum fruto colhem. Oh! Se se empregasse tanta diligência em extirpar vícios e implantar virtudes como em agitar questões, não haveria tantos males e escândalos no povo, nem tanta desordem nos mosteiros. Certamente, no dia do juízo não se nos perguntará o que lemos, mas o que fizemos. Nem quão bem temos falado, mas quão honestamente temos vivido. Diz-me onde estão agora todos aqueles mestres e doutores que bem conheceste quando ainda viviam e floresciam nas escolas? Já outros possuem as suas prebendas e talvez nem deles se lembrem. Quando vivos pareciam alguma coisa, hoje deles nem se fala. Oh! Como passa depressa a glória do mundo! Oxalá a sua vida tenha correspondido à sua ciência, porque, destarte, terão lido e estudado com proveito. Quantos, neste mundo, descuidados do serviço de Deus, se perdem por uma ciência vã! “Esvaeceram em suas cogitações” Romanos 1,21 porque antes quiseram ser grandes que humildes. Verdadeiramente grande é aquele que tem grande caridade. Verdadeiramente grande é quem a seus olhos é pequeno e tem em nenhuma conta as maiores honras. Verdadeiramente prudente é quem considera “todas as coisas da terra como lodo, para ganhar a Cristo” Filipenses 3,8. E verdadeiramente sábio aquele que faz a vontade de Deus e renuncia à própria vontade. 4.A prudência nas ações. Não se deve dar crédito a qualquer palavra nem obedecer a todo impulso, mas pesar as coisas na presença de Deus com prudência e vagar. Infelizmente, tanta é a nossa fraqueza que, muitas vezes, aceitamos e dizemos dos outros, com mais facilidade, o mal que o bem! Os homens perfeitos, porém, não creem levianamente em tudo o que se lhes conta, pois conhecem a fraqueza humana, inclinada ao mal e leviana no falar. Grande sabedoria é o não agir com precipitação, nem tão pouco se aferrar ao próprio parecer. Sabedoria é ainda não crer sem discernimento em tudo o que dizem os homens, nem encher os ouvidos alheios do que ouvimos ou acreditamos. Aconselha-se com varão sábio e conscienciosos e procura antes instruir-te com quem é melhor do que tu que seguir tuas próprias ideias. A vida virtuosa faz o homem sábio diante de Deus e entendido em muitas coisas. Quanto mais o homem for humilde e submisso a Deus, tanto maior será a sua sabedoria e serenidade em todas as ações. 5.A leitura das Sagradas Escrituras. Nas Sagradas Escrituras – Bíblia, deve-se buscar a verdade e não a eloquência. Devemos lê-la com o mesmo espírito com que foram escritas. Nelas devemos buscar a utilidade e não a sutileza de linguagem. Devemos ler, com igual boa vontade, os livros simples e piedosos como os sublimes e profundos. Não te preocupes em saber se aquele que escreve é pessoa nomeada pela erudição. Seja apenas o amor à verdade que te leve a leitura. Considera o que diz o livro e não leves em conta quem o escreveu. Os homens passam, “mas a verdade do Senhor permanece eternamente” Salmos 116,2. Deus fala-nos de diversas maneiras, sem acepção de pessoas. Na leitura das Escrituras, prejudica-nos muitas nossas curiosidades, porque pretendemos compreender e discutir o que se devia passar singelamente. Se queres tirar proveito, lê com humildade, simplicidade e fé, sem aspirares à reputação de sábio. Interroga de boa vontade e ouve calado as palavras dos santos. Nem te desagrade das sentenças dos velhos, porque eles não falam sem razão. 6. As afeições desordenadas. Todas as vezes que o homem deseja alguma coisa desordenadamente, torna-se logo inquieto. O soberbo e o avarento nunca sossegam, entretanto, o pobre e o humilde de espírito vivem em muita paz. O homem que não é perfeitamente mortificado, facilmente é tentado e vencido, até em coisas pequenas e insignificantes. O fraco de espírito é ainda um pouco carnal e inclinado às coisas sensíveis, dificilmente pode se desapegar de todo dos desejos terrenos. E quando deles se priva, ordinariamente se entristece, e com facilidade se irrita se alguém o contradiz. Se, porém, alcança o que deseja, sente logo o remorso da consciência, porque obedeceu à sua paixão, que nada vale para alcançar a paz que almejava. Em resistir, pois, às paixões, se acha a verdadeira paz do coração, e não em segui-las. Não há, portanto, paz no coração do homem carnal, nem do homem entregue às coisas exteriores. Mas somente no daquele que é fervoroso e espiritual. Abraço. Davi

 

 

segunda-feira, 24 de junho de 2024

O CRISTIANISMO HOJE. Parte I

 

Islamismo. Livro Jesus um Profeta do Islã. Por Muhammad Ata Ur-Rahim. Capítulo VIII. O CRISTIANISMO DE HOJE. Parte I. Para podermos descobrir a natureza do cristianismo nos nossos dias, é necessário termos presente a distinção entre o conhecimento que nos chega através da observação, da dedução e o conhecimento que é revelado ao homem independentemente. O conhecimento dedutivo está em mudança permanente, de acordo com as novas experiências e observações, faltando-lhe, portanto, certeza, enquanto o conhecimento revelado provém de Deus. Ora, em cada mensagem revelada há sempre dois aspectos: o metafísico, que revela a natureza da Divina Unidade e o físico, que fornece um código de comportamento. Além disso, o conhecimento revelado foi sempre transmitido por alguém que deu corpo a uma mensagem, através do modo como a viveu e difundiu; portanto, comportar-se como o Mensageiro, corresponde a ter conhecimento da mensagem e é neste conhecimento que se encontra a certeza. Diz-se que o Cristianismo atual se baseia no conhecimento revelado, mas parte alguma da Bíblia contém a mensagem de Jesus intacta, exatamente como lhe foi revelada, pois não há, praticamente, quaisquer documentos sobre o modo como Jesus se comportou, além do que, os livros do Novo Testamento nem sequer contêm descrições feitas por testemunhas oculares acerca de suas ações ou daquilo que disse, pois foram escritos por pessoas a quem o conhecimento chegou de segunda mão. Assim, tais documentos não são completos, uma vez que, nada do que Jesus disse e fez ficou registrado, perdendo-se para sempre. Aqueles que investigam o que está contido no Novo Testamento afirmam que, mesmo incompleto, está pelo menos correto. No entanto, é significativo que todos os antigos manuscritos do Novo Testamento que sobreviveram e de que derivam todas as nossas traduções da Bíblia, foram escritos depois do Concílio de Niceia, ao passo que o Código Sinaiticus, o Código Vaticanos data do século IV e o Código Alexandrius do século V. Após o Concilio de Niceia, foram sistematicamente destruídas cerca de trezentas outras descrições da vida de Jesus, muitas das quais de testemunhas oculares. Aliás, os acontecimentos do Concílio de Niceia mostram que a Igreja de Paulo tinha todas as razões para alterar os quatro Evangelhos que sobreviveram. Torna-se claro, portanto, que os manuscritos do Novo Testamento, escritos depois do Concílio de Niceia, são diferentes dos que existiam antes do Concílio e torna-se, também, compreensível que alguns Pergaminhos do Mar Morto, que não se coadunavam com os manuscritos posteriores ao Concilio de Niceia, tenham sido escondidos. A própria Igreja parece admitir a falta de credibilidade dos Evangelhos, pois o pensamento do Cristianismo de nossos dias, nem sequer se baseia no que vem nos Evangelhos; a Igreja oficial fundamenta-se nas doutrinas do pecado original, da expiação e redenção, da Divindade de Jesus, da Divindade do Espírito Santo e da Trindade, nenhuma das quais aparece nos Evangelhos, nem foi ensinada por Jesus, pois são fruto das inovações de Paulo, da influência da cultura e da filosofia gregas. Paulo nunca acompanhou Jesus, nem teve conhecimento direto de seus ensinamentos. Antes de sua "conversão", perseguiu violentamente os seguidores de Jesus e, depois dela, foi ele o grande responsável por se terem abandonado as regras de vida que Jesus seguia, na ocasião em que levou o "Cristianismo" aos não-judeus da Grécia e a terras ainda mais distantes. A figura de "Cristo", que ele afirmava ter-lhe sido transmitido pela nova doutrina, é pura imaginação e os seus ensinamentos se fundamentam num acontecimento que nunca teve lugar — a suposta morte e ressurreição de Jesus. Apesar de terem uma origem duvidosa, estas doutrinas constituem parte integrante do condicionamento de todos aqueles a quem é dada uma "Educação Cristã" e, embora muitos tenham rejeitado parte dela ou a tenham mesmo rejeitado na integra, a magia que essas doutrinas exercem é tal, que aqueles que lhe dão alguma credibilidade são levados, pela sua lógica, a acreditar no princípio muito difundido de que: «Fora da Igreja não há salvação». A idealização metafísica da Igreja é a seguinte: A doutrina da expiação e redenção afirma que Cristo, que pertencia a Deus, recebeu uma forma humana e se transformou em Jesus, o qual veio a morrer a fim de expiar todos os pecados da humanidade. A Igreja garante o perdão dos pecados e a salvação no "Dia do Juízo Final" a todos aqueles que crêem em "Cristo" e seguem os seus ensinamentos. Mais ainda, acredita-se que este contrato está à disposição de todas as pessoas, até ao fim do mundo. As consequências naturais dessa crença são as seguintes. Em primeiro lugar, o pressuposto de que homem não é responsável por suas ações, nem terá que prestar conta delas depois de sua morte, pois, tenha ele feito o que quer que seja, acredita que vai ser redimido pelo "sacrifício de Cristo". No entanto, isto não significa uma vida de alegria na terra, na medida em que a sua crença na doutrina do pecado original — segundo a qual, devido À falta que Adão cometeu, todos os homens nascem em estado de pecado — significa que, enquanto estiver vivo, a sua condição é de indignidade e imperfeição. Esta visão trágica da vida está refletida na seguinte declaração do cristão J. G. Voss, quando compara o Islamismo com o cristianismo: “Não existe nada no Islamismo que leve um homem a dizer: "Oh, que homem malvado eu sou! Quem libertará o meu corpo desse destino mortal"? ou "Eu sei que em mim, isto é, na minha carne não mora boa coisa". Uma religião com objetivos razoáveis e realizáveis... não dá ao pecador a angústia duma consciência pesada, nem a frustração de, através da vida prática, tentar atingir, sem sucesso, as exigências de um padrão moral absoluto. Em poucas palavras, o Islamismo faz com que o homem se sinta bem, enquanto o Cristianismo, desde o início e pelos séculos fora, tem feito com que o homem se sinta mal. A religião que despedaça o coração é o Cristianismo, não o Islamismo». Em segundo lugar, a crença na doutrina da expiação e redenção dá origem a uma grande confusão, sempre que um cristão tenta conciliar os outros ensinamentos que Deus revelou ao homem com a sua própria crença, pois pressupõe que o "sacrifício de Cristo" e a sua "mensagem" são únicos e definitivos e, portanto, não pode aceitar os ensinamentos de outros Profetas, ao mesmo tempo que não pode negar a verdade que eles revelam. Desta forma, um cristão rejeita o judaísmo, mas aceita o Antigo Testamento que provém dos ensinamentos que Moisés legou aos judeus, colocando-se assim na posição impossível de ter que aceitar duas crenças que se contradizem, como mostra a seguinte passagem: «Existem elementos relativamente bons nas crenças não-cristãs. Embora a Bíblia faça vários apelos para que nos afastemos das falsas religiões e as Escrituras falem do caráter demoníaco das crenças pagãs... a verdade, é que se encontram elementos relativamente bons nessas religiões. Embora seja verdade que têm caráter demoníaco, é igualmente verdade (e vem nas Escrituras) que elas são um produto das falsas interpretações que o homem faz, relativamente à revelação de Deus na natureza. Apesar de poderem ser obra do diabo, mesmo assim, não são, apenas, obra do diabo, pois em parte são um produto da graça comum a Deus e, em parte, são um produto dos abusos do homem pecador em relação à revelação de Deus na natureza. É significativo que J. G. Vos não tenha mencionado as distorções que a Bíblia já sofreu. Numa tentativa de evitar o dilema da simultânea aceitação e rejeição das crenças não-cristãs, há quem defenda que alguns cristãos “separam neles a influência do 'Cristo cósmico' que, como Logos eterno e revelador da vontade de Deus, 'é a luz que ilumina todos os homens'”. Esta opinião... foi resumida por William Temple (1881-1944), quando escreveu o seguinte: «Através da palavra de Deus — que é o mesmo que dizer, de Jesus Cristo — Isaias, Platão, Zoroastro, Buda e Confúcio proferiram e escreveram algumas verdades, tal como eles declararam. Há uma única Luz Divina e cada homem, à sua medida, é iluminado por ela». O raciocínio dessa passagem se baseia no pressuposto de que "uma Luz Divina" e "Cristo" são a mesma coisa. Ora uma vez que "Cristo" é um fruto da imaginação, a doutrina falha, logo, o dilema permanece e apenas poderá ser resolvido recorrendo ao "pensamento duplo" de George Orwell (1903-1950), assim definido pelo próprio: «O "pensamento duplo" significa que é possível manter simultaneamente duas crenças contraditórias, aceitando ambas. A inteligência sabe que brinca com a realidade, mas através do exercício do "pensamento duplo" também se persuade de que a realidade não é violentada». O "pensamento duplo" está na base do pressuposto de que Cristo é Deus, em torno do qual se propaga, com toda a intensidade, a controvérsia acerca das duas naturezas de Jesus. Num momento é humano e no momento seguinte é Divino; primeiro é Jesus, depois é Cristo. Só através do exercício do "pensamento duplo" o homem pode aceitar, simultaneamente, essas duas crenças contraditórias, assim como manter a doutrina da Trindade. O Artigo VII dos Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra começam assim: «O Antigo Testamento não é contrário ao Novo ...». Como Milton já demonstrara com toda a clareza, o Antigo Testamento está cheio de passagens afirmando a Unicidade de Deus, sem que qualquer delas descreva a Realidade Divina nos termos da doutrina da Trindade. O fato de se afirmar o que está no Antigo Testamento ou nos Evangelhos e, ao mesmo tempo, defender-se a crença na doutrina da Trindade é, talvez, a melhor demonstração do exercício do "pensamento duplo" no cristianismo de hoje. Dessa forma, a lógica do pensamento da Igreja, na medida em que se baseia em doutrinas que nunca foram ensinadas por Jesus, obscurece não só a natureza de Jesus, mas também a Unidade Divina. Atualmente, a metafísica do Cristianismo é totalmente oposta à que Jesus trouxe. O seu aspecto físico, o seu comportamento, estão irrecuperavelmente perdidos. Viver como Jesus viveu significa, apenas, compreender sua mensagem, pois, praticamente, não há quaisquer documentos sobre a maneira como Jesus viveu e o pouco que existe é ignorado. O ato mais importante e fundamental de Jesus foi o da adoração do Criador, propósito para o qual o homem foi criado. No entanto, é evidente que nenhum cristão pratica os mesmos atos de adoração de Jesus, que todos os dias rezava habitualmente na sinagoga, a horas fixas, de manhã, ao meio do dia e à noite. Já não se conhecem exatamente as orações que Jesus rezou, então, mas sabe-se que se baseavam nas orações que foram dadas a Moisés. Jesus disse que tinha vindo para fazer cumprir a Lei e não para destruí-la, nem na menor fração, educaram-no, desde os onze anos, numa sinagoga que costumava limpar, em Jerusalém. Hoje, nenhum cristão executa essas tarefas. Além disso, quantos cristãos foram circuncidados tal como Jesus? Os serviços religiosos das Igrejas atuais foram criados muito depois de Jesus ter desaparecido e muitos deles descendem mesmo dos rituais mitológicos greco-romanos. As orações que rezam não são as que Jesus orou e os hinos que cantam não são os louvores que Jesus entoou a Deus. Devido a estas inovações de Paulo e de seus seguidores, já não há qualquer ensinamento quanto ao que se deve comer e não comer. Hoje, qualquer pessoa a quem tenha sido dada uma "educação cristã" come aquilo que lhe apetece, embora Jesus e os seus verdadeiros seguidores apenas comessem carne limpa, segundo a lei judaica, estivessem proibidos de comer carne de porco. Pensa-se que a última refeição que Jesus tomou, antes do seu desaparecimento, foi a Ceia. Nenhum cristão, hoje em dia, celebra essa velha tradição judaica que Jesus cumpria tão meticulosamente. Já não se sabe de que maneira Jesus comia e bebia, com quem comeria, onde comeria, quando comeria e não comeria. Jesus jejuava, mas, de novo, não se sabe como, onde ou quando o fazia. A sua ciência do jejum se perdeu. Não há qualquer referência aos alimentos de que ele pudesse, especialmente, gostar. Jesus não se casou enquanto viveu na terra, mas não proibiu o casamento. Não há qualquer passagem na Bíblia indicando que um seguidor de Jesus tenha que ser celibatário, nem qualquer mandamento no sentido da criação de comunidades de um só sexo como os mosteiros ou os conventos, embora essas possam ter sido originadas em comunidades como as dos Essênios. Abraço. Davi

