quarta-feira, 1 de abril de 2026

IDENTIDADE E SEPARATIVIDADE

Budismo. Livro O Evangelho de Buda. Vida e Doutina de Sidarta Gautama. Por Yogi Kharishnanda. IDENTIDADE E SEPARATIVIDADE. Capítulo III. Kutadanta, o prior - superior de uma ordem religiosa ou militar - dos brâmanes de Danamati aproximou-se respeitosamente do Bem-aventurado, saudou-o e disse-lhe: Asceta, fui informado de que o senhor é o Buda, o Santo, o Onipotente, o Senhor do Mundo. Porém, se isso fosse verdade, o senhor não teria vindo como um rei com toda a glória e onipotência? O Bem-aventurado respondeu-lhe: Os seus olhos estão cegos. Se não estivesse turva a sua visão, veria a glória e a onipotência da Verdade. Kutadanta replicou-lhe: Mostre-me a Verdade e a verei. Mas a sua doutrina não tem consistência. Se tivesse, perduraria, porém, como não tem, desaparecerá. O Bem-aventurado respondeu-lhe: A Verdade é eterna. Não desaparecerá jamais. Kutadanta objetou dizendo: Dizem que o senhor ensina a Boa Lei, no entanto, desdenha a religião. Os seus discípulos menosprezaram os ritos e as cerimônias. Negam-se a sacrificar no altar dos deuses. Dizendo que não é pelo sacrifício que se mostra a verdadeira devoção aos deuses. Mas eu entendo que no culto e no sacrifício está a essência da religião. O Senhor Buda lhe explicou: O sacrifício da personalidade vale muitíssimo mais do que a imolação das reses - animais. Quem sacrifica aos deuses seus maus desejos e vis paixões. Compreende a inutilidade de banhar em sangue de animais inocentes a ara dos altares. Em troca, libertar-se da luxúria purifica o coração. Mais vale obedecer às leis da justiça do que adorar os deuses. Qualquer pessoa pode tirar a vida, mas é incapaz de dá-la. Todas as criaturas amam a vida e lutam por ela. A vida é uma dádiva maravilhosa, querida e grata pra todos. Mesmo para os mais humildes por isso deve ser respeitada por todo homem piedoso. Porque a piedade torna o homem terno para com os fracos e nobre para com os fortes. O homem implora a misericórdia pelos animais, para os quais ele é como um deus. Tudo quanto vive está unido por laços de parentesco, e os animais que vocês matam já lhes deram o doce tributo do seu leito. O macio de sua lã e depositam sua confiança nas mãos dos que os degolam. Ninguém pode purificar o seu espírito com sangue, pois se os deuses são bons, não lhes pode ser agradável o sangue. E se são maus, este não basta para suborná-los. Sobre a inocente cabeça de um animal não é possível colocar nem o peso de um fio de cabelo das maldades e erros pelos quais cada um deve responder pessoalmente. Porque cada qual deve prestar contas de si mesmo segundo a imutável aritmética do universo. Esta distribui o bem para o bem e o mal para o mal. Dando a cada um a sua medida de acordo com suas ações, palavras e pensamentos. Sendo vigilante, exata, imutável e implacável, faz que o futuro seja o fruto do passado. Feliz seria a Terra se todos os seres estivessem unidos pelos laços da benevolência e só se alimentassem de alimentos puros, sem derramamento de sangue. Os grãos dourados, os frutos reluzentes e as ervas saborosas que nascem para todos bastariam para alimentar e dar fartura ao mundo. Kutadanta era muito piedoso, e como havia sacrificado muitas vítimas, inquietou-se e sua consciência encheu-se de remorso. Compreendendo o quanto era insensato crer que a efusão de sangue bastaria para apagar os pecados. Então perguntou ao Bem-aventurado: O senhor acredita Mestre, que a alma renasce e evolui no transcurso das vidas e que, sujeita a lei do karma, deve colher o que semeia? Pergunto-lhe por que me disseram que o senhor ensina a inexistência da alma. E que seus discípulos aspiram a inexistência a total aniquilação do eu, como a suprema felicidade do nirvana. Se eu sou apenas uma combinação de elementos, devo desintegrar-me e desaparecer ao morrer. Se sou mera combinação de ideias, pensamentos, sensações e desejos, o que será de mim quando o meu corpo se desintegrar? Onde está essa infinita felicidade e que falam os seus discípulos? É uma palavra vã, sem sentido, uma ilusão. Quando medito nos seus ensinamentos, só vejo o nada, a aniquilação, o não ser, como destino final do homem. O brâmane, você é religioso e tem zelo. Inquieta-se, mas em vão se atormenta, porque lhe falta o mais necessário. Por erro ou por ignorância, os homens gozam na ilusão de que suas almas são distintas e existentes por si mesmas. Seu coração, ó brâmane, ainda está apegado a personalidade. Você aspira ao céu, porém busca e espera no céu os prazeres da personalidade. Assim não poderá encontrar a felicidade na Verdade imortal! Certamente eu lhe digo: o Bem-aventurado não veio ensinar a morte, e sim pregar a vida. Você não discerne entre o morrer e o viver. O seu corpo morrerá, pois os sacrifícios não o salvarão. Busque então a vida do espírito. Onde está a personalidade não pode estar a Verdade, e quando se pratica conhecendo a Verdade, a personalidade desaparece. Faça com que o seu espírito repouse na Verdade. Difunda a Verdade e ponha a Verdade na sua alma. E na Verdade você viverá eternamente. O Eu é a morte. A verdade é a vida. O apego ao eu e à personalidade é morte contínua. Ao passo que quem vive e se move na Verdade alcança o nirvana. Kutadanta tornou: Venerável Mestre, onde está o nirvana? O Bem-aventurado disse: Onde quer que se obedeça a lei. Kutadanta replicou: Então o nirvana não está em parte alguma e, portanto, não tem realidade. O Bem-aventurado: você não me entendeu. Escute e responda. Qual é a morada do vento? Onde ele habita? Kutadanta: Em parte alguma. O Bem-aventurado: Então o vento não existe? É uma ilusão. Kutadanta não soube responder e o Senhor Buda tornou a perguntar-lhe: Diga-me ó brâmane: Onde reside a sabedoria? Está em algum lugar? Kutadanta: A sabedoria não tem lugar determinado. E o Bhagavad disse: Você dirá que não há sabedoria, nem justiça, nem salvação porque, como o nirvana, elas não tem lugar determinado? Assim como a brisa veloz  atravessa o mundo durante o calor do dia, também o Tathágata vem refrigerar o espírito humano. Como o delicado e suave sopro que alivia o calor de todo sofrimento. Kutadanta replicou: Parece-me que o senhor prega uma excelsa doutrina, porém não posso entendê-la. Permite-me outra pergunta? Se a alma não existe, como pode existir imortalidade? Se a atividade da alma cessa, os nossos pensamentos também cessarão. O Senhor Buda respondeu: A nossa faculdade de pensar desaparece, todavia os nossos pensamentos continuam existindo. Cessa o raciocínio, contudo continua o conhecimento. É como se durante a noite um homem tivesse necessidade de escrever uma carta. Ele acende a luz, escreve a carta e uma vez escrita a carta, apaga a luz. Embora a luz esteja apagada, a carta continua escrita. De modo semelhante o raciocínio cessa, mas o conhecimento persiste. A atividade mental cessa, mas a experiência, o conhecimento e o fruto de nossas boas ações não são perdidos. Kutadanta: Diga-me, senhor, que será da minha personalidade quando seus componentes se dissociarem? Se minhas ideias desaparecerem, e meus pensamentos deixam de ser meus. Se minha alma já não é minha, que é feito da personalidade? Dê-me um exemplo senhor meu. O Bem-aventurado: Suponha que um homem acenda uma lamparina. Ela arderá a noite inteira? Kutadanta: Pode ser que sim. O Bem-aventurado: Bem, mas a chama que arde na primeira metade da noite, arde na segunda? Kutadanta pensou que era a mesma, porém, receoso de um sentido oculto, respondeu: Não, não é a mesma. O Bem-aventurado: Então haverá duas chamas: uma durante a primeira metade da noite e outra durante a segunda? Kutadanta: Num certo sentido não é a mesma chama, todavia em outro sim, porque se constitui da mesma matéria e da mesma luz, servindo para o mesmo fim. O Bem-aventurado: Você dirá que a chama que ardeu ontem é a mesma que arde hoje na mesma lamparina alimentada pelo mesmo óleo e iluminando o mesmo lugar? Kutadanta: Pode ter se apagado durante o dia. O Bem-aventurado: Suponha que a lamparina tenha estado acesa durante a primeira metade da noite e apagada durante a segunda. Se alguém tornar a acender, dirá que a chama dela é a mesma? Kutadanta: Num sentido é diferente e em outro é a mesma. O Bem-aventurado: O tempo durante o qual a lamparina esteve apagada tem algo a ver com a chama ser ou não a mesma? Kutadanta: Não senhor. O tempo não interfere em nada, quer seja a mesma ou não. O bem-aventurado: Bem, então admitimos que em certo sentido a chama de hoje é a mesma de ontem. E que em outro sentido ela muda a cada instante. Então, as chamas da mesma natureza e da mesma intensidade que iluminam lugares idênticos, são de certo modo as mesmas". Kutadanta: Sim. senhor. O Bem-aventurado: Suponhamos agora um homem que pensa como você, que sente como você, que age como você. Não será o mesmo que você? Kutadanta: Não, Senhor. O Bem-aventurado: Você nega que a lógica que lhe parece boa para uma coisa também o seja para as coisas do mundo? Kutadanta refletiu um instante e respondeu pausadamente: Não nego. A mesma lógica impera em todo o universo, porém, na minha personalidade há algo que a distingue completamente das demais personalidades. Pode haver