 

sexta-feira, 21 de junho de 2024

OS ANALECTOS - LIVRO i

 

Confucionismo. www.https//rt.br. OS ANALECTOS – LIVRO I. 1. O Mestre disse: “Não é um prazer, uma vez que se aprendeu algo, colocá-lo em prática nas horas certas? Não é uma alegria ter amigos que vêm de longe? Não é cavalheiresco não se ofender quando os outros falham em apreciar suas habilidades”? 2. Yu Tzu [22] disse: “É raro um homem que é bom como filho e obediente como jovem ter a inclinação de transgredir contra seus superiores; não se sabe de alguém que, não tendo tal tendência, tenha iniciado uma rebelião. O cavalheiro dedica seus esforços às raízes, pois, uma vez que as raízes estão estabelecidas, o Caminho daí brotará. Ser um filho bom e um jovem obediente é, talvez, a raiz do caráter de um homem”. 3. O Mestre disse: “É raro, de fato, que um homem com palavras ardilosas e um rosto bajulador seja benevolente”. 4. Tseng Tzu disse: “Todos os dias, examino a mim mesmo sob três aspectos. Naquilo que fiz pelo bem-estar do outro, falhei em fazer o meu melhor? Ao tratar com meus amigos, falhei em ser fiel às minhas palavras? Ensinei aos outros algo que eu próprio não tenha experimentado?”. 5. O Mestre disse: “Ao governar um reino com mil carruagens, trate dos negócios com reverência e seja coerente com aquilo que fala; evite gastos excessivos e ame os seus semelhantes; empregue o trabalho do povo apenas nas épocas certas”. 6. O Mestre disse: “Um rapaz deveria ser um bom filho em casa e um jovem obediente fora de casa, parcimonioso com a fala, mas coerente com o que diz, e deveria amar todo o povo, mas cultivar a amizade dos seus semelhantes. [23] Se lhe sobrar alguma energia dessas ações, que ele a dedique a tornar-se um homem culto”. 7. Tzu-hsia disse: “Eu diria que recebeu instrução aquele que aprecia homens de excelência enquanto outros homens apreciam belas mulheres; que se dedica ao máximo servir os seus pais e oferece a sua pessoa a serviço do seu senhor: e que, nas relações com seus amigos, é coerente àquilo que diz, mesmo que afirme que nunca recebeu educação”. 8. O Mestre disse: “Um homem a quem falta seriedade não inspira admiração. Um cavalheiro que estuda não costuma ser inflexível. “Estabeleça [24] como princípio fazer o melhor pelos outros e ser coerente com o que diz. Não aceite como amigo ninguém que não seja tão bom quanto você. “Quando cometer um erro, não tenha medo de corrigi-lo.” 9. Tseng Tzu disse: “Conduza os funerais dos seus pais com esmero e não deixe que sacrifícios aos seus remotos ancestrais sejam esquecidos, e a virtude do povo penderá para a perfeição”. 10. Tzu-ch’in perguntou a Tzu-kung: “Quando o Mestre chega em um reino, ele invariavelmente fica sabendo sobre o governo do lugar. Ele busca tais informações? Ou elas lhe são fornecidas?”. Tzu-kung disse: “O Mestre conquista-as sendo cordial, bom, respeitador, moderado e deferente. O modo com que o Mestre busca informação é, talvez, diferente do modo com que outros homens as buscam”. 11. O Mestre disse: “Observe o que um homem, enquanto seu pai está vivo, planeja fazer e então observe o que ele faz quando seu pai falece. Se, durante três anos, ele não se desviar do caminho do pai, ele pode ser chamado de um bom filho”. [25] 12. Yu Tzu disse: “Das coisas proporcionadas pelos ritos, a harmonia é a mais valiosa. Dos Caminhos dos antigos reis, este é o mais belo e é seguido igualmente em questões grandes ou pequenas, embora nem sempre funcione: buscar sempre a harmonia sem regulá-la pelos ritos, simplesmente pela harmonia, na verdade não funcionará”. 13. Yu Tzu disse: “Ser coerente com as próprias palavras é ter moral, no sentido de que isso faz com que as palavras dessa pessoa possam ser repetidas. [26]. Ser respeitoso, significa ser observador dos ritos, no sentido de que isso possibilita que se fique longe da desgraça e do insulto. Se, ao promover as boas relações com parentes da sua esposa, um homem consegue não perder a boa vontade de seus próprios parentes, então ele merece ser considerado o chefe do clã”. [27] 14. O Mestre disse: “O cavalheiro não almeja nem uma barriga cheia nem uma casa confortável. Ele é rápido na ação, mas, cauteloso com o que diz. [28] Ele se dirige a homens virtuosos para receber orientação. Tal homem pode ser descrito como alguém ávido por aprender”. 15. Tzu-kung disse: “‘Pobre sem ser servil, rico sem ser arrogante’. O que o senhor pensa desse provérbio”? O Mestre disse: “É bom, mas melhor ainda é: ‘Pobre, mas alegre no Caminho; rico, porém observador dos ritos’”. Tzu-kung disse: “As Odes dizem cortado como osso, polido como chifre Esculpido como jade, moído como pedra. O que o senhor disse não é um caso semelhante”? 16. O Mestre disse: “Ssu, apenas com um homem como você pode outro homem discutir as Odes. Diga algo a este homem, e ele poderá ver sua relevância em relação ao que não foi dito”. Não é quando os outros falham em apreciar as suas habilidades que você deveria ficar incomodado, mas, antes, quando você falha em apreciar as habilidades dos outros. www.https//rt.br. Abraço. Davi

quarta-feira, 19 de junho de 2024

PLURALISMO RELIGIOSO

 

Budismo. Escrito por Tenzin Gyatso (1935 -), o Dalai Lama. Livro a Vida de Compaixão. PLURALISMO RELIGIOSOS.  A não ser que conheçamos o valor de outras tradições religiosas, é difícil desenvolver respeito por elas. O respeito mútuo é a base da verdadeira harmonia. Devemos ansiar por um espírito de harmonia, não por motivos políticos ou econômicos, mas simplesmente por percebermos o valor de outras tradições. Sempre me esforço para promover a harmonia religiosa. Usar a fé religiosa para promover valores humanos básicos é algo muito positivo. Todas as principais religiões do mundo pregam o amor, a compaixão e o perdão. Cada tradição religiosa promove esses valores de maneira diferente, é claro, mas, já que todas têm mais ou menos os mesmos objetivos – ter uma vida mais feliz, tornar-se uma pessoa mais compassiva e criar um mundo mais compassivo – seus métodos diferentes não representam um problema insuperável. A conquista fundamental do amor, da compaixão e do perdão, é o que importa. Todas as principais religiões do mundo têm o mesmo potencial para ajudar a humanidade. Algumas pessoas têm uma disposição que se adapta à fé religiosa, e por causa da variedade de disposições entre os seres humanos é lógico que precisamos de religiões diferentes. A variedade é benéfica. Gostaria de abordar o tema da harmonia religiosa definindo dois níveis de espiritualidade. O primeiro nível de espiritualidade: Fé e tolerância. Para todos os seres humanos em todos os lugares, o primeiro nível de espiritualidade é a fé. Isso é verdade para cada uma das grandes religiões mundiais. Acredito que cada uma dessas religiões tenha seu próprio papel importante, mas, para que possam dar uma contribuição significativa em benefício da humanidade, dois fatores importantes devem ser considerados. O primeiro desses fatores é que os praticantes individuais das diversas religiões – ou seja, nós mesmos – devemos praticar com sinceridade. Os ensinamentos religiosos devem ser parte integrante de nossas vidas, não devem ser separados de nossas vidas. Às vezes entramos em uma igreja ou templo e fazemos uma prece ou geramos algum tipo de sentimento espiritual, e depois, quando saímos da igreja ou do templo, nada resta desse sentimento religioso. Essa não é a maneira correta de praticar. A mensagem religiosa deve estar conosco onde quer que estejamos. Os ensinamentos de nossa religião devem estar presentes em nossas vidas para que, quando realmente precisarmos de bênção ou de força interior; esses ensinamentos e os seus efeitos estejam à nossa disposição. Eles estarão ali quando tivermos dificuldades porque estão constantemente presentes. A religião só poderá ser realmente eficaz quando integrar-se em nossas vidas. Precisamos conhecer esses ensinamentos não apenas em um nível intelectual, mas também por meio de nossa experiência mais profunda. Algumas vezes compreendemos diversas ideias religiosas em um nível superficial demais ou intelectual. Sem um sentimento mais profundo, a eficácia da religião torna-se limitada. Portanto, devemos praticar com sinceridade e integrar nossa religião a nossas vidas. O segundo fator trata mais da interação entre as diversas religiões mundiais. Hoje em dia, devida à mudança tecnológica cada vez maior e à natureza da economia mundial, somos mais dependentes do que nunca uns dos outros. Países diferentes, continentes diferentes desenvolveram uma relação mais estreita uns com os outros. Na realidade, a sobrevivência de uma região do mundo depende da sobrevivência das demais. Portanto, o mundo tornou-se muito mais próximo, muito mais interdependente. O resultado disso é que há muito mais interação humana em uma escala maior. Devido a essas circunstâncias, a aceitação do pluralismo entre as religiões mundiais é muito importante. Antigamente, quando as comunidade viviam umas separadas das outras e as religiões surgiam em relativo isolamento, a ideia de que havia apenas uma religião possível era muito útil. Mas agora a situação mudou, e as circunstâncias são inteiramente diferentes. Portanto, agora é crucial aceitar o fato de que religiões diferentes existem e de que, para desenvolver um respeito mútuo genuíno entre elas, o contato estreito entre as diversas religiões é essencial. Esse é o segundo fator que permitirá às religiões do mundo beneficiarem a humanidade de forma significativa. Quando eu morava no Tibete, não tinha contato com pessoas de outras religiões que não o budismo, e assim minha atitude em relação às outras religiões não era muito positiva. Entretanto, quando tive a oportunidade de conhecer pessoas de fé diferente e de aprender com os contatos pessoais e com a experiência, minha atitude em relação às outras religiões mudou. Percebi como as outras religiões são úteis para a humanidade e qual o potencial de cada uma delas para contribuir para um mundo melhor. Nos últimos séculos, as diversas religiões têm dado contribuições maravilhosas para o progresso dos seres humanos, e mesmo hoje há grandes números de seguidores que se beneficiam da Cristianismo, do Islamismo, do Judaísmo, do Budismo, do Hinduismo, e assim por diante. Para dar um exemplo do valor de encontrar pessoas de fé diferentes: meus encontros com o falecido Thomas Merton (1915-1968) mostraram-me a pessoa bonita e maravilhosa que ele era e me proporcionaram uma compreensão em primeira mão do potencial espiritual da fé cristã. Em outra ocasião, conheci um monge católico em Montserrat (maciço rochosos na região da Catalunha na Espanha), um dos famosos monastérios espanhóis. Fiquei sabendo que esse monge vivera por muitos anos como eremita em uma colina logo atrás do monastério. Quando o visitei no monastério, ele desceu de sua ermida especialmente para me encontrar. Acontece que seu inglês era ainda pior do que o meu, e isso me deu mais coragem para falar com ele! Ficamos frente a frente e perguntei: “Durante esses anos, o que você ficou fazendo naquela colina? “ Ele olhou para mim e respondeu: “Meditando sobre a compaixão, sobre o amor”. Enquanto ele dizia essas poucas palavras, entendi a mensagem através de seus olhos. Realmente desenvolvi uma admiração genuína por essa pessoa e por outros como ele. Essas experiências ajudaram a confirmar em minha mente que todas as religiões do mundo têm o potencial para produzir pessoas boas, apesar de suas diferenças de filosofias e de doutrina. Cada tradição religiosa tem sua própria mensagem maravilhosa a transmitir. O que quero enfatizar aqui é que, para as pessoas que seguem ensinamentos nos quais a fé básica é em um criador – em Deus – essa abordagem é muito eficaz para elas. Os Cristãos, por exemplo, não acreditam em renascimento e assim não aceitam a crença em vidas passadas ou futuras. Eles só aceitam esta vida. No entanto, acreditam que esta mesma vida seja criada por Deus, e essa ideia causa neles um sentimento de intimidade com Deus e uma dependência em relação a DEUS. A consequência disso é o ensinamento de que devemos amar nossos semelhantes. O raciocínio é que, se amamos Deus, devemos amar nossos semelhantes porque eles, assim como nós, foram criados por Deus. Seu futuro, assim como o nosso, depende do Criador; portanto, sua situação é igual à nossa. Consequentemente, é questionável a fé das pessoas que dizem aos outros para amar a Deus, mas elas próprias não demonstram amor genuíno para com os seres humanos, seus semelhantes. A pessoa que acredita em Deus e no amor por Deus deve demonstrar a sinceridade desse amor dirigindo-o a outros seres humanos, seus semelhantes. Essa abordagem é muito poderosa, não? Assim, se examinarmos cada religião sob diversos ângulos da mesma maneira – não simplesmente segundo nossa própria posição filosófica, mas segundo vários pontos de vista – não resta dúvida de que todas as principais religiões têm o potencial para melhorar os seres humanos. Isso é óbvio. Por meio do contato estreito com pessoas de outra fé é possível desenvolver uma atitude tolerante e um respeito mútuo com relação a outras religiões. O contato estreito com diferentes religiões me ajuda a aprender novas ideias, novas práticas e novos métodos ou técnicas que posso incorporar a minha própria prática. Do mesmo modo, alguns dos meus irmãos e irmãs Cristãos adotaram determinados métodos budistas – por exemplo, a prática de concentração da mente em um só ponto, assim como técnicas para ajudar a melhorar a tolerância, a compaixão e o amor. Existem grandes benefícios quando os praticantes de diversas religiões se juntam para esse tipo de intercâmbio. Além do desenvolvimento da harmonia entre eles, há outros benefícios também. Políticos e líderes nacionais falam com frequência de coexistência e de união. Por que nós, religiosos, não falamos isso também? Penso que chegou a hora. Por exemplo em Assis, na Itália, em 1987, líderes e representantes de várias religiões mundiais se encontraram para orar juntos, embora eu não tenha certeza de que oração seja exatamente a palavra adequada para descrever com exatidão a prática de todas essas religiões. De todo modo, o importante é que os representantes das várias religiões se reúnam em um lugar e, segundo suas próprias crenças, orem. Isso já está acontecendo e é, penso eu, um desenvolvimento muito positivo. Mesmo assim, ainda precisamos nos esforçar mais para desenvolver harmonia e proximidade entre as religiões do mundo, já que sem tal esforça continuaremos a ter os diversos problemas que dividem a humanidade. Se a religião fosse o único remédio para reduzir o conflito humano, mas esse próprio remédio se tornasse uma outra fonte de conflito, isso seria desastroso. Hoje, como no passado, conflitos ocorrem em nome da religião por causa de diferenças religiosas, e considero isso muito, muito triste. No entanto, se pensarmos de forma aberta e profunda, perceberemos que a situação de ontem era inteiramente diferente da atual. Não somos mais isolados, mas, pelo contrário, interdependentes. Portanto, hoje é muito importante perceber que uma relação estreita entre as religiões é essencial, para que diferentes grupos religiosos possam trabalhar e fazer um esforço conjunto para o benefício da humanidade. Assim, a sinceridade e a fé nas práticas religiosas, por um lado, e a tolerância e cooperação religiosa, por outro, formam esse primeiro nível do valor da prática espiritual para a humanidade. O segundo nível de espiritualidade: A Compaixão como religião universal. O segundo nível de espiritualidade é aquele que transcende as diferenças religiosas, o nível da compaixão e da afeição humanos. O segundo nível é mais importante do que o primeiro porque, por mais maravilhosa que seja uma religião, ela ainda só é aceita por um número muito limitado de pessoas. A maioria dos seis ou sete bilhões de seres humanos em nosso planeta provavelmente não pratica nenhuma religião. De acordo com sua origem familiar, eles podem se identificar como pertencentes a um ou outro grupo religioso – sou hindu, sou budista, sou cristã – mas, lá no fundo, a maioria desses indivíduos não é necessariamente praticante de nenhuma fé religiosa. Não há problema nisso; abraçar ou não uma religião é o direito de qualquer pessoa como indivíduo. Nenhum dos grandes mestres antigos como Budha, Mahavira, Jesus Cristo, Khrisna, Mashiyach e Muhammad conseguiu fazer toda a população humana se interessar pela espiritualidade. A verdade é que ninguém é capaz de fazer isso. Não importa que esses não crentes sejam chamados de ateus. De fato, segundo alguns estudiosos ocidentais, os budistas também são ateus, já que não aceitam um criador. Assim, algumas vezes acrescento mais uma palavra para descrever esses não crentes, a palavra extremos; chamo-os de não crentes extremos. Eles não só não são crentes, como também são extremos em sua visão de que a espiritualidade sob qualquer forma não tem valor. Entretanto, devemos lembrar que que essas pessoas também fazem parte da humanidade e que também, como todos os seres humanos, desejam ser felizes – ter uma vida feliz e pacífica. Esse é o ponto importante. Acredito que não haja problema em permanecer não crente, mas a partir do momento em que você faz parte da humanidade, a partir do momento em que é um ser humano, você precisa de afeição humanas, de compaixão humana. Esse é o ensinamento essencial de todas as tradições religiosas. Sem compaixão humana, até mesmo as crenças religiosas podem se tornar destrutivas. Assim, a prática essencial, seja você uma pessoa religiosa ou não, é um bom coração. Considero a afeição e a compaixão humanas a religião Universal. Quer seja crente ou não crente, todo mundo precisa de afeição e compaixão humanas, porque a compaixão nos dá força interior, esperança e paz mental. Assim, a compaixão é indispensável para todos. Como mencionei, alguns dos meus irmãos e irmãs cristãos, tanto monges quanto leigos, me disseram estar usando técnicas e métodos budistas para desenvolver sua compaixão e até mesmo sua fé cristã. Sempre digo a meus amigos ocidentais que é melhor tentar manter sua própria tradição. Mudar de religião não é fácil e às vezes causa confusão. Entretanto, os indivíduos que realmente sentirem que a abordagem budista é mais eficaz e se adapta melhor à sua disposição mental devem considerar a questão com cuidado. Uma vez que esteja inteiramente convencido de que o Budismo é certo para você, então está livre para segui-lo. O importante é lembrar o seguinte: às vezes as pessoas desenvolvem uma atitude crítica em relação a sua religião ou tradição anterior de modo a justificar sua mudança de fé. Você deve evitar isso. Sua antiga religião pode não ser mais eficaz para você, mas isso não significa que não seja útil para a humanidade. Por respeito aos pontos de vista e aos direitos das outras pessoas, assim como ao valor de suas traições, Você deve honrar usa antiga religião. É muito importante. Livro A Vida de Compaixão. Abraço. Davi.

segunda-feira, 17 de junho de 2024

LIVRE ARBÍTRIO X PECADO ORIGINAL. Parte II

 