outro indivíduo que sinta, pense e proceda como eu, todavia não será eu. O Bem-aventurado: Verdadeiramente, Kutadanta, esse outro homem não será você. Contudo, diga-me: o estudante que vai a escola é o mesmo depois de terminados os estudos? O que cometeru um crime é a mesma pessoa quando ao ser castigado, lhe cortam as mãos e os pés? Kutadanta: são as mesmas pessoas. O Bem-aventurado: estará então a identidade constituída pela continuidade? Kutadanta: Não apenas pela continuidade, mas também pela identidade da natureza. O Bem-aventurado: pois se você admite que duas pessoas podem ser idênticas no mesmo sentido que temos dito que as chamas são as mesmas. Deve reconhecer que, nesse sentido, outro homem da mesma natureza, resultante do mesmo karma, é o mesmo que você. Kutadanta: Reconheço. O bem-aventurado: Pois nesse sentido você é o mesmo hoje que ontem. A sua natureza pessoal não consiste da matéria de que está formado o seu corpo. No entanto, da forma ou configuração do seu corpo, de suas sensações e pensamentos. A sua personalidade é uma combinação de elementos. Onde quer que eles estejam, ali você está. Assim, pois, em certo sentido, reconhece a sua personalidade, com ela se identifica e dá-lhe continuidade segundo o seu karma. Você a chamaria de morte e aniquilação, ou vida e continuação da vida? Kutadanta: Eu a chamaria de vida e continuação de vida, porque é a continuação da minha existência. Mas o que me preocupa é a continuação de minha personalidade, e modo que todo homem, seja ou não idêntico a mim é uma personalidade distinta. O Bem-aventurado: Muito bem, essa é a continuação que você deseja, e esse é o apego a personalidade. Esse é o erro que lhe acarreta inquietudes inúteis. Aquele que se apega à personalidade tem que passar por inúmeros nascimentos e mortes. Morrerá continuamente, porque a natureza da personalidade é morte incessante. Kutadanta: Como é isso? O Bem-aventurado: Onde está a sua personalidade? Kutadanta não soube responder. O Bem-aventurado: Essa personalidade que você tanta estima, muda incessantemente. Anos atrás, você foi menino, depois jovem e agoraé um homem. Que identidade pessoal há entre o menino e o homem? Não há, como também não havia, conforme vimos, na chama da lamparina que ardeu durante a primeira metade da noite. Que ardeu ao reacender-se depois de apagada. Qual é a sua verdadeira personalidade: a de ontem, a de hoje ou a de amanhã? Kutadanta perplexo respondeu: Senhor do Mundo, vejo meu erro, porém ainda estou confuso. O Senhor Buda prosseguiu dizendo: Os princípios constituintes da sua personalidade são o resultado das suas ações em vidas passadas. Em futuras existências e você colhera o que com suas ações está semeando no presente. Kutadanta: Certamente, senhor, não me parece justo que outros colham o que eu semeei agora. O Tathágata ficou um momento silencioso e depois disse: Será inútil todo ensinamento? Não compreende que essas outras personalidades são você mesmo? Você, e não outro, colherá o que semeou. Suponha um homem mal-educado, que sofre as consequências de sua infeliz condição. Em menino foi preguiçoso e, quando se fez homem, não tinha ofício nem profissão para ganhar o seu sustento. Você dirá que a miséria dele não é o resultado de sua conduta. Por que a personalidade do menino é a mesma do adulto? Em verdade lhe digo que nem nas alturas do céu nem nas entranhas da terra encontrará um lugar onde possa fugir ao resultado das suas más ações. E da mesma maneira irá receber a recompensa de suas boas obras. Quem volta são e salvo de uma longa viagem, recebe em sua casa as boas-vindas de seus parentes, amigos e conhecidos. Também o resultado de suas boas ações beneficia o homem que passa desta vida para a outra, se ele seguiu o caminho da justiça. Kutadanta: Creio na glória e excelência das suas doutrinas. Minha vista não pode suportar o fulgor da luz. Contudo, agora compreendo que a personalidade é ilusória, que as orações são palavras ociosas e que os sacrifícios não servem para a salvação. Como encontrar o caminho da Verdade Eterna? Aprendi de memória todo os Vedas - conhecimento de ordem mística e espiritual - e não encontrei a Verdade. O Bem-aventurado: A erudição não é uma coisa má, todavia a verdadeira ciência, o conhecimento útil, só pode ser obtido pela prática. Reconheça a verdade de que o seu próximo é seu semelhante. Compreenda que a personalidade é morte e a verdade é imortal. E Kutadante exclamou: Oxalá eu pudesse refugiar-me no Buda, no Dharma e na Ordem. Aceite-me por discípulo e faça-me compartilhar da felicidade da imortalidade. Abraço. Davi.