Judaísmo. Livro Judaísmo e Cristianismo – As Diferenças. Por Trude Rosmarin (1908-1989). Capítulo III. LIVRE ARBÍTRIO X PECADO ORIGINAL. Parte II. E como resultado, o judaísmo inequivocamente ensina que o ser humano é absoluta e incondicionalmente livre em sua escolha ética de conduta. Ele não é nem justo nem perverso, mas sim, dotado para escolher qualquer caminho. O cristianismo, ao contrário do judaísmo, é baseado na doutrina do Pecado Original, a qual implica na crença da predestinação ética. Assim, enquanto o judaísmo faz da bênção rabínica “Deus meu! A alma que tu me deste é pura parte da oração diária”. O cristianismo, de acordo com a interpretação paulina, prega que todo ser humano é contaminado pela culpa de Adão e carrega o “pecado original”. De acordo com a crença cristã, o ser humano é arrastado para baixo, para a perdição do “pecado original” cuja carga é tão pesada que ele não se libera da compulsão através do seu próprio empenho ético. Com o intuito de se libertar do “pecado original”, um ato especial de “graça” é necessário, de acordo com a crença cristã. Esse ato da “graça” foi propiciado, de acordo com o cristianismo, através da imolação de Jesus como expiação pelos pecados da humanidade. Com consequência, o cristianismo não reconhece qualquer outra salvação ou redenção do pecado senão a crença em Jesus e que ele morreu na cruz do calvário, para expiar os pecados da humanidade. As diferenças entre as interpretações judaica e cristã de pecado agitou vários teólogos cristãos e estudiosos da Bíblia que, vinculados aos dogmas cristãos. Sustentam que a doutrina do Pecado Original é superior a crença judaica do livre-arbítrio e da pureza inata de toda alma. Essa diferença é geralmente enfatizada quando se compara os ensinamentos do “Velho Testamento” com aqueles contidos no “Novo Testamento”. Por isto, o falecido professor doutor Crawford Howell Toy (1836-1919) escreveu: “Devemos, portanto, considerar que o Velho Testamento não ensina que o pecado não é natureza, mas sim, uma tendência. É descrito como fraqueza, defeito, ímpeto violento, perversidade ou como cegueira e tolice.  É uma disposição ou inclinação que constantemente impele ou enfeitiça o homem a fazer o mal. Contudo, não se trata de uma total incapacidade de fazer o certo. É um inimigo sempre presente, vigilante, em alerta, porém não invencível, de modo que pode ser derrotado pelo próprio empenho do homem”. É com essa crença do “Velho Testamento” que a doutrina cristã de pecado é então comparada: “O cristianismo, entretanto, pela ênfase que dá a pecaminosidade do pecado, salientou com nitidez a debilidade moral da natureza humana e a necessidade da assistência e graça contínua de Deus. O apóstolo Paulo, sob a orientação de seu sistema, foi um passo além e formulou a doutrina da incapacidade natural do homem de praticar o bem. Na sua opinião, sob esse aspecto, o erro religioso fatal foi a crença da obediência a lei, como tábua de salvação. A incapacidade de obedecer para salvar veio a se alojar em sua mente devido a incapacidade de obedecer, e essa envolveu ou estava identificada com a incapacidade moral. Ele representa a carne – ou seja, a natureza humana normal – como absolutamente antagônica, no âmbito ético, ao espírito Divino. Sendo que, cada um desses elementos da vida, estimula desejos hostis com relação ao outro – sendo assim antagônicos. Aqui, outra diferença significativa entre judaísmo e cristianismo se torna aparente, qual seja a ênfase cristã no antagonismo entre o espírito e a “carne”. O cristianismo considera “a carne” como a sede do pecado original e, portanto, condena o corpo como o mal encarnado, oposto e hostil ao espírito. O judaísmo, entretanto, não constata antagonismo entre corpo e alma, mas proclama sua harmonia. Pois não é a “carne” que é má e pervertida, porém somente a condescendência desenfreada aos seus desejos. Consequentemente, o judaísmo não considera a mortificada e a “crucificação da carne” uma solução satisfatória do problema moral. Ao contrário, sustenta que moralidade e ética são inseparáveis da vida na carne e assim considera o cuidado e manutenção do corpo como dever religioso sagrado. Voltaremos ainda a esse assunto no capítulo V – Atitudes quanto ao Ascetismo. Por enquanto, podemos somente dizer que, juntamente com a doutrina do Pecado Original, o judaísmo também rejeita a ideia de que o corpo é inevitável e irrevogavelmente a fonte e causa da pecaminosidade. A crença judaica é que o corpo, bem como a alma, potencialmente puro. “Nada do corpo humano é impuro, todo ele é puro”. Como pressuposição e justificativa lógica para o sacerdócio e imolação de Jesus, a doutrina do Pecado Original é básica e central no cristianismo. É aceita como uma base por todas as correntes religiosa. Sustentam, que a queda de Adão transmitiu para todas as futuras gerações da humanidade, até a chegada do Reino, uma carga de culpa incontornável; a do pecado original. Essa carga é transmitida a todo ser humano no exato momento da fecundação. Não há escapatória do “pecado original” e nenhum mortal pode se libertar por seu próprio empenho, de acordo com a fé cristã. É somente através da “graça”, isto é, na crença que Deus deu “Seu único filho gerado” como um sacrifício pela culpa da humanidade, que o cristão vê a esperança de escapar da eterna perdição/condenação/maldição – a punição para o “pecado original”. O judaísmo não dá margem para qualquer semelhança com a doutrina cristã do “pecado original”. Sendo que, para um judeu, essa doutrina representa não somente a negação da religião, mas também a negação da possibilidade da ética. Ao defender o livre-arbítrio, o filósofo judeu medieval Josef Albo (1380-1444) enfatizou corretamente que o judaísmo se opõe a qualquer transgressão desse princípio. Não somente por considerações de caráter especificamente judaico, porém por esta visão ser errônea e antiética. Esclarecendo, os judeus não negam que o pecado exista, entretanto, eles se recusam a admitir que ele tenha de existir, como creem os cristãos. A Torá reconhece que existe a tentação, “mas se estás bem-disposto não jaz o pecado à porta, como animal acuado que te espreita”. Todavia, essa passagem memorável também enfatiza “podes acaso dominá-lo?” Gênesis 4,7. Assim, enquanto o cristianismo declara que o pecado domina o ser humano, o judaísmo declara que o ser humano domina o pecado. Essa então é a diferença entre judaísmo e cristianismo no que diz respeito a doutrina do pecado. O judaísmo ensina que Deus criou no ser humano a boa e a má inclinação, pois sem liberdade para pecar não existiria liberdade para agir com retidão. Por outro lado, todavia, não deve se permitir que a “inclinação pelo mal” se torne uma compulsão irresistível. Assim os rabinos ensinam que “deve se sempre estimular a inclinação para o bem em detrimento daquela para o mal”. Uma profusão de valiosos pronunciamentos talmúdicos e medievais, reiterados por pensadores e mestres judeus modernos, afirma que a inclinação pecaminosa e a tentação do pecado pode e deve ser controladas. Abraço. Davi.

 

sábado, 15 de junho de 2024

A DOUTRINA DA REENCARNAÇÃO NO CRISTIANISMO. Parte II

 

Teosofia. Editor do Mosaico. A DOUTRINA DA REENCARNAÇÃO NO CRISTIANISMO PRIMITIVO. Parte II. Os 3 volumes escritos por Orígenes disponível em português são: Sobre os Princípios, Exacta e Contra Celsius onde ele sustentava a doutrina da reencarnação, da preexistência da alma, da transmigração da alma e da apocatástase. Essa é a doutrina da redenção e salvação de todos os seres inclusive os que estavam no inferno. Orígenes pensava não haver um inferno eterno, mas sim um lugar de disciplina temporária e após esse estágio todos continuariam evoluindo para encontrarem o Logos Eterno. Lucas 15: 20-22 "E levantando-se foi para seu pai, e quando ainda estava longe viu o pai, e se moveu de íntima compaixão e correndo, lançou-se ao seu pescoço e o beijou”. Outro aspecto do ensino esotérico de Orígenes é que ele concebia a interpretação das Escrituras em três níveis. Primeiro o corpo, que era a nível superficial, aquele que as Escrituras dizem II Coríntios 3:6 "a letra mata", onde o observador cria doutrinas exclusivistas e dogmas absolutos misturados as crenças e superstições. Segundo a alma, um estado mais evoluído de decifrar o texto sagrado, mas ainda intermediário apenas nos primeiros estratos da epiderme espiritual, não se vislumbrando a aplicabilidade objetiva do enunciado proposto. Terceiro o espiritual, entrando na interpretação profunda e mística do texto sagrado. Nessa terceira fase se percebe que é necessário adentra o portal dos mistérios ocultos, Mateus 13:11 "a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus", para retirar das Escrituras sua simbologia e tipologia oculta que representa a essência daquilo que o Espírito deseja falar ao discípulo. O primeiro nível, é a literalidade exteriorizado por crenças e superstições. O segundo, é a conveniência para nosso próprio interesse e bem-estar. O terceiro, é a interpretação lógica, intuitiva e racional, compreendendo as alegorias e tipologias não como verdades, mas princípios e conceitos que podem ser usados em todas as religiões e espiritualidade. Nesse terceiro nível há mistérios que somente os iniciados místicos, cabalistas, sufistas, gnósticos e espiritualistas tem acesso, pois fogem ao senso comum da religiosidade. E alguns mistérios das Escrituras de todas as religiões estão velados não permitidos à revelação, apenas no momento oportuno. Lucas 15:21  “E o filho lhe disse: pai pequei contra o céu e perante ti, e já não sou digno de ser chamado seu filho". Numa vida não temos como pagar todo o nosso carma negativo, são necessárias outras vidas, para que o ajuste e reparação possam acontecer e continuarmos nosso processo evolutivo dentro das fases que distinguem nossos corpos energético, emocional e mental. Além dos sutis. O inferno eterno era relativizado por Orígenes em seus escritos quando ele usa a referência de Isaías 50: 11 "Eis que todos vós que acendeis fogo e vos cingis com faíscas, andai entre as labaredas dos vossos fogos, e entre as faíscas que acendestes. Isso vos ocorrerá pela minha mão e em tormentos morareis". Esse texto é claro, porque não há uma argumentação quanto a perenidade infernal, e em todo o Antigo Testamento segundo os melhores exegetas bíblico, não existe a ideia de um inferno eterno. Os judeus povo precursor desse sagrado testamento, acreditam na reencarnação, inclusive usando textos cabalístico de um famoso rabino Isaac Luria Arizal (1534-1572) para comprovar teologicamente essa doutrina. A editora judaica Sefer, com sede em São Paulo, Brasil, publicou o livro Portal das Reencarnações, escrito por Joseph Saitoun, tratando especificamente desse tema. Uma leitura recomendável aqueles que desejarem se aprofundar no assunto.  Orígenes era flexível quanto a interpretações de textos bíblicos onde se percebiam um juízo sumário e executório preferindo uma alegoria e metáfora representativa para fugir do dogmatismo, preconceito e crença cega. A interpretação neoplatônica da reencarnação foi ensinada pelos Pais da Igreja. Mateus 11: 11 "Em verdade em verdade vos digo que dentre os que de mulher têm nascidos, não apareceu alguém maior do que João Batista, mas aquele que é o menor no reino dos céus é maior do que ele". A reencarnação tem a premissa de voltar à vida para reparar ou compensar o aspecto negativo ou positivo do carma, continuando o processo evolutivo numa perspectiva de aprendizado, no âmbito negativo, para não incorrer nos mesmos erros em renascimentos posteriores. Esses estágios não estão restritos aos humanos, mas alcançam todos os reinos orgânicos evidenciados nos minerais, vegetais, animais e o mundo invisível. Dentro de suas restritas constituições de matérias e formas conscientemente primitivas e mais adiantadas. Podemos inferir um silogismo: A reencarnação contém a lei da ação e reação, carma, sendo que, para cada causa existe um efeito produzindo evolução para mérito ou demérito. Ocorrendo mérito, virtudes e beatitudes, tem como resultado o homem perfeito. Acontecendo demérito, vícios e pecados, retardamos o processo para ascender ao Logos Eterno. Mateus 5: 48 "Sede vós perfeitos, como é perfeito o vosso pai que está nos céus". Orígenes foi discípulo de Amônio Saccas (175-242) um mestre místico que viveu em Alexandria na primeira metade do século III e na época era corrente dizer-se que "Amônio o que aprendeu com Deus". Ele foi o fundador do sistema eclético, nascido de pais cristãos, mas renunciou à sua religião nativa e voltou-se à filosofia "pagã". Pelo fato de ter encontrado a Sabedoria Divina em seu próprio interior, foi chamado "Theodidaktos" ou ensinado por Deus. Todavia ele preferia o termo "Phialethes", ou amante da verdade. Seus discípulos eram também conhecidos como "Filaleteus". Não deixou escritos, ensinamentos orais e seus pupilos foram submetidos ao voto de segredo, como de costume nas Escolas de Mistério. Por conseguinte, ele fez uma distinta tentativa de beneficiar o mundo através do ensinamento daquelas partes da Ciência Secreta que lhe eram permitidas ser reveladas por seus guardiães diretos daqueles tempos.  Outro mestre que influenciou Orígenes foi Plotino (204-270) que dizia: "O Único, o Deus Supremo, é exaltado acima do Nous e das ideias. Ele está absolutamente acima da existência escapando a razão. Permanecendo sempre em repouso. Ele faz jorrar de Sua própria plenitude como um raio uma imagem de Si mesmo, chamada Nous e que forma o conjunto das ideias do mundo inteligível". Plotino foi discípulo direto de Amônio Saccas, com o qual permaneceu onze anos. O que Platão (428 AC 347) foi para Sócrates (469 AC 399), e o apóstolo João para Jesus, Plotino foi em relação a Amônio. Naqueles dias, Plotino, participou em uma expedição à Ásia na esperança de alcançar a Índia, mas não foi bem-sucedido. Seguiu a Roma, onde despendeu o resto de sua vida ensinando e escrevendo. Seu principal trabalho, as Enéadas, incorporam suas ideias teosóficas. Plotino combinou uma das maiores capacidades intelectuais com a profunda iluminação mística, e sua vida foi baseada na autodisciplina e purificação. Sua intensa aspiração espiritual resultou no êxtase, uma sublime condição de existência absorta na Vida Divina, o Samadhi da filosofia hindu. Seu discípulo Porfírio (234-305) relata que Plotino gozou tal experiência em seis ocasiões durante sua vida. Seus ensinamentos tiveram uma duradoura e profunda influência não somente no pensamento filosófico dos séculos posteriores, mas também na teologia cristã. A Igreja tomou sua seminal doutrina da Trindade dos escritos de Plotino. Helena Blavatsky (1831-1899) diz: "Tudo que é grande e nobre na teologia cristã provém do Neo platonismo". Orígenes teve um fim como de todos os mártires por suas ideias iluminadas que se opunham à crendice, fé cega e dogmatismo vigente na Igreja cristã dos primeiros séculos. Foi torturado física e psicologicamente e morto no ano de 254. O conceito de Teosofia ou Sabedoria Arcana foi pensado inicialmente em Alexandria no século III pelos dois mestres de Orígenes que citamos acima. Romanos 8: 28 "E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem aqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito". Abraço. Davi.

quinta-feira, 13 de junho de 2024

A DOUTRINA DA REENCARNAÇÃO NO CRISTIANISMO PRIMITIVO. Parte I

 

Teosofia. Editor do Mosaico. A DOUTRINA DA REENCARNAÇÃO NO CRISTIANISMO PRIMITIVO. Parte I. Esse texto é fruto de considerações que fiz assistindo a uma palestra na Sociedade Teosófica aqui em Brasília - Brasil. Você já pensou por que foi nascer no país em que atualmente mora? Por que constituiu a família que tem hoje ou que vive nela agora?  Em São João 9: 1-3 lemos "E passando Jesus viu um cego de nascença. E os seus discípulos lhe perguntaram, dizendo: Rabi, quem pecou, este eu seus pais para que nascesse cego? Jesus respondeu: nem ele pecou nem seus pais, mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus". Essa escritura bíblica é para introduzirmos alguns pressupostos da reencarnação, pois a primeira parte dele traz uma indicação de que o homem nasceu cego devido a uma anterior situação que não fora resolvida em sua encarnação passada. Se pensarmos logicamente perceberemos que não há injustiça em Deus, sendo ele justíssimo, por que a cegueira do homem? não tem sentido imaginar, que foi para que ele não visse o quanto o mundo é injusto, e muitas pessoas são egoístas havendo mais sofrimento que conforto. É razoável que exista coerência no sofrimento, pois do contrário perde-se o significado da vida e o porquê estamos vivendo nesse mundo. Sem respostas racionais ficamos presos aos conceitos dogmáticos e superstições dos céus e inferno eterno, pouco, para certezas quanto ao sentido da vida. Não vejo razão para duvidar da existência de Deus, pois o mundo não existe por acaso, e indubitavelmente uma inteligência superior anterior a tudo fê-lo surgir controlando e mantendo esse processo evolutivo cósmico. Quando observamos particularmente as pessoas, reconhecemos que para algumas as coisas são mais fáceis e para outras são difíceis, sendo isso uma evidência de que há um destino (determinismo) expresso por leis de fatos e causas, onde os primeiros resultam no segundo e nas mesmas condições à recíproca é verdadeira. Mas também o livre arbítrio – liberdade humana – é um ingrediente importante nesse sistema de desenvolvimento da vida e essa premissa foi postulada por Charles Darwin (1809-1882) "A evolução é o plano que particulariza a vida". Orígenes (182-254) de Alexandria considerado um dos Pais da Igreja defendeu em suas apologias a ideia da reencarnação. Ele se reunia com uma comunidade de cristãos primitivos tendo uma vida casta e piedosa, rigorosamente na observância dos preceitos de santidade e pureza. Sua erudição e inteligência acima do normal, o levou a escrever uma gigantesca obra que segundo fontes fidedignas incluíam mais de 3 mil volumes de próprio punho. Trocou correspondências com Clemente de Alexandria (150-215), Hipólito de Roma (199-217) e Irineu de Lyon (130-202) falando sobre o tema da transmigração da alma, reencarnação e a apocatástase. Orígenes conceituava a apocatástase - doutrina que representa a redenção e salvação final de todos os seres, inclusive os que habitam o inferno. Dedutivamente esse lugar para Orígenes não é eterno, mas transitório e temporário, sendo um evento posterior ao próprio Apocalipse. A apocatástase sintetizaria o poder do Logos ou Verbo Encarnado, ou seja, o próprio Cristo como poder redentor e salvador que não conheceria limite algum. Essa proposta levanta uma série de questões interessantes para o cristianismo. (1). Leva a supor que não há um único mundo criado, o que principia no Gênesis e finda no Apocalipse, como sugerido pelas Sagradas Escrituras. Ao contrário, em sua atividade criadora, Deus cria infinitamente uma sucessão de mundos visíveis e invisíveis, que só se esgotaria na apocatástase, quando todos os seres repousassem definitivamente em Deus. (2). Nesse contexto os demônios e o diabo caso aceitassem o seu próprio processo de expiação evolutiva, poderiam ser salvos em sucessivas encarnações nos mundos superiores invisíveis retornando a sua verdadeira origem que é Deus. (3). Orígenes com essa hipótese sugere que seja estabelecido uma distinção entre o Logos ou o Verbo e sua diferenciação como Cristo. Uma vez que Cristo é uma encarnação histórica neste mundo em particular, estaria aberta a possibilidade de outra encarnação futura do Logos ou Verbo. Suponho compatível com os textos sagrados cristãos, que falam de uma volta do Logos ou Verbo, contudo, permitem questionar a divindade de Cristo, dogma comum “absoluta verdade” no catolicismo e protestantismo. (4). Séculos após a morte de Orígenes também chamado de O Cristão, no segundo Concílio de Constantinopla no ano de 553, como veremos abaixo, os aspectos de sua doutrina que permitiriam subordinar a figura de Cristo ao Logos e ao Pai, sendo assim humano e não Deus. Rompendo também com o dogma da Santíssima Trindade, foram considerados errôneos nesse conclave de cardeais e arcebispo. Isso se deu sem nenhum procedimento teológico que mensurasse tão importante questão, fundamentando as possíveis contradições na tradição ou exegese bíblica. Segundo a verossimilhança de alguns estudiosos sobre esse tema da apocatástase, ela foi temerariamente combatida sem argumentos razoáveis que pudessem condená-la como “heresia”. Desde então o cristianismo se refere ao Apocalipse e não a apocatástase, mas até 553 os cristãos consideravam a salvação de todos os seres no juízo final como a infinita misericórdia e graça do Eterno Deus. As cartas trocadas por Orígenes com Clemente, Hipólito e Irineu, as originais, estão guardadas em alguns museus da Europa, segundo pesquisadores e investigadores da história da Igreja. Essas cartas são um capítulo à parte que envolvem a política dos interesses pessoais e eclesiásticos da Igreja Católica. Que manipulando-as impediu o ensino sobre a reencarnação nas comunidades primitivas e dioceses nos anos posteriores ao Concílio que aludimos. Pois segundo consta os originais que falam sobre esse assunto foram alterados por um certo padre chamado Rufino de Aquiléia (344-410); fato determinante no Concílio de Constantinopla II como uma suposta contraprova da autenticidade dos escritos de Orígenes sobre esse tema. A doutrina da reencarnação foi adotada como dogma pela Igreja até o século VI quando no referido Concílio em 553 a questão deveria ser revisada dando-se um parecer favorável ou desfavorável terminativo. O Imperador Romano do Oriente na época era Justiniano I (482-565) que indiretamente exercia a chefia oficial da Igreja Cristã Bizantina. O Papa Silvério I (480-557) por simpatizar com a doutrina da reencarnação, e não queremos assinar o edito para que ela fosse retirada da ortodoxia clerical foi destituído do cargo e condenado por traição, morrendo no exílio (deixado sem pão e nem água) por inanição. Justiniano I para referendar o Concílio de Constantinopla II (553) nomeou o Papa Virgílio (537-555) que desobedecendo a ordem do Imperador não compareceu à sessão do Concílio que decidiria o veto contra a doutrina da reencarnação. Assim o Papa Virgílio foi também deposto acusado de perjuro, o que jura falsamente. Exilado por 8 anos e de regresso à Roma morre ante de chegar à cidade. Assim o Colégio de Cardeais sem seu representante máximo decidira à revelia excluir dos dogmas oficiais da Igreja a doutrina da reencarnação em 5 de maio de 553. Esse é mais um triste capítulo da história do cristianismo que sob ameaças, intrigas e mortes aprovaram uma lei que convinha aos interesses pessoais de alguns Cardeais e do soberano que representava o Império Romano naqueles dias. Nada mais trivial e questionável como uma decisão desse tipo, sem critério e desprovida de uma análise séria e conscienciosa. Além do que a autoridade envolvida para referendar o edito era contra, sendo perseguido, humilhado e morto. Os interesses políticos, escusos e oportunistas foram os verdadeiros financiadores dessa fraude teológica. Mateus 5: 18 "Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til jamais passará da lei, sem que tudo seja cumprido". O ensino da reencarnação que tem pressupostos bíblicos foi desde então (553) retirado da ortodoxia oficial da Igreja Cristã. Falamos agora a pouco dos originais do livro alterado por Rufino, é a famosa obra De Príncipiis de Orígenes. A obra publicada em latim com tradução para o português pela editora católica Paulus, está desconforme nos pontos que tematizam a reencarnação da obra em grego com o título Peri Arcon traduzida para o inglês. Assim a versão Inglesa do original grego é a mais indicada para leitura, pois expressa o pensamento real do filósofo cristão do século II. Evidentemente não há interesse que o público cristão em geral, leia uma literatura de um dos pais da Igreja que defenda em suas postulações a transmigração de almas. Orígenes adotou a doutrina de Platão (428-347) quanto a reencarnação, que em seu livro A República diz: "Quanto a virtude a responsabilidade é de quem escolhe, Deus está isento disso. Você é que a estima ou despreza". Desse modo virtude e vício colhem alegria ou sofrimento, segundo Platão uma lei universal imutável. Como dito nas Escrituras em Gálatas 6:8 "Tudo o que o homem semear isso também ceifará". O pagamento é proporcional a dívida. Nossas dívidas, vícios e pecados, são finitas no tempo, sendo ilógico cobrar-se juros infinitos na danação inferno eterna. O que pensar de um Pai Deus que condena seus filhos a tortura eterna, como é dito em Marcos 9:43-47 "Se tua mão te escandalizar corta-a. Melhor é para ti entrares na vida aleijado do que, tendo duas mãos, ires para o inferno, para o fogo que nunca se apaga. onde o seu bicho não morre e o fogo nunca se apaga". Não sei o que dizer de um versículo tão estranho (terrível) e incompreensível racionalmente. Nos textos da República e nos diálogos Fédon e Menon, Platão também pensou a transmigração das almas, o qual Orígenes assume em suas apologias. As almas existem antes dos corpos. Assim anjos, demônios, homens e mulheres são numa visão geral, entidades que evoluíram, de mundos ou reinos inferiores como minerais, vegetais e animais. De acordo com seus méritos e deméritos no tempo em que singularizaram seus comportamentos e atitudes nos mundos visíveis e invisíveis em que existiram. Desse modo os anjos são aqueles que praticaram mais virtudes e beatitudes, os demônios exteriorizaram mais os vícios e pecados e os homens num estágio apressado em relação aos dois grupos, expiam (redimem) seus corpos para evoluírem ou regredirem conforme as práticas realizadas pelos pensamentos, palavras e atitudes. Nessa perspectiva a humanidade está em um processo de redenção individual, em que os vários mundos possibilitarão esse ajuste ou reparação de contas a pagar e a receber. Essa era também a visão dos Estoicos (século III AC) que afirmavam que todo o universo é corpóreo e governado por um Logos Divino, noção tomada de Heráclito (535 AC 475) de Éfeso. A alma está identificada com este princípio divino como parte de um todo ao qual pertence. Este Logos ou Razão Universal ordena todas as coisas. Tudo surge de acordo com Ele, graças a Ele o mundo é um cosmo que em grego significa harmonia. Dos Estoicos é passado a ideia de que os fins têm que ser igual ao começo. Da gigantesca obra de Orígenes infelizmente apenas 3 volumes resistiram as chamas que destruíram a famosa Biblioteca de Alexandria e seu museu em (415) pulverizando o acervo inestimável de milhares de pergaminhos e papiros que compreendiam a sabedoria humana e divina disponível para todos os interessados e iniciados nos mistérios menores e nos mistérios maiores da ciência oculta. A história credita esse incêndio aos autoritarismos do imperador romano Constantino II, em comum acordo com a Igreja, que no século V em Alexandria, no Egito, havia três comunidades que disputavam a hegemonia religiosa e política da cidade: os judeus, cristãos e pagãos. Os últimos incluíam os filósofos e conhecedores do saber humano, que a iniciativa e preservação da biblioteca fora-lhes conferida. Como o culto antropomórfico – atribui características humanas a divindade destes, causando inquietação nos demais grupos, judeus e cristãos, instalou-se uma querela. Resumindo, foi resolvida arbitrariamente pela igreja, expulsando os judeus e pagãos da cidade, e não contentes apenas com esse fato. Mandaram destruir a biblioteca de Alexandria queimando seu valioso e inestimável acervo (pergaminhos e papiros) bibliográfico. Abraço. Davi

 

terça-feira, 11 de junho de 2024

A MEDITAÇÃO SOBRE AS REALIDAES DO ALÉM

 

Islamismo. www.arresala.org.br. Por: Ahmed Ismail. A MEDITAÇÃO SOBRE AS REALIDADES DO ALÉM. Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso. A benção e a paz sobre o Nobre Mensageiro Mohammad e sobre sua purificada linhagem. Diz Allah, O Majestoso, no Alcorão: “É ELE (ALLAH) QUEM VOS DÁ VIDA E ENTÃO VOS FARÁ MORRER E EM SEGUIDA VOS RESTITUIRÁ A VIDA…” (22: 66). Em sua existência o ser humano tem sobre si o decreto de 4 fases: o útero, a vida terrena, a vida no Barzakh (pós-morte) e a vida no akhirah (eternidade). A vida terrena é como um tênue e curtíssimo fio suspenso na eternidade, e nesta limitadíssima extensão de tempo temos a oportunidade preciosa de despertar nossa consciência para a realidade maior, que não conhece limitação de tempo ou espaço, a qual se denomina AKHIRAH (eternidade). ALLAH, Exaltado Seja, dotou o humano das faculdades necessárias para a perfeita compreensão desta realidade. Enviou Profetas e Mensageiros revelando a Ciência Correta (Orientação Divina), para que a humanidade se guiasse sobre a realidade que está além dos sentidos. De fato, sem esta orientação correta, o homem permanece como alguém que esteja confinado num quarto escuro; que não consegue conceber a vastidão e a luz além dos limites das paredes que o cercam. Em tal condição de ignorância, o homem faz do seu quarto “o seu mundo”, concentrando sua atenção e suas expectativas apenas no que está ao alcance dos seus sentidos. Evidencia o Alcorão: “DISTINGUEM SOMENTE A APARENTE VIDA TERRENA; PORÉM ESTÃO ALHEIOS QUANTO A OUTRA VIDA.” (30; 7). Comumente vivemos segundo a interpretação de nossos sentidos e não nos percebemos do quanto isso é superficial. Não obstante, todos sabemos que é inevitável o confronto com uma realidade que transcende toda nossa compreensão: a morte. A perturbadora constatação que o homem é a única criatura que tem consciência de que morrerá cria nele uma constante inquietação. Por mais que se negue a raciocinar sobre sua existência, o homem convive com essa ameaçadora consciência da morte. Assim, desde os tempos mais remotos e em todas as sociedades humanas desenvolveu-se uma filosofia voltada a diversão, ao prazer e a ocupação mental para afastar essa perturbadora realidade. No mundo moderno adotou-se um estilo de vida voltado a satisfação constante dos sentidos e desenvolveu-se todo um conjunto de ideias que visam ocultar ou suavizar a inevitabilidade da morte. Uma curiosa característica que diferencia a sociedade moderna das sociedades tradicionais é que, a reverência e a ritualização da morte que cumpriam um papel de suavizar o sofrimento e estabelecer um laço comunitário, na sociedade moderna e individualista tendem a perder qualquer significado. Em seu dia a dia o homem moderno, ainda que cercado por todos os avanços tecnológicos de sua época confronta-se com a morte à sua volta e então choca-se, atemoriza-se por um instante para logo depois retornar a condição alienante, envolvido em seus planos, negócios, prazeres, viagens, programas de lazer para manhã ou para daqui um ano, como se a possibilidade da morte não existisse até que ele próprio se confronta com o inevitável. Diz o Altíssimo no Alcorão: “NÃO VOS DEMOS UMA VIDA LONGA PARA QUE QUEM DE VÓS QUISESSE REFLETIR PUDESSE FAZÊ-LO?…” (35: 37). Compreendemos que ainda que curta a existência terrena em comparação a eternidade, diante da percepção humana, esta vida constitui tempo perfeitamente hábil para que o homem reflita e busque a orientação divina. Antes que a morte chegue e com ela a trágica constatação da perda das oportunidades proporcionadas pela vida. Consta que o Mensageiro de Allah (saas) tenha dito: “A mais inteligente das pessoas é a que mais recorda sua morte” e também “Recordai a morte! Juro por aquele em cuja mão está minha vida que se soubésseis o que eu sei, certamente teríeis passado menos tempo a rir e mais tempo a chorar”. Diante da realidade maior que se descortina com a morte, o homem lamenta o tempo perdido nas ilusões, rivalidades, no acúmulo de bens e em todas as outras atividades próprias da vida terrena. Evidencia o Alcorão: “(DISSE XAITAN)… JURO QUE OS ALUCINAREI NA TERRA E OS COLOCAREI TODOS NO ERRO; SALVO DENTRE ELES OS TEUS SERVOS SINCEROS.” (15: 39 e 40). Este poder de sedução de Xaitan, abrilhanta para o homem tudo o que o afasta da senda divina, levando-o a se empenhar naquilo que o levará a ruína espiritual no AKHIRA (vida eterna), e a desprezar as ações que resultariam em sua bem-aventurança após a morte física. Entretanto, não há nenhum obstáculo intelectual ou prático entre o homem e a Orientação Divina. Consciência da realidade da morte não significa algum tipo de negação mórbida da vida. É comum ouvirmos o argumento de algumas pessoas carentes de entendimento que, acreditam que “viver” significa somente usufruir sem limites ou restrições e que, qualquer outro modo de pensar seria um cerceamento da liberdade individual. O Islam nos ensina que o usufruir dos benefícios da vida é necessário e que isto não significa transformarmos a existência numa contínua busca de prazer e diversão. A opinião dessas pessoas se baseia num erro fundamental: de que a vida não possui nenhum propósito. O Islam nos orienta a consciência de que a vida possui um alto propósito, e que este propósito pode ser compreendido por aqueles que acatam a Orientação Divina e que em outras palavras, adotam a Mensagem Divina como guia para sua vida. ALLAH promete sua proteção aos que se apegam firmemente a orientação divina e se empenham sinceramente nesta senda, livrando-os das trevas da ignorância e guiando-os para a luz, assim evidencia o ALCORÃO: “ALLAH É O PROTETOR DOS FIÉIS; É QUEM OS RETIRA DAS TREVAS E OS CONDUZ PARA A LUZ; AO CONTRÁRIO, OS INCRÉDULOS, CUJOS PROTETORES SÃO OS SEDUTORES QUE OS ARRASTAM DA LUZ, LEVANDO-OS PARA AS TREVAS, SERÃO CONDENADOS AO INFERNO ONDE PERMANECERÃO ETERNAMENTE.” (2: 257). É esta condição fundamental da vida terrena de oportunidade de escolha que a torna preciosa. A todo momento de nossa vida temos diante de nós a senda correta e os muitos caminhos da perdição espiritual e a despeito de todos os fatores externos a decisão final sobre nossas ações pertence a nós mesmos. Disse o Mensageiro de Allah (saas): “Não há uma só noite em que o anjo da morte não chame os mortos nos túmulos e pergunta-lhes o que lamentam hoje quando vêem vivamente e conhecem o além. Então dizem os mortos: “Nós lamentamos e invejamos os que crêem, que estão nas mesquitas a orar enquanto nós não, estão a conceder Zakat enquanto nós não, estão a jejuar durante o Ramada enquanto nós não, estão a doar em caridade o que excede as necessidades de suas famílias, enquanto nós não o fazemos”. Este Hadíth demonstra a real escala de valores pela qual nossa vida neste mundo será pesada e é esta escala que se tornará evidente para a pessoa, quando as ilusões materiais chegarem ao fim com a morte física. Imam Ali (as) em um dos seus sermões disse: “Lembrai: vosso hoje pode ser o único tempo que terás para esperar, anelar e trabalhar e depois de hoje pode haver o grande vazio da morte, quem quer que obre durante este período de espera, a morte não lhe causará dano. Lembrai, quem não se beneficia do Din cai presa fácil de Xaitan e quem a orientação não pode conduzi-lo ao caminho reto termina em calamidade e em destruição. Lembrai que está decretado que a vida siga e a vós se aconselha que obreis para o mundo vindouro com pensamentos corretos e obras piedosas”. Portanto, o benefício do Din está ao alcance dos que meditam sobre suas ações, o mundo que o cerca e, sobretudo, quanto as palavras de Allah no Alcorão, luz para a compreensão das questões desse mundo e do além; e esta compreensão é de grande valia para a ação correta e o aperfeiçoamento da fé. Imam Mussa Ibn Jáfar (as) disse: “Quem não se examina e julga a si mesmo a cada dia, não é um dos nossos”. Este princípio moral preserva o homem de muitas das ilusões engendradas por Xaitan e verdadeiramente aquele que JULGA A SI MESMO e que se auto-repreende encontra o caminho para as boas ações. O incremento disso é a compreensão correta da verdadeira escala de valores que devemos adotar em nossa vida. No decorrer de nossa curta passagem neste mundo somos ensinados a adotar os mais diversos padrões e escalas de valores originados das crenças e idéias humanas, alguns dizem-nos que o conforto e a riqueza são os mais elevados valores da vida, outros que a cultura e a erudição representam esses valores, e muitas outras escalas de valores nos são ensinadas. Entretanto poucos de nós questionamos sobre qual seria a escala de valores que ALLAH Exaltado Seja, teria estabelecido quanto a nossa vida e nossas ações. Não obstante a nossa razão nos diga que com a morte nossas escalas de valores também morrem. Mesmo o mais materialista dos homens aceita a verdade de que a morte iguala a todos e anula as distinções forjadas pelo homem. Ainda que a estupidez humana tenha criado diferenças que são carregadas até o túmulo, todos somos forçados a concordar que todas as pretensões e convenções humanas terminam aí. A escala de valores de ALLAH, a qual transcende a morte e vigora na eternidade difere absolutamente de todos os padrões humanos de julgar a vida. Essa escala não exige do homem uma total renúncia da vida material como muitos insensatos preconizam, longe disso, essa escala exige que o homem cumpra suas obrigações mundanas, busque o ganho de vida lícito, que viva neste mundo e que satisfaça suas necessidades lícitas, apenas que não faça de tudo isso o Objetivo último de sua existência, que não tenha o bem estar mundano como uma única e exclusiva meta. O Islam nos ensina que o adotar o bem-estar mundano como objetivo último da existência, negligenciando a Realidade Maior da eternidade é um estado de absoluta ignorância, e aqueles que adotam tal modo de viver e pensar são os que provam o pior destino quando o inevitável os alcança.Evidencia o Alcorão: “AQUELES QUE NÃO CRÊEM NA OUTRA VIDA CONSTITUEM O PIOR EXEMPLO…” (16: 60). “E AQUELES QUE NEGAM O ALÉM TEMOS PREPARADO PARA ELES UM CASTIGO DOLOROSO.” (17:10). O negar a realidade do Akhira não se resume a uma negação formal baseada em descrença, mas sim é a atitude de negligenciar os Preceitos Divinos buscando como meta única da existência o satisfazer nossas próprias paixões, caprichos e desejos, elegendo-os como ídolos para os quais todos os nossos esforços e todo nosso tempo é devotado. Nessa escala divina de valores com a qual nossas vidas e nossas ações serão pesadas, absolutamente nada das pretensões humanas é levada em consideração. Nas fiéis tradições consta que o Mensageiro de ALLAH (saaw) tenha dito: “Quando um homem morre cessam todas suas obras, com exceção de três: a caridade ininterrupta, o conhecimento útil que tenha deixado a outrem ou um bom filho que peça a ALLAH por ele”. Invariavelmente, o ser humano torna-se cativo de suas ações ao fechar os olhos paras este mundo, deixando para trás todas as aparências externas e todas as escalas de valores forjadas pela vaidade humana. Imam Ali (as) disse: “Existem três amigos para um muçulmano. O primeiro amigo é o que diz: estarei contigo, quer você esteja vivo ou morto, este é sua Ação. O segundo amigo é o que diz: eu estarei contigo até a entrada de seu túmulo, então eu o abandonarei, este é seu filho. O terceiro amigo é o que diz: eu estarei com você até a sua morte, e este é a sua riqueza (seus bens), que pertencerão a seus herdeiros quando ele morrer”. Parte Dois. Diz Allah, O Altíssimo, no Alcorão: “SABEI QUE A VIDA TERRENA É SOMENTE JOGO, DIVERSÃO, VAIDADES, MÚTUA VANGLÓRIA E RIVALIDADE REFERENTE A MULTIPLICAÇÃO DOS BENS E DOS FILHOS; É COMO A CHUVA QUE COMPRAZ OS CULTIVADORES POR VIVIFICAR A PLANTAÇÃO, LOGO, COMPLETA-SE SEU CRESCIMENTO E A VERÁS AMARELADA E TRANSFORMADA EM FENO. NA OUTRA VIDA HAVERÁ CASTIGOS SEVEROS, E A INDULGÊNCIA E COMPLACÊNCIA DE ALLAH, QUE É A VIDA TERRENA SENÃO UM PRAZER ILUSÓRIO?” (57: 20). Este versículo sagrado discorre de modo esplêndido e conciso sobre a natureza da vida neste mundo. O versículo se inicia detalhando as atividades nas quais a maioria dos seres humanos gastam seu tempo de vida e sua motivações. Em seguida, declara que tudo isso está incluso em um ciclo efêmero que termina com a morte, e então, apresenta a realidade maior da vida eterna: a punição ou a misericórdia divina. A efemeridade deste ciclo seria por si só um motivo relevante para que o humano meditasse sobre o verdadeiro objetivo de sua existência e revisse sua escala de valores. Um certo número de questões perturbadoras tem sido sistematicamente afastado da mente do homem: Qual a finalidade de minha existência? Fui criado para trabalhar de sol a sol para juntar coisas que a morte, inevitavelmente tirará de mim? Se o objetivo último de minha vida é comer, beber, dormir, acasalar e procriar porque foi me dada a razão se mesmo um cão não precisa dela para cumprir tudo isso? Estas e outras perguntas do mesmo teor surgem a um homem que tenha desenvolvido alguma sabedoria sobre si mesmo, e a menos que ele as considere seriamente não alcançará nenhum amadurecimento real. Algo que é profundamente perturbador para o homem que tenha sua consciência absorvida neste mundo, é a luta constante pelo acúmulo de bens e a luta ainda maior que segue a primeira pela manutenção do que juntou. A insegurança quanto ao dia de amanhã e o confronto com a realidade de que tudo lhe será tirado pela morte. Imam Assadeq (as) disse: “Aquele que devota seu coração a este mundo estará sujeito a 3 condições: preocupação sem fim, insaciáveis desejos e fútil esperança”. O Din (Religião) a seu turno, dispõe o coração humano ao equilíbrio e ao trato dos assuntos deste e do outro mundo segundo o seu grau de importância. Visa libertar o homem das algemas deste estado de ignorância que o arrasta e o faz viver como um escravo de todas as formas de ilusão até que a morte o alcança. Sobre este estado de inconsciência Imam Ali (as) comentou certa vez: “Quantos miseráveis (dignos de pena) estão com os dias contados, porém, estão laboriosamente buscando os bens (deste mundo)”. O Islam nos alerta quanto à necessidade de reflexão e o esforço no aproveitamento do tempo que temos a nossa disposição. O Mensageiro de Allah (saas) disse: “Aproveitai 5 oportunidades antes de 5 coisas: tua juventude antes de tua velhice, tua saúde antes de tua doença, tua riqueza antes de tua pobreza, teu tempo livre antes de tua ocupação e tua vida antes de tua morte.” De fato, o tempo é o ítem fundamental da existência humana. Lamentavelmente, poucos usam de sabedoria para administrá-lo e terminam por adotar um estilo de vida onde o tempo lhes possui e não o contrário. O Mundo Moderno caracteriza-se por seu mecanismo sutil de arregimentar o tempo. Somos condicionados a sacrificar o nosso tempo em atividades fúteis de tal modo que, a menos que despertemos para a realidade jamais encontraremos o tempo para o esforço espiritual e para a reflexão sobre nós mesmos e sobre o Akhirah (eternidade). O Islam prescreve o caminho do equilíbrio, do bom senso de não negligenciar nem as atividades da vida prática referentes ao ganho da vida e do cuidado com nossos bens e com nossos dependentes, e muito menos negligenciar nossas obrigações com Allah e o esforço pelas recompensas eternas. Imam Assadeq (as) tratou desse ponto dizendo: “O melhor auxílio a outra vida é esta”. E disse também: “Não é um dos nossos aquele que desiste deste mundo em prol do outro e nem o que desiste do outro mundo em prol deste”. Diz Allah no Alcorão: “TODO SER PROVARÁ O SABOR DA MORTE. NÓS VOS EXPERIMENTAMOS COM O MAL E O BEM PARA VOS POR A PROVA E SEREIS TRAZIDOS ATÉ NÓS”. (21: 35). Assim, todas as circunstâncias, alegrias, tristezas, triunfos e fracassos são aspectos desta prova que é sucedida pelo retorno a Allah. O fim de todas as medíocres expectativas desta vida terrena, de todas as rivalidades e vaidades, distinções, ambições e posses é seguido da confrontação consigo mesmo; com a realidade maior que se descortina com a morte, onde todas as máscaras caem e só resta aquilo que somos e fizemos. Ao descrente e ao iníquo esta confrontação é mais dolorosa. Evidencia o Alcorão: “SE PUDESSES VER OS INÍQUOS NA AGONIA DA MORTE QUANDO OS ANJOS COM AS MÃOS ESTENDIDAS LHE DISSEREM: ENTREGAI VOSSAS ALMAS! HOJE, SER-VOS-Á INFLIGIDO O CASTIGO AFRONTOSO POR HAVEREM DITO MENTIRAS ACERCA DE ALLAH E POR HAVERDES SE ENCHIDO DE SOBERBA DIANTE DE SEUS VERSÍCULOS.” (6 : 93). Tanto quanto a vida terrena, no que se refere a sua realidade física é o efeito do que foi concebido na vida intrauterina, o estado do homem após a morte é o resultado do que tenha realizado na vida terrena. O estado de consciência em que tenha deixado este mundo será o estado em que se encontrará ao adentrar a dimensão do Barzakh (limbo). Diz Allah no Alcorão: “… E ANTE ELES HAVERÁ UMA BARREIRA QUE OS DETERÁ ATÉ O DIA EM QUE FOREM RESSUCITADOS”. (23: 99 e 100). BARZAKH é a denominação desta dimensão intermediária, desta nova realidade que se revela com a morte física. Nesta nova realidade, além dos limites físicos, a natureza e os valores das coisas são inteiramente diversos a este mundo. Nesta dimensão que antecede o Akhirah impera a escuridão e toda luz que pode ser conduzida para lá é a resultante do IMAN (FÉ) e das ações consoantes a ele que o humano realizou neste mundo. Se este Imán (fé) no momento da morte estiver firmemente estabelecido no coração, e se for fundamentado no que Allah revelou (FÉ MONOTEÍSTA) e no conhecimento quanto a profecia (conhecimento do último profeta enviado a humanidade) e baseado em ações dignas e consoantes a Lei Divina, este Imán será a luz de seu portador nas sombras do Barzakh. A intensidade desta luz corresponderá ao grau de consciência e de integridade desta fé. Um sábio dentre os Sufyyah escreveu que existem 5 espécies de escuridão e para cada uma delas há uma luz específica: “A escuridão do amor mundano, a luz para isto é o temor, a PIEDADE (TEMOR A ALLAH), a escuridão do pecado, a luz para isto é o arrependimento, a escuridão do Qabr (túmulo), a luz para isso é o kalima sagrado (axhadu an la iláha illa llah wa axhadu anna Mohammad rasulullah ), o além é escuridão, a luz para ela são as boas ações, o Sirat (ponte sobre o inferno) é escuridão, a luz para ela é o Imán (fé)”. Decerto que um Imán (fé) que não seja forte o bastante para fazer o seu portador estabelecer o Sallah corretamente sem negligenciar o seu tempo correto, cumprir o zakat, consagrar o Jejum de Ramadã, abster-se do ilícito e empenhar-se no bem e na caridade, não será luz suficiente para o momento da morte e a escuridão do além. Mesmo no instante da morte, a força do Imán se manifestará ou não, segundo o modo como foi conduzido no decorrer da vida e certamente uma fé que não tenha sido forte durante a vida neste mundo, não o será também no momento final. De fato, este processo de desenlace depende do grau de consciência adquirido em vida, da qualidade da fé e do estado espiritual da pessoa. A intensidade do sofrimento e da dificuldade no momento da morte é definida por esses fatores. Evidencia o Alcorão: “ELE É O SOBERANO ABSOLUTO SOBRE SEUS SERVOS E ENVIA ANJOS CUSTÓDIOS ATÉ QUE A MORTE CHEGUE A ALGUM DE VÓS, ENTÃO NOSSOS MENSAGEIROS ANGELICAIS RECOLHEM A ALMA, SEM DESCUIDAR-SE DE NADA.” (6: 61). E ainda: “QUANDO ALCANÇA (A ALMA) A GARGANTA E VÓS ENTÃO FICAIS PERPLEXOS A OLHAR E AINDA QUE NÃO NOS VEJAIS, ESTAMOS MAIS PERTO DELE QUE VÓS…” (56: 83 e 84). A alma é retirada pelos anjos e quando o corpo desce ao túmulo inicia-se um interrogatório em que é inquirida sobre ALLAH, O DÍN, O MENSAGEIRO DE ALLAH, O LIVRO (ALCORÃO) E O IMAM DE SUA ÉPOCA. O muçulmano virtuoso que tenha deixado o mundo com uma fé íntegra terá lucidez para responder satisfatoriamente estas questões. O descrente, o que tenha morrido em estado de ignorância, o hipócrita, o muçulmano que tenha cometido pecados graves sem ter se arrependido ou que tenha negligenciado suas obrigações para com ALLAH, se encontrarão em profundo embaraço e não conseguirão responder a estas questões. Deste interrogatório resultará a condição em que a alma se encontrará até o Dia do Juízo, se em paz e bem-aventurança ou em sofrimento, aflição e trevas. QABR (túmulo) é uma denominação genérica, não apenas um lugar físico como em nossa dimensão. Mesmo no caso de um corpo cremado, desaparecido nas águas, despedaçado por feras a alma ocupa um lugar no Barzakh ao qual denominamos Qabr e sua capacidade de compreensão e seus sentidos permanecem. Como uma criança que ao nascer pouco compreende do que está a sua volta, a alma tem um período variável de entorpecimento próprio do processo de transição (o modo como a morte se opera possui considerável influência nesse processo). Nesta dimensão intermediária, o alcance da percepção das almas varia tanto quanto os estados de sono e a natureza dos sonhos do seres humanos nesta vida. Com os sentidos permanecem as sensações de prazer e dor, calma e desespero, calor e frio. Os que deixaram este mundo com um Imán (fé) sincero e correto e deixaram para trás ações condignas, gozarão de serenidade e luz, os que morreram desprovidos de fé ou com uma fé equivocada ou com transgressões graves sofrerão as terríveis aflições do Qabr e serão oprimidos pela escuridão. Estágios de consciência ou estágios de inconsciência espiritual, forte condicionamentos e expectativas na vida física, apegos a ideias ou sensações vividas, elos mentais ou emocionais, presença ou não, no coração espiritual de uma pessoa, de energia espiritual proveniente da oração ou do Dhikr (recordação de Allah), esses e muitos outros elementos determinam o estado em que as almas se encontram nesta dimensão. Evidencia o Alcorão: “ALLAH DARÁ FIRMEZA AOS QUE CRÊEM COM A PALAVRA FIRME, NESTE MUNDO E NA VIDA FUTURA.” (14: 27). Os que creem e buscam sinceramente obedecer a ALLAH são cobertos pela misericórdia divina e protegidos dos tormentos. Nas tradições atribuídas ao Profeta (saas) consta que o Imán, o Sallah, o Jejum, o Zakat, o Dhikr, a recitação do Alcorão e todas as boas ações do Muçulmano tornam-se seus guardiões no Qabr. Se em linhas gerais, é possível traçar um quadro dessa realidade metafísica, é muito difícil definir com precisão os múltiplos estados possíveis em que os que deixam este mundo se encontram na dimensão do Barzakh. A multiplicidade de fatores que determinam estes estados também não pode ser de todo compreendidos. Tal conhecimento, em muitos de seus aspectos, está além da compreensão comum da grande maioria de nós. O que podemos ter em mente como uma idéia suficientemente adequada é que a realidade metafísica possui uma natureza que foge dos limites que conhecemos do tempo e do espaço, e que as sensações oníricas (os estados de sono e o que conhecemos como sonhos) se assemelham a algo da realidade metafísica existente no Barzakh. Falsas Noções Sobre a Vida após a Morte As questões até aqui abordadas em todos os tempos suscitaram a inquietação e inumeráveis teorias entre os seres humanos. Muito embora Allah tenha concedido o Conhecimento correto a seus Mensageiros para que orientassem os povos sobre todas as questões da vida humana, a humanidade na maioria das vezes negligenciou a orientação divina e abraçou crenças forjadas e teorias sem fundamento sobre esses temas. Desde o início dos tempos Xaitan e seus seguidores dentre os gênios e os humanos propagaram falsas concepções e crenças que com o decorrer do tempo imprimiram-se fortemente em todas as sociedades, distorcendo mesmo o conhecimento revelado. As principais falsidades propagadas sobre o além foram a teoria da reencarnação e a crença em uma possível comunicação com os mortos; ambas, de origem pagã. A teoria da reencarnação advoga que a alma ao deixar este mundo retorna a ele em outro corpo, tal processo se repetiria sucessivas vezes, o que alguns dos que defendem esta teoria justificam como sendo um processo de evolução da alma. Esta crença tornou-se comum entre os povos antigos à medida que se afastaram do MONOTEÍSMO original e caíram na ignorância espiritual, na idolatria e nas práticas mágicas. Esta teoria se opõe a MENSAGEM DOS PROFETAS (o DÍN), pois todos os mensageiros de Allah e todas as escrituras divinamente reveladas afirmam claramente que: Allah decretou ao homem uma vida terrena, a morte física, a ressurreição no dia do Juízo, o julgamento e o destino eterno (akhirah) seja no paraíso ou no inferno. A teoria da reencarnação por sua vez desmente os profetas de ALLAH, tenta ludibriar o homem quanto a realidade do Akhirah, dando-lhe falsas esperanças e desviando-o da Orientação Divina. Nos últimos 150 anos, os defensores da reencarnação no ocidente têm tentado sem sucesso, provar a veracidade de sua crença se apoiando em pesquisas científicas. O fato, porém, é que nenhum cientista sério jamais corroborou tal teoria, o que alguns tentam justificar como provas de reencarnação é na verdade a constatação de uma outra teoria amplamente aceita pela ciência que é a herança genética. Os avanços das pesquisas sobre herança genética tendem a desmascarar as pretensões dos defensores da reencarnação. Quanto a crença numa possível comunicação com as almas dos mortos, também se originou do ideário pagão nos tempos antigos e incorporou-se a crença popular europeia no final do séc. XIX sob o nome de Kardecismo. O fundador deste movimento buscou revestir as antigas práticas pagãs de um caráter cristão, entretanto NEM NAS ESCRITURAS E NEM NOS DIZERES ATRIBUÍDOS A JESUS OU A QUALQUER OUTRO PROFETA É POSSÍVEL ENCONTRAR QUALQUER APOIO A ESSA CRENÇA. Na verdade nenhum dos autênticos mensageiros de ALLAH jamais praticou ou recomendou qualquer prática desse tipo. Mas a questão é: podem os mortos se comunicar com os vivos? No Barzakh, a alma pode ouvir e mesmo ver (se lhe for permitido) tudo o que provém do mundo terreno. Em variados níveis de consciência a alma pode estar ciente do estado em que se encontram seus parentes no mundo físico. Porém, a alma não pode transpor os limites da dimensão em que se encontra. O que explica os inúmeros e corriqueiros fenômenos de suposta comunicação e que tais fenômenos são operados não pelas almas dos mortos, mas sim, pelos gênios a serviço de Xaitan que utilizam este estratagema para ludibriar e manipular os humanos neste mundo. Esses seres fazem uso de seus poderes de mistificação para se fazerem passar por pessoas já falecidas. Nas tradições consta que o Mensageiro de Allah tenha dito: “Todo humano desde o seu nascimento tem a acompanhá-lo um gênio maligno (a serviço de Xaitan) que conhece todos os seus segredos, pois circula nele como o sangue em suas veias”. Com a morte dessa pessoa, Xaitan eventualmente usa desse artifício para iludir e criar falsas esperanças nos demais usando o que conhece acerca do falecido, pois sua missão e objetivo é desviar e forjar falsas crenças sobre o invisível e o Din. Ganhando a confiança dos incautos, ele propaga crenças como a reencarnação, a inexistência do dia do Juízo, do paraíso e do inferno, fazendo com que desmintam Allah e seus profetas. É precisamente esta oposição ao que foi revelado por Allah a seus profetas e mensageiros o objetivo de Xaitan na propagação dessas falsas crenças. Com efeito, ao negar o dia do juízo, a ressurreição e a existência do paraíso e do inferno os que adotam crenças como o espiritismo se tornam descrentes renegando a Verdade revelada trazida por todos os profetas (as). Ademais, a própria razão para uma suposta comunicação entre os vivos e os mortos levanta uma questão: se a verdade e a orientação divina fosse comunicada por esse meio, então afinal, para que Allah teria enviado os profetas e mensageiros para viverem como homens entre os homens, enfrentarem todo o tipo de vicissitudes e perseguições? Decididamente não há como harmonizar a Mensagem revelada aos profetas com a doutrina espírita. Em alguns casos, Xaitan opera curas e previsões para sustentar a autenticidade de tais fenômenos, iludindo multidões. Algumas dessas manifestações nada mais são do que estados alterados da consciência humana (transes) em que o inconsciente individual do médium entra em contato com o inconsciente coletivo (onde estão registradas as impressões mentais e metafísicas). Em nenhum dos dois casos há de fato uma comunicação com as almas dos mortos. Tais fenômenos nada mais são do que a habilidade de Xaitan em iludir o ser humano. Para por fim, induzi-lo a morrer num estado de descrença e ignorância da realidade espiritual. Consequentemente, aquele que deixa este mundo com essas crenças será considerado no mundo vindouro e no dia do juízo como um descrente, um seguidor de Xaitan e como tal, suas obras serão reduzidas a nada e será atirado no inferno. Diz o Altíssimo no Alcorão: “DIZE-LHES: QUEREIS QUE VOS INTEIRE DE QUEM SÃO OS MAIS DESMERECEDORES POR SUAS OBRAS? SÃO AQUELES CUJOS ESFORÇOS SE DESVANECERAM NA VIDA TERRENA, NÃO OBSTANTE CREREM TER PRATICADO O BEM. ESTES SÃO OS QUE RENEGARAM OS VERSÍCULOS DE SEU SENHOR E O COMPARECIMENTO ANTE ELE; ASSIM SUAS OBRAS TORNARAM-SE NULAS E NÃO LHES RECONHECEREMOS MÉRITO ALGUM NO DIA DA RESSURREIÇÃO. SUA MORADA SERÁ O INFERNO POR SUA DESCRENÇA E POR TEREM ESCARNECIDO MEUS VERSÍCULOS E MEUS MENSAGEIROS”. (18:103 a 106). Palavras Finais. Diz Allah, O Poderoso, no Alcorão: “AQUELES QUE NÃO ESPERAM NOSSO ENCONTRO APRAZEM-SE COM A VIDA TERRENA CONFORMANDO-SE COM ELA E NEGLIGENCIAM NOSSOS VERSÍCULOS”. (10: 7). Dia após dia, convivemos com a morte a nossa volta. Os noticiários, as catástrofes, a perda de nossos parentes, vizinhos e amigos e de fato, pouco ou quase nada meditamos sobre isso. Em nossa escala de valores e prioridades quase sempre a diversão, o trabalho por nossos bens ocupam os primeiros lugares, ainda que o LIVRO DE ALLAH e os exemplos dos profetas (as) e dos Imames (as) sejam evidências de uma realidade que transcende as nossas medíocres expectativas quanto a esta vida. É relatado nos ahadith que o Mensageiro de Allah (saas) tenha dito: “Os sensatos e os nobres são os que mais recordam a morte e estão constantemente a preparar-se para o seu encontro”. Cada novo dia é uma preciosa oportunidade para que nos empenhemos nas boas ações, para que nos examinemos cuidadosamente a fim de rejeitar as más inclinações e nos aproximarmos dos princípios do Din. Queira Allah que este modesto trabalho seja de valia aos muçulmanos e muçulmanas nesse sentido, para que fortaleçam seu din em busca das melhores recompensas nesta vida e na vida futura”. Allahuma Salli Ala Mohammad Wa Ali Mohammad. Abraço. Davi.